A ARTE DOS LP’S: Capas Gêmeas

Sempre fui fascinado por LP’s. Desde infante, ficava hipnotizado com as capas dos discos que existiam aos montes em minha casa e me lembro de ficar imaginando como seriam as músicas ali contidas, já que a permissão para colocá-los em ação só veio algum tempo depois. Confesso que alguns me decepcionaram e outros me arrebataram de imediato, como o álbum Flaunt It, do grupo oitentista Sigue Sigue Sputnik, que não sou capaz de enumerar quantas vezes eu coloquei aquele bolachão para rodar. Em particular, a capa da edição nacional daquele vinil me era mais que interessante, assim como eu ficava fascinado com a monocromática estampa do álbum Radioactvity do Kraftwerk e dos foras-da-lei empunhando suas pistolas na imagem que apresentava a trilha sonora do filme Young Guns II, de autoria de Jon Bon Jovi. Dentre minhas lembranças primeiras, estas imagens estão diretamente associadas e talvez, por esta estreita ligação, sempre tive nas capas dos discos de vinil uma forma de expor obras de arte. Anos posteriores, descobri que o mundo da música estava recheado destas belas obras apresentando discos diversos, muitas delas concebidas por nomes consagrados das artes plásticas ou ilustradores de quadrinhos. Meu destino fora traçado naqueles primeiros dias de admirador de capas vinílicas e me rendi ao hábito de colecionar discos, pois, além da coleção musical tenho uma exposição de artes plásticas ao alcance das minhas mãos.

Flaunt It, Sigue Sigue Sputnik. A primeira capa de disco a me chamar a atenção.
Ouça a canção 21th Century Boy presente no álbum Flaunt It, do Sigue Sigue Sputnik.
Este interesse pelas capas dos discos é compreensível, visto que seu advento, há aproximadamente 80 anos, foi a mola propulsora que o mercado musical utilizou para popularizar os seus lançamentos. Em tempos que a música ainda não era digital, uma boa capa era a primeira impressão que o ouvinte tinha com a obra do músico e este hábito de “encapar” um disco de vinil (mais tarde cd’s e dvd’s) teve seu divisor de águas com um americano, que teve a brilhante ideia de dar ao discos, imagens que pudessem ser associadas às músicas ali contidas, trazendo um segundo sentido para a audição musical. Obviamente, o manuseio constante me levou perceber certos padrões em algumas destas estampas e fui atingido pela questão da existência do que podemos chamar de “capas gêmeas”. Capas gêmeas seriam capas de álbuns que se parecem por motivos diversos: homenagem, inspiração, paródia, etc.. Hoje, separei quatro pares que, sem dúvida, se encaixam nestes critérios acima especificados.

Elvis Presley e The Clash 

O que o rei do rock n’ roll, Elvis Presley, tem em comum com uma das maiores bandas de rock da história, o The Clash? Bom, além da máxima relevância para a história da música moderna, podemos dizer que são “irmãos de capa”. O ano era 1956 e Elvis Presley lançava seu primeiro disco, auto-intitulado, que era estampado por uma foto que esbanjava espírito roqueiro, como Elvis empunhado de modo visceral seu violão. A fotografia foi tirada durante uma performance de Elvis Presley em um  programa de televisão gravado na cidade de Tmapa, Flórida. A seriedade dos tons cinzentos da fotografia original foi quebrada pelas letras garrafais, em rosa e verde, trazendo o nome do  mais novo astro da música pop. O modelo apresentado no debut do rock n’ roll foi copiado inúmeras vezes, mas o sucesso foi repetido em raríssimas dessas ocasiões. Com certeza, a versão futura de maior impacto foi a apresentada mo álbum London Calling, do quarteto britânico The Clash. Como poucas vezes a coincidência pode providenciar, a foto de Paul Simonon em protidão de destruir seu baixo foi registrada instintivamente por Pennie Smith que estava localizada – pela providência roqueira – estrategicamente no palco. Assim como a imagem de Elvis, a estampa de um dos melhores – quicá o melhor – álbum do The Clash é um exemplo máximo do espírito livre e rebelde do rock n’ roll. O próprio idealizador do resultado final da capa de London Calling assumiu ter buscado inspiração no álbum de Elvis para sua produção.

Mötley Crüe e Rolling Stones

Mick Jagger e os Rolling Stones faziam glam rock muito antes do estilo nascer. Sendo assim, nada mais natural que uma de suas capas inspirar um dos maiores clássico do metal glamouroso dos anos 80. O mundo do rock passava por uma verdadeira revolução no início daquela década e os Estados Unidos assistiam ao nascimento de duas vertentes distintas, mas que dominariam a música pesada nos próximos dez anos, o thrash metal e o glam metal. Liderados pelo Mötley Crüe, o Glam Metal – ou Hard Rock Oitentista – deu seus passos iniciais para o que seria uma das gerações mais prolíficas e de mais qualidade musical da história do rock. Mas isso não era o bastante e, em 1982, sai Too Fast For Love, o primeiro álbum do Motley Crue que vinha estampado em uma versão oitentista e heavy metal da capa de Sticky Fingers dos Rolling Stones, uma das mais reconhecidas capas da história da música. A imagem apresentada na obra dos ingleses é o supra-sumo da arte roqueira. Extravagante, espirituosa, devassa e auto-indulgente, a ideia nasceu da mente de Andy Warholl e foi concebida com um zíper real no produto final, que quando era aberto, mostrava roupas de baixo estampadas com o logo de Warholl. Ao contrário do que muitos pensam, o modelo da capa não é Mick Jagger, mas algum transeunte da Factory comandada pelo idealizador do projeto gráfico. Mesmo sendo menos devassa que a original, a capa de Too Fast For Love chamava a atenção e atraía olhares para o lançamento daquele novo grupo. O relativo recato em comparação à estampa de Sticky Fingers pode ser justificado pelo momento censor que os roqueiros eram alvo nas terra do Tio Sam. Mesmo assim, a versão “mötleyniana” esbanja machismo e atitude e, ao contrário da versão “stoneana” o modelo na capa é o vocalista Vince Neil.

Kiss e Manowar

Um caso onde há uma inegável similaridade, afinal, além das capas se parecerem em demasia, foram ilustradas pelo mesmo artista, a saber, Ken Kelly. Além de um dos maiores ícones do rock, o Kiss pode ser considerado uma máquina de fazer dinheiro devido ao marketing empregado pela banda e, em 1976, eles se tornaram personagens de histórias em quadrinhos na capa de Destroyer, um dos maiores álbuns de rock de todos os tempos. Dennis Woloch já se dedicava ao trabalho gráfico dos quatro mascarados desde seu primeiro lançamento e buscava algo novo para ilustrar o próximo álbum, cujo título já era conhecido. Foi quando, no horário de seu almoço, se deparou com a capa de uma revista em quadrinhos do gênero terror chamada Creepy.  O artista responsável por aquela obra que prendeu Woloch era Ken Kelly, que realizou um trabalho memorável ao transformar Gene, Paul, Ace e Peter em super-heróis, fazendo-o assinar algumas outras capas de discos famosos do rock ao longo dos anos.  Doze anos se passaram e Ken Kelly teve uma nova missão: transformar os músicos da banda Manowar em personagens de RPG, nos moldes medievais. Numa primeira olhadela na capa de Fighting The World, quinto álbum do Manowar, temos impressão de encarar a capa de Destroyer adicionada com um pouco mais de testosterona. Após este trabalho, Kelly foi o responsável pela arte de capa nos vindouros álbuns dos Reis do Metal (como se auto-denominam os membros do Manowar).

 

The Beatles e Mothers Of Invention

Eis uma situação diferenciada das demais supracitadas. A influências dos quatro rapazes de Liverpool transcende as barreiras do rock e podem ser percebidas em doses homeopáticas em todo o mundo da música. Porém, Frank Zappa e seu Mothers of Invention resolveram utilizar, em seu quarto álbum, uma paródia surrealista do frontispício da obra-prima Sgt Peppers And Lonely Hearts Club Band. A capa deste disco é uma das mais enigmáticas capas da discografia dos Beatles, ao lado da que estampa o álbum Abbey Road, trazendo  vestígios que embasam a teoria de que Paul McCartney teria morrido e substituído por um sósia (mais informações sobre esta teoria da conspiração no meu outro blog O Priorado). Do lado  de cá do Atlântico, Frank Zappa sempre foi um contestador dos padrões pré-estabelecidos e não se cansava de escarnecer o movimento flower power. Em We’re Only For The Money, Zappa e seus companheiros criticam toda a estética hippie e modus vivendi americano nos anos 60, mas com o claro objetivo de atingir o pensamento crítico da juventude da época. Creio que não existia melhor maneira de começar esta destruição de conceitos do que rindo do considerado, até os dias de hoje, como o maior álbum de rock de todos os tempos. Originalmente, a capa do antológico disco dos Beatles seria estampado por uma caixa de presentes, mas Peter Blake acabou por criar um belíssimo exemplar de pop art utilizando recortes de cartolina que traziam grandes personalidades da humanidade, para o bem ou para o mal. Este foi o primeiro lançamento em capa dupla dos Beatles e a imagem na versão americana idealizada por Zappa, foi concebida por Jerry Schatzberg. Após esta bem-humorada exploração da obra dos Beatles diversas paródias de suas capas se espalharam e creio ser a estampa de Abbey Road a mais vitimizada por tais reproduções.

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1 comentário Adicione o seu

  1. AURAMAZDA2000 disse:

    KKKKK esse Transformer genérico na capa de Flaunt it…

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