VIVA LA REVOLUCIÓN: A Nova Ordem Literária Digital

Senhoras e senhores, nós estamos tendo o prazer de viver uma revolução que será tão importante quanto a invenção da escrita ou da imprensa para a humanidade. Vivemos uma transição, de certo modo brutal, de tanta importância quanto a vivenciada pelos gregos quando estes inventaram o alfabeto. A mudança para a era literária digital está acontecendo, não de maneira gradativa, mas evolui a passos largos e cada dia mais leitores experimentam o conforto e interatividade dos e-books, ou livros digitais. Claro, existem os contrários aos avanços tecnológicos aplicados ao meio literário. Lembrem-se que até Sócrates, um defensor da retórica, do diálogo e do discurso, era contrário à escrita, maior revolução intelectual do seu tempo. Com a invenção das vogais no alfabeto grego, a escrita se disseminou dentre os jovens intelectuais da época antiga e Sócrates temia um desastre. Defensor ferrenho da linguagem oral ele acreditava que somente a palavra falada estimulava o questionamento e a memória, os únicos caminhos para o conhecimento profundo e a escrita viria para acabar com o fato de questionar. Na opinião dos pensadores socráticos, a escrita daria “não a verdade, mas a aparência da verdade“. Entretanto, o ilustríssimo pensador não estava de todo errado. A escrita causou uma revolução não somente na comunidade intelectual grega, mas em toda a história da humanidade e permitiu um salto desmedido no pensamento ocidental.
Porém, nestes quase dois mil e quinhentos anos de escrita nenhuma revolução considerável houve. Apesar da invenção da imprensa por Gutemberg em 1445, podemos dizer pouca diferença existe entre um papiro de 3000 anos ou numa folha de jornal dos nossos tempos e esta diferença é meramente física e na maneira de disseminar a leitura. Apesar de todos os avanços desde a Grécia antiga, a leitura ainda era, até alguns anos passados, uma ação solitária e sem interatividade entre os leitores. Por isso, hoje vivemos uma revolução literária digital que estabelecerá uma nova ordem literária onde a retórica de Sócrates pode ser aliada à escrita na construção mais rápida de conhecimento. Desde a invenção do papel, esta é a única forma de transmitir conhecimento às gerações futuras. Ou seja, nosso processo escrever-ler é fisicamente executado em um dispositivo inventado por um iluminado oriental em 105 a. C.. Convenhamos que num mundo onde a cada dia a tecnologia avança de modo a tornar a descoberta do dia anterior defasada tendo em vista o avanço de hoje, pensar que lemos e escrevemos em um papel que, mesmo passando por aprimoramentos tecnológicos, tem pouca diferença de experimentação da palavra escrita vivida por aquele chinês há quase vinte e dois séculos. Isso mesmo, vinte e dois séculos. Somente à nível de comparação de”defasagem”, o Orkut, rede social que causou um alvoroço nos meios digitais foi criado em 2004 e desde 2010 é considerado ultrapassado e até mesmo “morto”por seus ex-usuários.
O papel, dispositivo responsável pelo processo escrita-leitura, é uma criação chinesa do século II a. C..  Desde os manuscritos dos monges até uma página enviada por fax, toda a informação e conhecimento acumulado pela humanidade é registrado no papel, mas isto tende à mudar muito em breve.

Pois bem, mas se existe tal revolução quem são os líderes de tal movimento? Os três principais nomes que encabeçam a nova ordem da escrita e leitura atendem pelo nome de Kindle, Kobo e Google Play. Até chegarmos a este ponto foram quase duas décadas. A escrita e a leitura foi lentamente sendo executada em telas de cristal líquido, diodos emissores de luz, já no início dos anos 90 era possível ler livros que tinham versões para os, hoje ultrapassados, palmtops e já não é segredo que no advento do novo milênio era possível efetuar o download de uma infinidade de livros para ler no computador e nos laptops. Por fim, tivemos os smartphones e os tablets que entraram com toda a força no mercado nacional fazendo com que o hábito de ler fosse mudado drasticamente. Os três generais da nova revolução citados mais acima, são os mais novos leitores eletrônicos que estão tomando o mercado literário de assalto e mudando a forma como nós amantes da leitura encaramos nosso prazeroso hábito. Hoje em dia, o site Amazon, líder em vendas pela rede mundial de computadores, já vende mais obras eletrônicas do que obras físicas no mercado norte-americano. Talvez a mudança mais significativa no novo modo de ler seja o caráter interativo dos leitores digitais. O Kindle, da Amazon, tem um dispositivo que exibe os trechos dos livros mais sublinhados por outro leitores e logo será possível o contato entre eles por e-mail e efetuar a troca de experiências que enriquece mais ainda a leitura de uma obra. O futuro da leitura será uma atividade comunitária eletronicamente conectada, segundo o pesquisador Bob Stein.

 

Demorou,  mas a leitura e a escrita são os novos alvos do mundo digital.

 

Já existem livros que trazem trilhas sonoras, vídeos e fotografias. Um exemplo seria o livro recém-lançado no Brasil denominado Grau 26 que traz toda uma nova maneira multimídia na experiência literária. Em contrapartida, muitos destes dispositivos tiram um pouco da intimidade do leitor com o seu livro. Amazon, Apple e Google espiam o leitor de maneira a saber quantas páginas foram lidas e quanto tempo você gasta em cada sessão de leitura e até seus autores preferidos e tais informações já estão sendo utilizadas pelo mercado dos livros para destinar quais lançamentos possuem mais demanda. As editoras já testam os livros digitalmente antes da versão impressa. São lançados pedaços da obra na internet para saber a opinião dos leitores e até mesmo utilizar suas sugestões para finalizar o livro antes de seu lançamento. Já estão surgindo livros coletivos, onde os leitores sugerem personagens e tramas que são enviadas ao autor que desenvolve as histórias, se adaptando ao gosto da maioria, quase um self-service literário. Com certeza, este novo panorama não se trata de uma tentativa de substituição de formatos, mas como uma aliança de formatos, pois os e-books podem disponibilizar a novos leitores um contato com uma maior gama de volumes e a novos escritores um meio barato e eficiente para divulgar seus trabalhos inciais. Bem utilizado, a nova tecnologia pode ser a mola propulsora que irá incentivar que as crianças comecem a ler cada vez mais cedo e se acostumem mais rápido ao hábito mais que saudável da leitura.

 

Enfim, a nova ordem literária já é uma realidade e já me adaptei à ela, em partes. Tenho meu leitor eletrônico com mais de mil volumes adicionados que com menos de 500 gramas de peso são levados a qualquer lugar e posso ler onde quiser. Entretanto, nada substitui o maravilhoso perfume de um livro novo e a relação com o livro nunca irá acabar, pois o manuseio e a troca de páginas são um ritual que o mundo eletrônico ainda não consegue emular, pois querendo ou não, eletronicamente não se pode abrir ou fechar um livro. Por enquanto acredito que uso a tecnologia à meu favor, lendo a obra de maneira digital primeiro e se ela for uma das que acredito que valha a pena estar fisicamente em minha biblioteca, este volume terá o seu lugar garantido nela. E em como toda e qualquer revolução, espero ver qual é o papel da resistência neste caso. Posso dizer que fazia parte da mesma, mas fui convertido ao movimento revolucionário. Em partes…

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