Nossas Músicas Nunca Foram Tão Ruins.

Desabafos e Reflexões Acerca da Atual Cena Musical Brasileira
Texto inspirado por Robert Crumb.
 

Sei que muitos que se predispuserem a ler este não tão breve texto podem, num primeiro momento, se perguntar quem foi Robert Crumb, o inspirador da postagem. Crumb é um quadrinista americano conhecido por ser um colecionador de gravações da antiga música americana, ou seja, é um amante da música do passado. Sendo assim, nada mais natural que suas histórias em quadrinhos sejam diversas vezes inspiradas por este seu gosto pessoal. Bom, uma das últimas aquisições para a minha biblioteca pessoal foi uma antologia deste fabuloso artista (sim, considero quadrinistas verdadeiros artistas, assim como pintores ou escultores) chamada singelamente de Blues. Nesta coletânea estão reunidos alguns trabalhos de Robert Crumb que foram baseados no seu amor pela música, mais precisamente em antigas canções de blues, country, folk e o princípio do jazz. Algumas de suas idéias apresentadas nesta coletânea me fizeram pensar se as mesmas se aplicariam nos dias de hoje e para meu espanto elas se aplicam com muito mais vivacidade do que nos dias de suas publicações. Então, vamos ao meu desabafo…

 

O lema da nossa atual geração Status Quo: Comodismo, Ignorância e Alienação.

Brasil é um celeiro de estilos musicais. Se existe uma coisa que nós brasileiros não podemos reclamar é da diversidade musical de nosso país. Talvez pela extensão territorial e a multi-variedade cultural, tenhamos tantos ritmos e estilos vagando sob o rótulo de MPB. Entretanto, já não podemos mais garantir a qualidade de tudo o que é colocado sob esta nomenclatura musical e, daí, nascem denominações pejorativas que simplesmente refletem a qualidade musical de tais estilos. Desafortunadamente, a banalização cultural em nosso país não se dá somente na música. Basta ligar a televisão em canais abertos, cuja maioria da população tem acesso, no horário nobre para encontrar verdadeiras vídeo-aulas de desvio de caráter e exaltação à vida supérflua que só estimula o indivíduo a parar de pensar por si mesmo.

M.P.B.: Esta sigla hoje ainda representa os grandes nomes da música popular brasileira ou se refletida nos dias de hoje ela se torna música pobre brasileira?

Voltando ao quesito musical, não tenho nada contra nenhum estilo a menos de gosto pessoal, mas o valor dado a certas mensagens e canções mostram a real situação do pensamento e até mesmo do intelecto do brasileiro. A vida moderna, ou melhor, as facilidades criadas com a tecnologia, tirou o hábito saudável de se sentar para ouvir música, analisar encartes, ler as letras, ou seja, um conjunto de atividades que elevavam a experiência musical e inspiravam uma busca por músicas de qualidade. Hoje, baixamos uma música e a colocamos de barulho de fundo para as mais diversas atividades sem prestar a mínima atenção no que estamos ouvindo. Desta forma, as onomatopeias se tornam tão bem aceitas aos nossos ouvidos, elas são extremamente musicais e não é necessário pensar no real sentido do que elas querem dizer. É mais fácil entender a mensagem de algo como “Dançar, pular que hoje vai rolar Tchê tcherere tchê tchê”  do que pensar sobre o significado de algo como “Te levo pra festa e testo o teu sexo com ar de professor*” e ver que ambas falam exatamente da mesma coisa. Uma reflete a maneira do pensamento de hoje, espelhando cristalinamente a maneira como a juventude encara um relacionamento.  Em contrapartida, o gênio Cazuza, nos mostrou como involuímos o nosso intelecto musical. Na minha visão, este nosso novo comportamento de ouvinte junto ao fato das rádios  e emissoras de tv comercializarem suas programações é o que constrói e solidifica este emburrecimento musical do nosso país!

Cazuza: Faz Parte do Meu Show. A poesia envolve uma mensagem
de um cara que não é um “bom moço”?

O pai de Dave Brubeck  (um dos maiores jazziztas de todos os tempos) fez com que os filhos aprendessem a tocar instrumentos musicais com o discurso de que se quisessem ouvir música deveriam ao menos saber tocá-la. Entretanto, até a popularização maciça dos discos e do rádio, se a pessoa quisesse curtir uma boa canção deveria tocar algum instrumento, pois as máquinas de reprodução musical não existiam ou não eram de tão fácil aquisição. Sendo assim, grupos se formavam na vizinhança e se reuniam diariamente junto a conhecidos para tocar e apreciar as mais diversas canções. Isso obrigava as pessoas a desenvolverem um ouvido musical diferente de hoje. A cultura não era baseada na ideia do “quanto mais fácil melhor” que tanto rege nossas ações e reflete até no nosso pensamento e gosto pessoal. Pra que pensar a respeito da mensagem de uma canção? Pra que refletir sobre o diálogo de um filme se os tiros, palavrões e uma pitada de sexo são tão mais interessantes? Pra que ler um livro se o resumo dele está na internet? Este é o problema! Não nos preocupamos em evoluir, em passar de nível, queremos tudo o mais fácil possível e por esta cultura nossas músicas caminham para o precipício! Cazuza fazia parte de uma geração atuante, de um Brasil de mudança. Hoje, nossos artistas pertencem à geração do status quo, que tem tudo pronto, não luta por nada, acha que o governo tem que nos fornecer tudo de modo gratuiro e só quer se resfolegar na banalização total.

 

R$20.000,00. Este o valor mínimo para se tocar numa rádo do Brasil.

Tudo bem! Concordo que o dinheiro tem sua parcela larga de culpa neste processo. Afinal, é fato que no Brasil, hoje em dia, toca nas rádios ou tem videoclipes veiculados nos canais de tv, aqueles artistas cujos empresários despejam largas quantias de vil metal nos bolsos dos comandantes destas mídias. Dizem por aí, que um empresário paga algo em torno de R$20.000,00 para que a música de seu artista seja tocada no rádio. Ou seja, a divulgação dos trabalhos não é feita pela qualidade, mas pela quantidade de dinheiro envolvido na barganha. Já ouviu aquela expressão água mole em pedra dura…? Pois então, é a linha de raciocínio deles. Não quero dizer que antigamente isto não existia, mas parece que até as porcarias de antigamente eram melhores. Qualquer música considerada “brega” (que era o degrau mais baixo musicalmente alcançado) em dias passados tem mais melodia e poesia que todas as músicas que infestam as programações de nossas rádios. Quer um exemplo? Amado Batista! Sim, meu caro, ele vendeu mais discos do que Robero Carlos, mas suas músicas eram consideradas desqualificadas em dias pregressos. Porém, hoje, suas letras são poesias perto dos versos entoados em alto e bom som na mídia nacional. Antes que os mais desavisados me acusem de ser anti-qualquer-outra-coisa-que-não-seja-rock, venho aqui deixar minha indignação contra os veículos que deveriam divulgar este estilo em especial, mas aceitam o famoso “jabá” para tocar coisas como Restart, Fresno e outras bandinhas coloridas com olhinhos pintados e deixam de lado verdadeiros músicos que lutam pela dignidade do rock nacional.

Assistimos na tv quem paga mais para estar lá!

Pra finalizar, mesmo você não concordando com nada do que foi escrito aqui, tenho uma pergunta a lhe fazer que pode, às vezes, mudar sua posição. Todos nós temos, em algum dia, alguma hora, uma música que fica martelando em sua cabeça. Geralmente, o amontoado de melodias que insistem em lhe flagelar os ouvidos mentais formam alguma canção que você ouviu num barzinho, ou num carro que passou com aquele som no último volume, etc. Na maioria das vezes você nem gosta desta música. Agora, pergunto-lhe: esta canção é nova ou antiga? A resposta, e muito menos a pergunta, pode não fazer sentido para alguns, mas para mim, é um caminho para a compreensão da ideia que tentei transmitir…

* Verso da canção Faz Parte do Meu Show de Cazuza.

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