DUAS VARIAÇÕES SOBRE UM MESMO TEMA: Ghost

Rock In Rio, 2013. Mais um festival contestado por algumas atrações, mas faltam a estes detratores  um pouco de visão histórica para notar que desde o primeiro festival tínhamos a mais variada compilação de artistas. Visto a variedade de sonoridades que existem, nada mais justo que abranger de modo eclético os mais diversos estilos no festival cujo nome é apenas uma marca. Entretanto, este texto não quer discutir as vicissitudes do cast apresentado pelo evento de Roberto Medina, mas esquentar um pouco mais a polêmica de um dos shows mais esperados desta edição, que promete dividir opiniões. Hoje quero discutir, por dois ângulos diferentes, a banda Ghost. Formada em 2008, na longínqua Suécia, a banda chama a atenção pelo impacto midiático causado, apesar dos poucos lançamentos, em um estilo de música que remete aos nomes antigos do rock pesado como Mercyful Fate, Blue Oyster Cult, Pentagram e inserções de corais e cantos gregorianos, mostrando preocupação com arranjos e detalhes musicais, principalmente pelos vocais mais suaves que contrastam de modo violento com alto teor “satânico” de suas letras. A sonoridade do conjunto remete diretamente aos grandes álbuns dos anos 70 e se não fosse a produção límpida, poderia facilmente apostar que este era um grupo perdido daquela década, principalmente pelos teclados. Um chamariz para toda esta popularidade seria o fato de não termos, de fato, conhecimento da real identidade dos músicos. Muitos especulam que seriam grandes nomes do cenário europeu a enfileirar bandas como Repugnat, Crashdïet e Watain. Além disso, um dos guitarristas do Mercyful Fate já declarou ter conexões com a banda. Liderados pelo seu vocalista Papa Emeritus, uma espécie de guru satânico, os outros membros do conjunto são apenas conhecidos como o enumerados Nameless Ghoul. A ideia da postagem de hoje é apresentar as duas faces deste fenômeno do rock pesado moderno, primeiramente apresentando as virtudes do Ghost e, posteriormente, tecendo uma crítica um pouco mais ácida e realista quanto à banda. É óbvio que uma variação irá contradizer a outra, pois esta é a intenção primal.
Ghost: Secular Haze
Apreciadores do rock pesado que louvava as forças ocultas, regozijai-vos! Órfãos daquela sonoridade sombria de conjuntos como Blue Oyster Cult, Pentagram, Saint Vitus, Trouble e Candlemass, sintam-se adotados. Afinal, o Ghost veio preencher esta lacuna no mainstream musical com um amálgama sonoro que reúne tudo que deu certo no mundo do rock: mistério, ocultismo, músicas com base simples, mas muito bem adornadas em seus arranjos e um verdadeiro espetáculo teatral em seus shows. Com esta fórmula “mágica” arregimentaram, em um curto espaço de tempo uma verdadeira legião de fãs. Mas engana-se quem pensa que a música fica relegada ao segundo plano. As composições dos anônimos arautos da palavra do tinhoso são o principal elemento desta meteórica popularidade, que transcende as fronteiras de público específico, graças a uma música criativa, que consegue ser única, mesmo abrangendo as mais diversas influências musicais. É fato inegável que a opção do anonimato dos seus integrantes é uma mola propulsora para que os mais atentos ao que acontece no mundo da música vá buscar seus lançamentos. Isto passa a mensagem clara de que a música é mais importante que o músico que a executa. Ao mergulharmos em belas peças como Con Clavi Con Dio, Ritual, Death Knell, Elizabeth, Secular Haze, Year Zero  e Prime Mover, não nos importamos com o nome dos músicos, sejam quem eles forem. Este tipo de relação música/ouvinte só é possível pela qualidade inegável e esmero nas composições que mesmo enaltecendo a simplicidade comum ao rock pesado dos anos 70, consegue atingir os amantes do rock ambientados ao mundo moderno e vemos que um artifício simples como o da não-identificação ainda causa mistério em tempos de privacidade quase nula. Seus dois álbuns até agora lançados foram um estrondoso sucesso e, se não cometerem o mesmo erro do Kiss ao retirar as máscaras, prometem muito mais sucesso à frente, pois competência musical eles possuem.
Por outro lado, sejamos críticos! O Ghost mostra efetivamente a realidade da cena musical atual: receitas requentadas dos tempos em que a música tinha originalidade. Hoje, somos obrigados a aplaudir de pé cópias ou, como no caso do Ghost, amálgamas de clássicos do passado. Seria o mesmo que, após um belo banquete oferecido no almoço, fossemos obrigados, pela fome e sem opção melhor no jantar, deglutirmos uma “mistureba” de sobras daquela saudosa e magistral refeição diuturna. Acha que estou sendo muito rigoroso em minha análise? Vamos aos fatos. De início, vamos aceitar que o personagem do Papa Emeritus é uma cópia mambembe de Kim Bendix Peterson, vulgo King Diamond, vocalista e mentor intelectual do Mercyful Fate, além de ser dono de uma cultuada e mais que louvável carreira solo. O investimento no anonimato de seu integrantes também não é uma novidade. O Kiss, durante seus primeiros anos, criaram uma verdadeira comoção com o mistério de seus rostos, pois só apareciam em público, ou nos arredores dos shows mascarados. A intenção do quarteto nunca foi o anonimato, mas criar uma identidade diferenciada para o conjunto. Por falar em Kiss, associemos o teatro apresentado nos shows do Ghost como um remake das cenas dos shows do quarteto mascarado ou de Alice Cooper. Uma outra parte da colcha de retalhos dos suecos anônimos é o antológico, porém underground, Exorcist. Não conhece? Busque qualquer foto da banda, ouça seu solitário álbum de estréia e veja que o Ghost  pode ser encarado como o primo rico do Exorcist. Acho que este ponto já ficou extremamente claro. Vamos ao próximo! As letras ditas satânicas. Neste quesito cabem poucos vocábulos, pois os versos do Ghost são o que podemos chamar de satanismo de perfumaria. Ou seja, aquela pose de enviado do mal, mas que se encarar o Belzebu por dois segundos estará rezando o Pai Nosso seguido de cinco Ave Marias. Perdoe-me, mas as reais bandas satanistas são outras (Gorgoroth e Dissection são exemplos). Para finalizar, vamos à música de qualidade inegável. Porém, vamos tirar as letras ocultistas e a imagem de banda de missa negra. Coloque as músicas para tocar e imagine que a banda é formada por integrantes perto dos trinta anos com visual mais limpo e que cantam sobre coisas positivas. Exercite sua capacidade de encarar a realidade, pois a música, sem o revestimento maciço do visual, com suas melodias e arranjos, não são heavy metal. Se aguçar a sua audição vai ver que alguns vocais parecem saídos de algum álbum do Depeche Mode e algumas passagens são extremamente pop e comerciais. Portanto, temos uma banda que á junção de tudo que trouxe lucro na história do rock e tenho a sensação de ser ludibriado quando me vendem este pastiche heavy metal como algo real e, principalmente, novo. Saudosistas dos grupos setentistas supracitados dirijam sua atenção aos reais representantes do doom metal/stoner rock relegados ao underground como Nebula, Spiritual Beggars e Cathedral.
Ghost: Con Clavi com Dio (Ao Vivo)
Enfim, acredito que muito das duas variações possuem sua parcela de veracidade. Nitidamente, cada uma das duas análises se contradizem em certos pontos, mas se completam em outros. Vejo o furor causado pelo Ghost a algo muito similar ao advento de outro nome controverso e associado ao ocultismo duas décadas passadas. Quando Marilyn Manson surgiu causou a mesma comoção e impacto na mídia, mas ainda assim, ele era encarado como uma versão moderna de Alice Cooper. Aceito esta visão, assim como aceito o fato do Ghost ser um amontoado de cópias da antiguidade roqueira, entretanto, como no caso de Marilyn Manson, as músicas são legais e divertem o ouvinte. No fim das contas isso é o que mais importa!
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