Time Out: Tributo a Dave Brubeck.

“Espero pelo dia em que tiver gravado tudo o que compus, mas acho que esse dia nunca vai chegar”.  

Dave Brubeck, 2002.

Nunca me esquecerei do dia em que comprei o livro 1001 Discos Para Ouvir Antes de Morrer. Até aquele momento, o jazz era um estilo musical com o qual eu não gastava muita atenção até que resolvi ouvir as indicações daquela obra que caíam neste estilo musical. Resolvi começar por um tal de Time Out, pois já havia ouvido falar no nome de Dave Brubeck, mas nunca tinha ouvido nada de sua música. Creio que poucas descobertas musicais foram tão impactantes para mim. Me lembro que ouvi o disco por umas três vezes seguidas e durante aquela semana mais algumas inúmeras vezes. Portanto, se hoje sou um fã confesso de jazz, isso se deve a Dave Brubeck. Tudo bem, meus preferidos ainda são Miles Davis e, principalmente, Chet Baker, mas foi Brubeck quem abriu as cortinas para o espetáculo do que podemos chamar de música clássica americana. Talvez, por este fato, por esta iniciação, a notícia de sua morte tenha me impactado bastante. Significa a perda de um grande músico, de um enorme talento e, com certeza, o mundo da música fica mais débil sem ele.
Brubeck e seu quarteto atacando de Take Five.
Poucos nomes podem se orgulhar de influenciar toda uma geração do jazz. Dave Brubeck era incontestavelmente genial. Sua música dissonante era temperada por um experimentalismo que desfilava uma quantidade arrebatadora de elementos. As parcas raízes do jazz de Nova Orleans e de Chicago de misturavam ao som de Nova York, o que dava um sabor todo diferente à sua música. Como sobremesa ainda podíamos nos deleitar com toques providenciais de música clássica, elementos latinos, orientais e indianos. Musicalmente, abusava dos mais diferentes compassos e seu piano parecia um instrumento rítmico soltando algumas melodias na hora certa como se tudo fosse milimetricamente calculado. Entretanto, se tornou muito famoso por sua técnica de improvisação.
Mais uma de Brubeck e seu quarteto: Blue Rondo A La Turk. 
David Warren Brubeck nasceu na cidade de Concord, Califórnia no dia 6 de dezembro de 1920. Aos quatro anos de idade teve seu primeiro contato com o piano. Seu pai o proibia de ouvir rádio com a justificativa de que se quisessem ouvir música, deveriam saber tocá-la. Assim, ele e os irmãos passaram a estudar música clássica, religiosa e popular. Sua vida musical mudou quando encontrou seu parceiro mais importante. Paul Desmond, que tocava magistralmente seu sax alto, formou com Brubeck um dos maiores quartetos da história do jazz que era completado por Joe Morello na bateria e Gene Wright no contrabaixo. Esta formação foi a responsável pela gravação do clássico Time Out de 1959.  É neste álbum que encontramos Take Five, composição de Desmond, que se tornou a mais famosa canção do grupo e foi o primeiro single de jazz a vender um milhão de cópias. Pouco antes de lançar este álbum, Brubeck fez uma homenagem ao universo Disney como o disco Dave Digs Disney que contava somente com temas das obras daquele estúdio de animação. Esta atitude foi tomada como uma tentativa de popularizar seu nome, pois já não era primeira vez que investia em algo de natureza comercial. Após a separação do quarteto épico, montou um grupo de jazz com seus filhos e a morte de Desmond em 1977 colocou um fim na esperança de ver os dois gênios reunidos novamente. Brubeck faleceu, ontem, dia 05 de dezembro de 2012, véspera de seu 92º aniversário, vítima de uma parada cardíaca. Um dia triste não só para jazz, mas também para os amantes da boa música.
Dave Brubeck em 2006 no Concerto das Lendas Vivas do Jazz.

O Grande Álbum: Time Out (1959)

Dave Brubeck possui grandes álbuns em sua discografia (como Dave Brubeck Trio de 1950, Jazz Goes to College de 1954, Time Further Time de 1961, o grande Bossa Nova USA de 1962 e o vanguardista Paper Moon de 1981), mas nenhuma obra de sua extensa carreira se compara a este Time Out. Ele já vinha buscando o sucesso de formas até criticáveis, mas foi o pioneiro nos concertos em universidades (os famosos goes to college).  Até aqui, era apenas um inspirado improvisador com boas canções e um um grande parceiro musical. Quando o disco começa a girar percebemos uma quantidade enorme de compassos inapropriados para a música que se propunha a fazer, mas que miraculosamente se tornavam geniais.  A faixa Take Five é um exemplo vivo disto. Seu compasso é, segundo os críticos, inapropriado para o estilo que se propõe (o swing) e o improviso de Brubeck é quase percussivo se contrapondo à melodia e virtuosismo do sax alto de Desmond. Já Blue Rondo A La Turk é uma mostra da importância dos músicos Joe Morello e Gene Wright que também são indispensáveis na magistral Three to Get Ready que se alterna entre dois compassos diferentes. É bom lembrar que no mesmo ano, era lançado o maior disco de jazz de todos os tempos, Kind of Blue de Miles Davis e que o Free Jazz estava em seu dias de recém-nascido nos braços de John Coltrane e Ornette Coleman. Seria injustiça não citar a belíssima Strange Meadow Lark que representa a ironia máxima do disco que fez um sucesso estrondoso, mesmo cercado pela ideia preconceituosa dos críticos da época que acreditavam que o bom jazz tinha uma métrica já forjada e que não permitia a inserção de diferentes culturas ou até mesmo músicas de sucesso comercial. Kind Of Blue é o maior de todos os disco de jazz, mas Time Out é o maior exemplo da rara combinação da arte máxima com a música popular.
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