FILPO NUÑES: O Dia Em Que Um Argentino Foi Técnico da Seleção Brasileira

Filpo Nuñes: Técnico argentino, um dos símbolos da geração mágica do time do Palmeiras  que ficou conhecida como Academia. Foi o único estrangeiro que dirigiu a seleção brasileira, mesmo que por um dia apenas.

A rivalidade entre argentinos e brasileiros transcende os campos de futebol. Não seria exagero dizer que tudo começou na divisão proposta pelo Tratado de Tordesilhas, quando, após o descobrimento da América por parte dos espanhóis e, posteriormente, do Brasil pelos portugueses, acordaram em dividir as novas terras. Ainda tivemos a Guerra da Cisplatina, um conflito entre o Império do Brasil e as Províncias Unidas do Rio da Prata durante os anos de 1825 a 1828. O que estava em jogo nesta luta era o controle da Província Cisplatina , que terminou com a independência desta região dando origem ao Uruguai. A verdade é que a campanha nesta guerra ajudou a enfraquecer o monarquia e contribuiu para que Dom Pedro I abdicasse do trono em 1831.  Num passado mais recente, tivemos a tensão que envolvia a construção da Usina de Itaipu. Inaugurada em 1984, esta obra colossal foi uma resultado da parceria entre as duas ditaduras vigentes no Brasil e no Paraguai. Na mesma época, a Argentina também era dominada por uma ditadura militar que temia, durante um eventual conflito, a abertura completa da comportas de Itaupu por parte do Brasil, de modo que o nível da água do Rio da Prata aumentasse consideravelmente, inundando a capital argentina, Buenos Aires. Para ajustar as tensões, em 19 de outubro de 1979, Brasil, Argentina e Paraguai assinaram o Acordo Tripartite, que estabelecia os níveis do rio e as variações permitidas para os empreendimentos elétricos na bacia comum aos três países. Entretanto,  para um país como o Brasil, onde o futebol tem reflexos políticos, a rivalidade entre nós, brasileiros, e nossos “hermanitos” foi reforçada dentro das quatro linhas onde rola uma bola. O primeiro jogo entre as duas seleções se deu em 1914, onde amargamos uma derrota de 3 a 0, num amistoso realizado na capital argentina. Mas como o que vale é jogo de campeonato, a primeira decisão envolvendo as duas seleções ocorreu uma semana após o amistoso, com o Brasil vencendo pelo placar mínimo, mas comemorando a conquista da Copa Roca diante de toda a torcida argentina. A partir daí, a história é recheada de polêmicas e decisões emocionantes, além da tradicional disputa sobre quem é o melhor jogador de todos os tempos: Pelé ou Maradona? Neste contexto politico-futebolístico, seria quase impensável termos um argentino como técnico da seleção brasileira. Mas como a vida é um relicário de surpresas, tivemos, num dia, um argentino como treinador da seleção canarinho.

Brasil X Argentina: Rivalidade futebolística que, antigamente, extrapolava o esporte.

Filpo Nuñes: O arquiteto da academia de futebol.

Em 1964, a Sociedade Esportiva Palmeiras já era liderada pelo seu maior craque em toda a história: Ademir da Guia. Todavia, o time mágico que ficaria marcado na história como a Academia de Futebol começou a ser montado com a chegada do técnico argentino Filpo Nuñes, que tinha nas mãos um elenco que contava, além de Ademir, com as estrelas de Valdir Joaquim de Moraes, Djalma Santos, Djalma Dias, Dudu, Juninho e Rinaldo. O time começou a fazer história no ano seguinte, quando venceu o torneio Rio-São Paulo (vale lembrar que, naquela época, este era o torneio mais importante do futebol nacional), goleando os principais times do campeonato, marcando na história do torneio uma humilhante goleada de 7 x 1 contra o Santos. Na reta final, goleou o São Paulo, vice-líder da competição atrás do Palmeiras, por 5 x 0. O trabalho do treinador era visto na forma como os jogadores se comportavam em campo, pelas jogadas, toque de bola rápido e depois de vencer a seleção do Paraguai e o time do Peñarol no IV Centenário da cidade do Rio de Janeiro, a CBD, Confederação Brasileira de Desportos, à época presidida por João Havelange, convidou o Palmeiras para representá-la no jogo de inauguração do Mineirão, contra a seleção do Uruguai. O time parecia jogar por mágica, com jogadas ensaiadas sendo executadas desde o início das partidas, devidamente recomendadas por Filpo Nuñes. Numa destas arquitetações futebolísticas, o ponta-direita Gildo marcou o gol mais rápido do mundo à época, aos 7 segundos de jogo, no estádio do Maracanã, em jogo contra o time do Vasco. O próprio Gildo declararia anos depois que o técnico buscava esta marca do gol mais rápido e que treinava táticas e jogadas para obter tal resultado. Além do Palmeiras, o técnico comandou times como Vasco, Corinthians, Portuguesa e o Jabaquara, esta agremiação onde conseguiu a façanha de golear o Santos de Pelé por 6 x 4. Morreu pobre, morando nas dependências do projeto Jerusalém, em 1999, e passou seus últimos anos treinando um time de crianças carentes.

Especial em homenagem a Filpo Nuñes. Neste vídeo, o próprio treinador comenta
sobre o dia em que foi o treinador da seleção brasileira.

 

O Dia em que o um argentino comandou a seleção brasileira

Don Nélson Ernesto Filpo Nuñes, argentino, estava em campo como técnico da seleção brasileira em 5 de setembro de 1965, no jogo contra o Uruguai, cujo placar se fechou em três gols a zero para a seleção amarelinha. Anos depois, falando sobre este dia ele perguntaria: “já pensou se eu perco este jogo?” Podemos facilmente imaginar a crítica esportiva massacrando o treinador estrangeiro pelo derrota em território nacional. Com toda a certeza, a rivalidade falaria mais alto e ele seria alvo fácil, mesmo se houvessem outros “culpados” pela derrota. Mas o time alviverde vinha de uma invencibilidade de onze jogos e nesta partida estava com força total. Houve um pouco de resistência do experiente craque Juninho em entrar em campo, mas ao ver as camisas da seleção e o público vibrante do Mineirão lotado se rendeu aos apelos do treinador e entrou em campo (o próprio Juninho conta esta história com detalhes no vídeo acima). Ao fim apito final do arbitro Eunápio de Queiroz, o placar marcava três gols a favor da seleção brasileira (Rinaldo, Tupãzinho e Germano foram os nomes dos artilheiros deste dia) contra nenhum dos uruguaios. Na verdade, a história conta que Filpo Nuñes não somente foi o primeiro, e único, técnico estrangeiro a comandar a seleção brasileira de futebol, como mantém a unicidade em ganhar troféus na mesma posição. Naquela tarde de outubro, além da inauguração do estádio em Belo Horizonte, havia a disputa de uma taça que, ao fim da partida, foi deixada pelos dirigentes do Palmeiras com a comissão organizadora da partida, por entender que a mesma pertencia à CBD. Como a entidade nunca requisitou a taça, ela continuou no estádio até ser resgatada em 1988, quando a CBD já havia dado lugar à CBF e, finalmente, entregue ao time do Palmeiras. Desta forma, Filpo Nuñes se tornou o único técnico estrangeiro a comandar e levantar uma taça pela seleção brasileira de futebol.

Palmeiras representando a seleção brasileira de futebol em 1965, na inauguração do estádio do Mineirão.
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