IRON MAIDEN & LITERATURA: A Besta, o Poeta e a Guerra da Crimeia

Vivemos momentos diplomaticamente tensos na história recente. O foco desta tensão se localiza numa península europeia banhada pelas águas do Mar Negro denominada Crimeia, que se destacou nas mais diversas mídias jornalísticas. A história conta que no decorrer dos séculos a região foi disputada pelas mais diversas potências mundiais. Girando os ponteiros do relógio em sentido contrário, percebemos que desde 700 a. C. a península da Crimeia passou pelo domínio de cimérios, gregos, romanos, bizantinos, turcos otomanos, União Soviética e Alemanha Nazista. Recentemente, a disputa pela região se dá entre Ucrânia e Rússia, mas a busca pelo controle desta região não é novidade e não entraremos nas razões desta região ser objeto de desejo das mais diversas nações no decorrer da história. O conflito que nos interessa hoje e se ambientou nesta região do mundo ocorreu entre 1853 e 1856, tendo em lados opostos o Império Russo (com claro interesse expansionista) e uma coligação que unia ingleses, franceses e otomanos. Dentre as mais importantes batalhas deste conflito está a Batalha da Balaclava, travada em 25 de outubro de 1854, sendo o segundo maior embate do conflito. Muita além da importância histórica, esta batalha e seu trágico desfecho para os britânicos, foi a inspiração para um dos maiores poemas em língua inglesa já escrito até os dias de hoje e, consequentemente, inspiração para um dos maiores clássicos do Heavy Metal. Um fator importante nesta guerra da Crimeia (e que será determinante para a composição do poema em questão) é a pioneira presença de correspondentes de guerra, onde muitos deles mostravam uma posição crítica frente a gerência das tropas inglesas nas batalhas. Meu interesse neste texto está longe do academicamente histórico (assim, já peço perdão por algum erro crasso nesta área de conhecimento), mas é amarrar a região, que hoje encara mais um conflito por seu controle, com uma das maiores bandas de heavy metal da história da música e, também um grande poeta, responsável por dar os moldes aos poemas de guerra e compor alguns dos maiores versos em língua inglesa.

Iron Maiden: The Trooper (1983): Um dos maiores clássicos do heavy metal
fora inspirado por um dos grandes poemas da língua inglesa. Esta combinação
elevou o lado intelectual do estilo no início dos anos 80.

The Trooper: A Donzela e o Poeta

 

Em 1983, o Iron Maiden havia dominado o mundo do heavy metal com seu último álbum lançado no ano anterior e saboreava a tranquilidade de um conjunto cuja mudança na formação dera extremamente certo. O próximo passo seria mais um álbum, que veio na forma de Piece of Mind, naquele mesmo ano. Talvez um álbum menos valorizado na discografia recheada de clássicos máximos, onde a sonoridade se transformava, sendo adicionada por elevados aspectos técnicos. Entretanto, a maior contribuição deste álbum seria a forma de trabalhar as letras, investindo em conceitos como guerras, filmes e livros. Não que estes elementos não existissem antes, mas a partir deste álbum se tornariam características marcantes da banda, em parte por influência do vocalista Bruce Dickinson.

 

Os dois grandes clássicos de Piece of Mind refletem exatamente esta nova preocupação com as letras. Flight of Icarus envolvia parte do mito de Ícaro e seu sonho de voar com asas de cera e The Trooper, uma das melhores canções da banda, apresentada até hoje nos shows, trata da Guerra da Crimeia em 1854 e fora inspirada pelo poema The Charge of the Light Brigade de Alfred Tenyson. Nesta canção, se utilizaram de uma referência direta ao poema de Tennyson, narrando a morte de seiscentos soldados em vão. Os termos utilizados não nos deixam dúvidas e os versos iniciais “Você tira a minha vida, mas eu tiro a sua também”, podem ser utilizados para motivar o soldado que segue para a batalha de modo a dar-lhe confiança quanto a vitória certa. A associação com o poema de Alfred Tennyson é confirmada por Steve Harris: “The Trooper é baseada na guerra da Crimeia entre russos e ingleses”. Alguns versos do poema são introduzidos nas imagens de batalha que aparecem no clipe da canção, reforçando ainda mais a inspiração para a letra que está intimamente ligada ao ritmo cavalgado da cançãoEsta não foi a única incursão da band inglesa dentro do tema das guerras. No decorrer dos seus álbuns, sejam os precedentes, ou posteriores a Piece Of Mind, o assunto sempre esteve em voga, de alguma maneira.

 

Sobre esta característica, o líder Steve Harris comenta: “A maioria das músicas sobre guerra que fizemos não foi como glorificação da guerra. Sempre ouvi sobre como me orgulhar da bandeira britânica e tudo o mais sobre o cumprimento do dever. Algumas de nossas canções tentam colocar o ouvinte nesta situação, perguntando o que ele sentiria.” Entretanto, The Trooper, segundo o p´roprio Harris é uma resposta às acusações de que estavam em parceria com as forças do inferno. Após o lançamento do álbum anterior, The Number of the Beast, o Iron Maiden fora acusado de associação ao satanismo e The Trooper seria uma resposta para os fanáticos religiosos que fizerem difíceis os dias da banda durante a divulgação daquele álbum, mostrando que a banda estava longe do satanismo e estes versos vieram como uma forma de elevar o heavy metal a um patamar mais intelectual.

 

Como  uma das bandas mais influentes do cenário metálico, a Donzela de Ferro contribuiu fortemente com a evolução lírica do estilo. Dentre todas as canções produzidas pelo Iron Maiden até 1983, The Trooper era a mais poderosa. As melodias vocais de seus versos iniciais remetem a certos coros motivacionais militares, mas com atitude heavy metal. O riff composto para abrir este hino do heavy metal tenta simular o ritmo dos galopes dos cavalos da batalha descrita na letra e o baixo de Harris não fica para trás neste galope metálico. Até Paul Di’anno, já fora da banda no lançamento de Piece Of Mind, admitiu que a performance de Bruce Dickinson nesta canção a transformava em uma das pérolas máximas do Maiden. Na próxima vez que a ouvir, sinta os versos da canção como as palavras de um membro da cavalaria britânica que corre de uma maneira suicida contra um flanco de russos que querem seu sangue. Esta é a essência desta canção…



Um poema clássico para uma batalha épica

Para muitos estudiosos da língua inglesa, o poema de Tennyson que inspirara a banda inglesa é a obra mais familiar da poesia neste idioma.  No poema de Tennyson, o sacrifício inútil dos soldados em busca da glória de sua nação é apresentada como uma contribuição necessária para o progresso do Império Britânico. O conjunto dos versos formam uma resposta às notícias que flagravam as pesadas e desnecessárias baixas na cavalaria na guerra da Crimeia em 1854, onde russos e ingleses disputavam o domínio da região. Os primeiros versos do poema, que aparecem na introdução do clipe da canção The Trooper são, em tradução livre, dados da seguinte maneira:

meia légua, meia légua
 meia légua para a frente,
todos no vale da morte
cavalgaram os seiscentos
“avante, brigada ligeira!”
carga de armas!”, ele disse: 
dentro do vale da morte
cavalgaram os seiscentos.

 

Por estes versos temos a real noção de que este poema fora feito de forma a justificar e motivar o espírito guerreiro após uma investida ruim no campo de batalha. A repetição de palavras fortes em ritmo sincopado pode alavancar a euforia e o patriotismo em versos lidos em voz alta e carregados da emoção correta. O que as manchetes contavam é que os Ingleses estavam em guerra com a Rússia, na Crimeia, em 1853, tendo como aliados a França e o Império Otomano. No dia 25 de outubro de 1854, a Batalha da Balaclava decorria com toda a sua sangria. A Brigada Ligeira, uma tropa de setecentos cavalos, dirigida por Lord Cardigan, tinha como missão recuperar alguns canhões russos abandonados. A empreitada foi mal interpretada e a brigada se dirigiu para a concentração principal da artilharia russa, onde pereceram algumas centenas de homens. A polêmica se instalou desde então em cada forma como esta investida mal sucedida é contada. Alguns historiadores alegam que as decisões foram tomadas de modo afoito, outros colocam a culpa na vaidade e rivalidade dos comandantes das tropas e ainda se discute de quem foi erro: a boca que deu a ordem ou as mãos que a executaram. Alfred Tennyson publicou seu poema em 2 de dezembro do mesmo ano e alguns historiadores divergem da versão que o teria escrito em alguns minutos, depois de ler a narrativa da batalha em um periódico. Apesar de simples, os elementos presentes neste singular conjunto de versos demonstram uma total magia na forma de escrever por parte do autor. Na notícia eram relatadas setecentas baixas, mas Tennyson trocou para seiscentos por ser metricamente melhor em sua opnião.

 

Charge of the Light Brigade, obra de Richard Caton Woodville, Jr

Sem sombra de dúvidas Alfred Tennyson criou todo o simbolismos para um belo poema de guerra, que apresenta um ritmo empolgante e exalta as glórias de um honrado soldado que se sacrifica em prol do desenvolvimento de sua nação. Em contrapartida, inspirado por Lord Tennyson, o Iron Maiden, baluarte máximo do heavy metal, compõe uma das melhores canções sobre guerra que já fora registrada, com instrumental que remetia ao som de uma cavalaria em pleno ataque, versos que colocam o soldado camicaze em primeiro plano, quase confessando suas sensações durante sua investida suicida. De todo modo, ambas as obras tem seu caráter romântico. O poema de Tennyson vem embotado de um sentimento consternado de nacionalismo abalado por uma grande derrota parcial, já a canção do Iron Maiden traz um sentimento saudosista de uma era onde o heavy metal dominava o mundo da música, clássicos eram produzidos quase que diariamente e mesmo diante desta gama de boas bandas e discos, os ingleses se destacavam pelo diferencial intelectual de suas letras que iam muito além das ingênuas odes aos deuses do metal. Alguns podem alegar que o o fator intelcetual já estava presente desde os primeiros álbuns, mas perto de The Trooper, canções como The Phantom of The Opera ou Murders In The Rue Morgue (ambas inspiradas em grandes obras literárias direta ou indiretamente) não possuem tanta maturidade musical e lírica. Para finalizar, é interessante lembrar que o poema de Tennyson ainda inspirou uma produção cinematográfica americana, em 1936, que leva o título do poema. Entretanto, os acontecimentos históricos servem apenas como pano de fundo para uma triângulo amoroso que envolve dois irmãos, um major e um capitão britânicos, que amam a mesma bela mulher. A versão cinematográfica é apresentada abaixo e o poema na íntegra pode ser encontrado ao fim da postagem.



Postagem escrita ao som de:
1) Iron Maiden: Piece Of Mind
2) David Coverdale: Northwinds
3) Bad Company: Run With The Pack
4) Eletric Light Orchestra: No Answer

* Abaixo o poema de Alfred Tennyson pode ser conferido na íntegra, em tradução livre.

A carga da brigada ligeira

Meia légua, meia légua,
meia légua em frente,
todos no Vale da Morte
cavalgaram com os seis centos.

“Para a frente a Brigada Ligeira!
Carreguem contra as armas!”, disse ele.
Para o Vale da Morte
cavalgaram os seiscentos

Para a frente a Brigada Ligeira!
Havia algum homem desanimado?
Todavia, o soldado não sabia
De algum que tivesse disparatado.
Eles não têm de responder,
eles não têm de se perguntar,
eles só têm de fazer e de morrer.
Para o Vale da Morte
cavalgaram os seiscentos.

Canhão à direita deles,
canhão à esquerda deles,
canhão à frente deles
saraivaram e trovejaram;
atingidos por balas e obuses,
com audácia eles cavalgaram e bem,
para as mandíbulas da Morte,
para a boca do inferno
cavalgaram os seiscentos.

Reluziram todos os seus sabres despidos,
reluziram ao rodopiarem no ar
sabrando os artilheiros lá
carregando contra um exército, enquanto
todo o Mundo se maravilhava.
Mergulhados no fumo das baterias
através da linha deles romperam a direito;
cossacos e russos
cambaleantes das sabradas
estilhaçaram-se e fenderam-se.
Então eles cavalgaram para trás, mas não,
não os seiscentos.

Canhão à direita deles,
canhão à esquerda deles,
canhão à frente deles
saraivaram e trovejaram;
atingidos por balas e obuses,
enquanto cavalos e heróis caíam,
eles que haviam lutado tão bem
vieram através da mandíbulas da Morte,
de volta da boca do inferno,
tudo o que restava deles,
o que restava dos seiscentos.

Quando irá a sua glória desvanecer-se?
Oh, a carga bravia que eles fizeram!
Todo o Mundo se maravilhou.
Honrem a carga que eles fizeram!
Honrem a Brigada Ligeira,

Nobres seiscentos

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