AHASVERUS: A Lenda do Judeu Eterno

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“Em verdade vos digo que alguns há, dos que aqui se encontram, que de maneira nenhuma passarão pela morte até que vejam vir o Filho do Homem no seu Reino.” 

Mateus, 16:28

Lendas me fascinam!

Principalmente as lendas urbanas, que causavam neste que vos escreve, enquanto ainda era um infante, arrepios e impressionavam ao ponto de me deixar como um pequeno insone. Mas estes contos horripilantes serão deixados de lado, pois hoje vamos falar de uma das mais interessantes lendas que se tem notícia.

Sempre tive uma atração arrebatadora por histórias que começavam com a expressão “diz a lenda…“, pois nesta classe de narrativas não se garante que o fato seja verídico, outrora não podemos demonstrar sua falsidade. Esta é a essência irresistível destes contos que são passados adiante de modo oral, misturando elementos reais com uma gama de frutos da imaginação humana em prol de explicar de modo plausível o inexplicável do mundo.

Grande parte das lendas interessantes que sobreviveram ao tempo, tem sua origem, ou popularidade, na Idade Média, época de obscurantismo intelectual, guerras santas,  doenças implacáveis e um ascetismo exacerbado, ou seja, terreno fértil para a imaginação humana ganhar liberdade em histórias que transpunham as fronteiras da realidade.

Uma das mais fascinantes nasceu neste período histórico e versa sobre um judeu imortal, chamado Ahasverus, que vaga pelo mundo procurando descanso e perdão após ser condenado por Jesus ao castigo eterno. Ahasverus também é conhecido como o “Judeu Errante” sendo apenas mais uma figura mítica, das mais diversas culturas, que forma o arquétipo do vagante imortal e sem descanso.

Apesar da natureza judaica, este personagem é tradicional da cultura cristã e pode ser referenciado como Aasvero, Asvero, Ahasverus, Ahsuerus, Ashver, ou simplesmente como Judeu Errante dentro das mais diversas fontes bibliográficas que registraram esta fantasia que foi perpetrada no boca-a-boca, até servir de base – junto aos Protocolos dos Sábios de Sião – para algumas atrocidades contra os judeus no decorrer da história da humanidade.

Confira nosso texto especial sobre “Os Protocolos dos Sábios de Sião”, aqui

 

DIZ A LENDA…

Não poderia começar a contar a suposta história de Ahasverus com outra expressão. Sendo assim, diz a lenda que esta mítica criatura, nascida como um judeu, sapateiro por profissão, teria, ofendido Jesus Cristo em seu caminho de torturas até o Golgotha.  

Por tal insulto, o judeu teria sido castigado pelo Messias a uma vida eterna, vagando de cidade em cidade e atravessando países à esmo em uma rota sem destino. Entretanto, o real castigo de Ahasverus não era sua longevidade infinita (que aos olhos de muitos seria, na verdade, uma benção) e sim a vida errante, nômade, sem uma terra natal, sem poder se encontrar novamente com sua família, abandonando forçosamente sua esposa e filhos.

Toda esta fantástica história só foi reforçada durante o obscuros anos da Idade Média através de relatos que perpetraram no imaginário europeu a figura mítica da Ahasverus.

Os primeiros registros datam de meados do século XIII e tem seu destaque em um relato de um monge armênio que alegava a existência de um homem no Oriente, de nome José Catarfilo, que tendo empurrado Jesus Cristo no caminho do Gólgota fora amaldiçoado.

Nas palavras do monge, Catárfilo teria dito “vá, vá!” ao se encontrar com o Messias no caminho do calvário, este por sua vez teria lhe respondido “eu vou, mas tu irás esperar até eu voltar”. Como se não bastasse o castigo da perambulagem eterna, a cada 100 anos Catarfilo voltaria a ter a idade que tinha quando se encontrou com Jesus Cristo.

Representação do suposto encontro de consequências sobrenaturais.

Ahasverus e Jesus. Representação do suposto encontro de consequências sobrenaturais.

Outros registros subsequentes trazem a mesma lenda com nomes diferentes para o personagem principal.

Por exemplo, em 1891, na versão italiana ele atendia por Giovani Buttadeo, cujo sobrenome pode ser encarado como uma corruptela da expressão “bateu em Deus”. Já na versão espanhola, seu nome seria algo como Juan Espera en Dios, ou seja, “Juan espera Deus”.

Uma das variações mais importantes se deu por volta de 1564, na Alemanha efervescida pela Reforma Protestante. Uma carta anônima divulgava que o bispo de Scheleszving teve um encontro com o judeu errante em 1542, numa igreja na cidade de Hamburgo. Nesta ocasião, o judeu se declarou sapateiro e se apresentou como Ahasverus, o condenado à errância até o fim dos tempos para servir de testemunha viva contra os judeus incrédulos.

Mais registros chegam a insinuar que que sua genealogia o levaria à tribo sacerdotal de Levi, ou que teria passado por Bruxelas (capital da Bélgica) com o nome de Isaac Laquedem.

O mito de Ahasverus ganhou maior expressão na Alemanha de 1602. Aos olhos do cristianismo europeu, tal castigo era inédito, pois, em sua totalidade, os castigados seriam banidos ao inferno ou ao purgatório. Contrariamente ao tradicional, o judeu errante estava impossibilitado de voltar ao seu lar, perdendo filhos e esposa, vagando por terras estrangeiras e os que o viam no princípio qualificavam sua aparência como a de um peregrino doente.

Dizem que em Hamburgo e Danzig, durante toda a sua estadia, não houve um simples sorriso no rosto do condenado e, independente do país em que estivesse, conseguia dominar o idioma de modo fluente, como qualquer habitante oriundo daquele lugar.

Diz a lenda (olha a expressão mágica de novo!) que o judeu errante teria vindo ao Brasil, mais precisamente em Pernambuco, durante o domínio holandês e sua última aparição em terras tupiniquins seria no norte de Minas Gerais, onde teria sido flagrado chorando sangue em frente uma igreja, numa sexta-feira santa.

Ahasverus By Gustave Dore
The Legend Of Wandering Jew (1856). Gustave Doré

Confira nosso texto especial sobre a obra de Gustave Doré, aqui

 

ALÉM DA LENDA…

Muitos estudiosos enxergam esta lenda como uma representação da existência errante da nação judaica como um todo, vivendo em diversos países espalhados pelo globo terrestre e sem poder voltar para uma terra que possa chamar de sua. Além disso, muitos textos interpretativos da lenda afirmam que a nação dos judeus está, de certa forma, “amarrada” a este castigo eterno. sem a possibilidade da salvação pela conversão religiosa.

A propaganda cristã abusou da lenda para seus próprios fins, utilizando Ahasverus como uma alegoria para toda a nação judaica. O mito foi interpretado como uma alegoria à dispersão judaica ao redor do mundo, após serem acusados de condenar o Messias, sendo a multilinguagem de Ashaverus um equivalente aos diversos idiomas que os judeus teriam que dominar ao se espalharem pelo mundo.

Além disso, assim como o judeu errante, toda a nação dos judeus não possuía uma terra natal e vagavam sem descanso pelo mundo, cumprindo a sentença perpetrada por Deus. Uma das justificativas da expulsão maciça dos judeus em algumas das principais cidades alemãs e da brutalidade cristã esta embasada nesta lenda.

Os nazistas foram os últimos a lançar mão da figura de Ahasverus como slogan  de sua campanha anti-semita e estabeleceram uma ligação entre a lenda do fantasmagórico judeu errante e os campos de concentração que destruíram a Europa judaica.

Confira nosso texto especial sobre uma parcela do misticismo nazista, aqui

 

AHASVERUS É POP!

Um personagem com tamanho poderio mítico não ficaria incólume às explorações do mundo pop. Dentro do mundo artístico as mais diversas referências são encontradas. Nas artes plásticas, o destaque, dentre os inúmeros trabalhos inspirados pelo Judeu Errante está a gravura de Gustave Doré, datada de 1856 e intitulada The Legend Of Wandering Jew.

Ahasverus foi o tema centra da ópera  de Halévy denominada  Le juif errant, baseada  na versão da lenda publicada por Eugene Sue. O trabalho obteve considerável sucesso na Ópera de Paris, estreando em  23 abril de 1852, sendo apresentada quarenta e oito vezes nas duas temporadas de exibição.

Houve ainda uma opereta inglesa datada de 1797. No campo musical tivemos a Valsa do Judeu Errante e A Polka do Judeu Errante, além de diversas bandas modernas de rock e heavy metal que se utilizam das mais variadas referências em seus trabalhos.

Ainda conseguimos buscar influência da lenda na literatura não especializada, mais precisamente na literatura fantástica, como, por exemplo, nas irretocáveis obras de Jan Potocki (O Manuscrito de Saragoça), Jorge Luiz Borges (O Imortal), Gabriel Garcia Márquez (100 Anos de Solidão), Stefan Heym foi até o fim dos tempos para trazer o encontro de Ahasverus e Lúcifer (The Wandering Jew), e o Judeu Errante é o guia através da uma viagem pelo espaço-tempo numa novela de um dos maiores escritores centro-europeus, Mircea Elliade (Dayan).

Em páginas brasileiras, Ahasverus aparece no conto de Machado de Assis (Viver) dialogando com Prometheus tendo como ambiente o fim dos tempos. Mostrando conhecimento de lendas judaicas, Goedsche, um autor alemão, publica a maior obra literária envolvendo Ahasverus. Em seu Biarritz (1868),  se faz presente O Supremo Tribunal Cabalístico Judeu onde se faz presente Ahasverus, o judeu errante. O estranho encontro seria para delimitar o plano de ação da conspiração judaica para o efetivo domínio do mundo estampado n‘Os Protocolos dos Sábios de Sião.

No cinema moderno, o judeu eterno aparece como peça chave no filme A Sétima Profecia (1988), que traz Demi Moore no elenco.

Além de tudo o que foi dito, existem outras inúmeras referências deste personagem mítico nas mais diversas áreas da cultura, mesmo sendo a lenda mais que interessante, por si só. Ou seja, podemos concluir que Ahasverus é pop!

Trailer de A Sétima Profecia (1988).

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3 comentários Adicione o seu

  1. Edna disse:

    Estudando o Romantismo com filho, ele enpacou no “Mito do judeu errante”.
    -Ah mãe! Tem alguma coisa a ver com religião.
    -É mesmo? Vamos descobrir juntos.
    Chegamos ao seu texto. Fantástico.

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  2. Muito bom o texto sobre essa lenda. Cheguei a esse post ao buscar maiores informações sobre Ahasverus, o judeu errante, sobre o qual Castro Alves fez um poema “Ahasverus e o Gênio”, inscrito no livro Espumas Flutuantes, ora em leitura.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Obrigado pelo elogio ao texto… A grande benção da leitura é que ela nos leva a um insaciável exercício da curiosidade! Depois nos diga suas impressões acerca desta obra que estas lendo! Abraços…

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