Wells, Welles e A Invasão Marciana de 1938

Os anos cinquenta foram de uma inocência mágica para a maioria da população mundial, que era diretamente influenciada pelas artes. Para nós, contemporâneos da troca veloz de informação, esta influência pode ser classificada um pouco além da inocência, quase como uma ignorância infantil. Entretanto, nos Estados Unidos de meados do século, o cinema foi o responsável por formatar todo o pensamento da população americana que viva tempos tórridos da guerra da informação perpetrada por americanos e soviéticos. Eram ainda tempos de corrida espacial, a ficção científica estava em alta na literatura, cinema e nas mais diversas histórias que eram contadas em tabloides sensacionalistas e livros obscuros. A exploração do espaço por nós, seres humanos, dava seus passos iniciais e a questão da existência de vida alienígena inteligente fora de nosso planeta era o personagem principal a assombrar os pesadelos das pessoas e em meio à tensão da guerra fria, este medo do que vinha do espaço desconhecido era quase uma projeção do que os americanos sentiam em relação ao que poderia vir do outro lado do planisfério pintado de vermelho e adornado por uma foice e um martelo. Mas muito antes da guerra fria e da corrida espacial, os americanos já experimentavam o terror de uma invasão alienígena. Naqueles tempos, era costume dos convivas se aglomerarem para absorverem suas informações pelo rádio, o equivalente à Tv daquela época, já que a televisão era uma recém-nascida e custava alguns milhares de dólares na terra do Tio Sam e sua popularização só se daria após a segunda grande guerra.

Os americanos temiam os russos ou os marcianos?  Ou será que os homenzinhos verdes
não seriam uma alegoria para seus inimigos amantes da vodka…

 

Wells e a Invasão Marciana de 1898

O primeiro personagem da nossa história é H. G. Wells, um dos pilares máximos da ficção científica clássica ao lado de Julio Verne. Escritor britânico, foi membro da Sociedade Fabiana que se opunha à agremiações de centro-esquerda ao lado de Bernard Shaw e Bertrand Russel, que foi classificado por Lênin como um movimento anti-marxista. A obra de Wells já discutia assuntos como a ética na manipulação de animais, guerras nucleares e a criação de um estado mundial. Entretanto, ganhou fama por seus escritos sobre viagem no tempo, homens invisíveis e cientistas loucos.  A invasão alienígena foi o tema escolhido para um de seus antológicos romances, sendo futuramente adaptado duas vezes para o cinema e influenciando até mesmo bandas de rock progressivo. A trama é simplória e até certo ponto inocente. O texto narra uma invasão de marcianos malvados que aterrizam seus discos voadores no nosso planeta, sendo centralizado no transporte extraterreno que pousa em solo americano, obliterando tudo à sua frente com seu raio de calor. Com tal tecnologia, assumem o controle do planeta sem maiores problemas, mostrando aos seres humanos sua fragilidade e que, na verdade, nós não temos o controle de nada, nem mesmo do que causa nossa vitória nesta batalha intergalática sob o título de Guerra Mundos. A primeira edição desta obra foi publicada na Inglaterra em 1898, mas ficou famosa de maneira interdisciplinar quando, em 1938, transmitiram pela rádio CBS um trecho do livro que seria assustador para os americanos dos anos 50 – inocentes e impressionáveis -, narrando, sem intervalos e patrocinadores, uma completa invasão alienígena, ainda rebuscando a infame piada com a música de Ramón Raquello e sua orquestra.


Guerra dos Mundos (1953): Esqueça a adaptação de 2005 com Tom Cruise, a verdadeira essência 
do terror causado pela obra de H. G. Wells esta representado no clássico de 1953.

 

Welles e a Invasão Marciana de 1938

30 de outubro de 1938, 20 horas. Mais um dia das bruxas em solo americano, onde o bordão “gostosuras ou travessuras” era entoado porta-a-porta nas vizinhanças espalhadas por toda a nação. Mas, desta vez, a travessura máxima não viria das ruas, mas do rádio. O romance de Wells inaugura um tema que seria gravado na cultura popular das décadas subsequentes, sendo adaptado, além do cinema, para os quadrinhos e até bandas de rock progressivo se utilizaram da história em seus álbuns conceituais. Entretanto, a exploração mais conhecida deste clássico da ficção científica foi a transmissão radiofônica de Orson Welles naquela noite de 1938.

Orson Welles na rádio CBS.

Orson Welles foi um roteirista, produtor e ator norte-americano que ficou marcado na história do cinema pelo clássico Cidadão Kane, que ganhou o Oscar de Melhor Roteiro Original em 1941. Nascido em 1915, no estado americano do Wiscosin, ficou orfão aos 15 anos, quando começou a se dedicar às artes, já que não gostava de estudar. Sua fama começou quando todos queriam saber quem foi o responsável pela travessura nas ondas do rádio de 1938 e sua figura foi alvo de tanto sucesso que se casou com Rita Hayworth, uma das mais belas atrizes do cinema norte-americano. Foi um dos grandes inovadores das técnicas cinematográficas e tinha uma carreira multilateral dentro da sétima arte, mas teve um desfecho de carreira pouco glorioso.
O programa The Mercury Theatre on the Air foi criado por Orson Welles como uma série que apresentava dramatizações criadas por ele, sendo apresentado semanalmente durante uma hora. Embora não fosse um entretenimento especializado em histórias de horror e mistério, já haviam sido exploradas histórias como Drácula e o Imortal Sherlock Holmes. Mas este programa de rádio entrou para a posteridade como a maior transmissão de uma história de ficção científica feita pelas ondas de rádio ao dramatizar a obra Guerra dos Mundos. A performance de Welles foi tão convincente que muitos americanos realmente acreditaram que os marcianos estavam invadindo a Terra e um pânico nacional foi instaurado . O roteiro da dramatização era simples. Durante uma hora, trechos de músicas eram bruscamente interrompidos por inserções de notícias extraordinárias de radialistas cada vez mais desesperados à medida que iam relatando a evolução da invasão marciana, que era irreversível por sermos indefesos aos seus raios de calor. O texto, narrado por um ofegante jornalista situado no front de batalha, versava sobre a aniquilação do nosso planeta e o trecho mais chocante narrava a batalha de Grovers Mil, New Jersey, onde sete mil foram obliterados por uma única máquina marciana.  Algumas partes da encenação traziam declarações de oficiais do governo americano que afirmavam a veracidade da invasão alienígena e pediam calma para a população. O impacto da transmissão radiofônica de Guerra dos Mundos, que trazia até sons aterrorizantes de destruição marciana, foi tamanha, que ela permanece até os dias de hoje como um dos mais famosos eventos ligados ao rádio, exemplificando de modo ímpar a influência que este veículo de comunicação tinha naqueles dias e motivando posteriores estudos sobre a psicologia do pânico.

Orson Welles se explica à imprensa após sua transmissão do Helloween de 1938.

O problema todomaior foi causado pelas milhares de pessoas que sintonizaram o programa após a introdução inicial que anunciava o início de uma dramatização. Outra nota da CBS que informava que aqueles fatos não eram verídicos só foram apresentados quarenta minutos após o seu início. Neste intervalo temporal o que se tornou realidade foi o pânico que era dramatizado no rádio e as pessoas que não haviam compreendido a transmissão como uma brincadeira se lançavam às ruas em uma fuga sem destino ou lotando celeiros. Outras, dotadas do guerreiro espírito americano, empunhavam suas armas e saíam em busca dos malvados homens de marte, atirando em qualquer coisa que se parecesse  com as maquinas alienígenas descritas no rádio. Declarações subsequentes de pessoas que saíram de suas casas contavam que viam as nuvens de fumaça que eram causadas pelas armas marcianas e algumas destas pessoas até enrolaram toalhas molhadas em suas cabeças como forma de se protegerem do gás venenoso vindo de Marte, mesmo que várias informações afirmassem que até mesmo as máscaras de gás eram inúteis. Às 21 horas daquele dias das bruxas Welles terminava sua dramatização confortando o público e se despedindo dos ouvintes dizendo que se ele não podia ir à casa de cada um comemorando o Halloween, ele acabara de destruir o mundo aos seus ouvidos.

 

Um trecho da dramatização de Welles que causou pânico no limiar da década de 30 do século passado.

As consequências…

Com esta travessura, Orson Welles mostrou ao mundo o poder mobilizador de uma informação catastrófica e esta nova visão mudou toda a nossa compreensão da informação.  Aproximadamente seis milhões de pessoas ouviram a transmissão de Welles e destes, 28% acreditaram que a Terra estava realmente sendo invadida por alienígenas.Setenta por cento destes ainda ficaram apavorados ou perturbados com a suposta notícias. Calcula-se que aproximadamente um milhão de pessoas foram tomadas pelo pânico e este evento mostrou que através do rádio, mesmo sem uma produção exorbitante na retaguarda, era possível fazer a grande massa da população acreditar em algo totalmente absurdo.  Após esta travessura, os jornais ainda falariam dias sobre este acontecimento e as pessoas enganadas se mostravam indignadas com o radialista, requisitando uma punição impiedosa contra ele. É óbvio que isto não ocorreu, visto que, já era de conhecimento geral a exibição semanal, no mesmo horário, das dramatizações de Welles e a introdução já avisava os ouvintes de tal condição fictícia. Como sempre acontece nestes casos, teorias de que nós estamos realmente sendo invadidos por extraterrestres sutilmente e que esta dramatização seria uma forma do governo testar como a população reagiria defronte à verdade, começaram a pipocar nos Estados Unidos. Mas, venhamos e convenhamos, se o objetivo de Welles era pregar um susto no dia do Halloween, ele obteve um sucesso estrondoso.

Mais informações…

  • Para acessar outras dramatizações e ouvir a transmissão de Guerra dos Mundos na íntegra, basta acessar o site http://www.mercurytheatre.info/. Num dos links, inclusive, esta um encontro de Orson Welles e H. G. Wells.
  • Alguns depoimentos interessantes das pessoas que se diziam indignadas pelo susto causado pelo senhor Welles:

MRS. FERGUSON, doméstica de New Jersey: “…Senti que era qualquer coisa de terrível e fui tornada de pânico… Decidimos sair, levamos mantas…

JOSEPH HENDLEY, do Médio Oeste: “…Caímos de joelhos e toda a família rezou…

ARCHIE BVRBANK, encarregada de uma bomba de gasolina: “…O locutor foi asfixiado, por ação dos gases: a estação calou-se. Procuramos sintonizar outra emissora, mas em vão… Enchemos o tanque do carro e preparamo-nos para fugir, o mais depressa possível…”

MRS. JOSLIN, de uma cidade do leste: “…Quando o locutor disse – Abandonem a cidade! – …agarrei o meu filho nos braços, e precipitei-me, pela escada abaixo…”

MRS. DELANEY, dos subúrbios de Nova York: “…Segurava um crucifixo e olhava pela janela, à espera de ver cair meteoros…”

HELEN ANTHONY, colegial de Pensylvania,: “… .Duas amigas minhas e eu chorávamos, abraçadas, e tudo nos parecia supérfluo, ante a proximidade da morte…

UM ESTUDANTE: “…Cheguei à conclusão de que não havia nada a fazer. Imaginamos que nossos parentes e amigos haviam morrido. Percorri quilômetros em 35 minutos sem saber o que fazia…”

SYLVIA HOLMES, de NEWARK. fugiu para a rua e dizia aos que a tranquilizavam… “Então não sabe que New Jersey foi destruída pelos alemães? Eu ouvi na rádio…

GEORGE BATES, operário, de Massachussets, gastou, para fugir, todas as suas economias.

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