AMERICAN HORROR STORY: Um Frankenstein de referências.

Infelizmente comecei a me interessar pelas séries de televisão muito tarde. Graças a um quase amor à primeira vista pela produção seriada Fringe, me senti um órfão quando a mesma chegou ao seu espetacular desfecho e comecei a buscar boas histórias neste segmento de entretenimento. Dentre idas e vindas, amores e abandonos,  depois de Fringe, estudei história com Os Bórgias, fui arrebatado pela máfia moderna de Sons Of Anarchy, aguardo a continuação de Haven, por ser uma boa série e por ter uma ligação com meu autor preferido, Stephen King, e, como um admirador das fantasias literárias, vivo uma relação de amor e ódio com a aclamada Game Of Thrones. Entretanto, não simplesmente assisto aos enlatados americanos, ou britânicos, para me distrair com uma boa história. Claro, me divirto extremamente, mas, como um amante da cultura pop em geral, busco, incessantemente, referências das mais diversas, sejam elas literárias, cinematográficas e, principalmente, musicais. Talvez por este hábito, o seriado  American Horror Story tenha me arrebatado de modo tão fulminante, pois nenhuma série veio tão carregada de múltiplas influências quanto a sua primeira temporada e, rememorando, meu primeiro amor na literatura e no cinema foram as histórias de terror. Desta forma, a escrita deste texto ao fim desta temporada inaugural fora quase compulsória, tamanha a necessidade de externar as observações das minhas sessões dentro de uma história de terror americana.

A Casa Assassina…

Os fãs do gênero terror devem concordar comigo que os últimos tempos deste séquito estavam passando por uma total falta de criatividade, seja nos livros ou nos quadros por segundo do cinema. Salvo alguns livros de nomes consagrados, pouca coisa foi efetivamente assustadora na páginas – posso citar Grau 26 de Anthony E. Zuiker, como um livro que me assustou bastante – ou nos filmes, que se especializaram em propagar uma verdadeira aula de como se torturar um ser humano, sendo mais enojante do que assustador. O último alento no terror se fez em forma de série no canal FX, em outubro de 2011, com American Horror Story. Aquela clima do horror clássico se faz presente em todos os episódios da primeira temporada, concebida de modo independente por Ryan Murphy (uma das mente por detrás da série Glee) e Brad Falchuk, mentores do projeto que visa trazer em cada temporada uma história independente. A primeira história foi denominada de Murder House (Casa Assassina em tradução livre) e em cada episódio os apreciadores daquele terror clássico, temperado por mentes doentias, horror subjetivo e mistérios sobrenaturais podem se regozijar após tanta carnificina perpetrada de modo deliberado nos filmes das últimas épocas, concebidos coma  genialidade de um paquiderme, flagelando todo um gênero. Não que condenemos mortes e assassinatos, muito pelo contrário, mas um assassinato que tem por arma faca empunhada por um algoz em clima subjetivo é diferente da carnificina torturante de um reality show funesto. Agora pudemos, novamente, nos assustar explorando o lado sombrio de temas como o amor, a infidelidade, família, perdão e as consequências trágicas que podemos chegar para manter uma mentira, muito longe de uma violência brutal e gratuita. Tudo isso adornado por assassinos em roupa de borracha, vizinhos misteriosos, assombrações e ilusões sobrenaturais. Além desta primeira temporada, já foi ao ar nos anos de 2012 e 2013 as duas temporadas subsequentes, denominadas, respectivamente, Asylum e Coven , esta última dissertando sobre bruxas e que Ryan Murphy declarou ter um glamour diabólico.
Trailer da Primeira Temporada

As Referências Múltiplas de American Horror Story

Para os apreciadores do gênero do terror, cada episódio da primeira temporada é uma viagem pelos clássicos de uma era de ouro do estilo, se tornando um oásis que saciará a sede dos saudosistas da “elegância” um dia presente nas sequências cinematográficas. Os próprios produtores da série assumem a influência direta destes estandartes do gênero, citando obras como Horror em Amityville, O Iluminado, Halloween, O Bebê de Rosemary e Tubarão, este último, mesmo não sendo um filme de terror propriamente dito, é, segundo o próprio Falchuk, produtor da série, o seu filme favorito. Mesmo inconsciente a estes detalhes, ao iniciar os primeiros episódios, consegui associar ao meu ínfimo banco de dados cerebral sobre o gênero terror enquanto assistia, algumas passagens que me remetiam a outras obras e fiquei mais atento a elas. Claro, que de maneira subjetiva, existem técnicas de produção ligadas à clássicos do mistério ou da literatura, como, por exemplo, quando a personagem Violet é vista lendo O Estrangeiro de Albert Camus, ou no uso do efeito chamado dolly zoom – que simula uma queda abissal -, utilizado pela primeira vez no filme Um Corpo que Cai (1958), do mestre do suspense Alfred Hitchcock. Esta técnica é usada de modo abundante, principalmente nos closes da assustadora – mas abrasiva – casa.

Os gêmeos ruivos seriam uma versão masculina para as gêmeas de O Iluminado?

Vamos começar por referências literárias indiretas. Frankenstein de Mary Shelley e Drácula de Bram Stocker são claras inspirações para o personagem Thadeus (também creditado como “A Infantata”), um “vampiro” criado por um médico (seu pai) a partir dos pedaços de suas vítimas. O próprio Murphy definira sua criatura como sendo mezzo Drácula, mezzo Frankenstein. Além disso, este personagem ainda é um ser humano reanimado, nos remetendo a clássicos de H. P Lovecraft como Herbert West – Reanimator, que inspirou o filme Re-Animator, de 1985. Outra ligação direta com a obra de Bram Stocker se faz presente no uso da trilha sonora da adaptação cinematográfica de 1992, denominada Dracula, The Begining e desenvolvida por Wojciech Kilar, um compositor clássico polonês. Esta canção é entoada nos momentos associados a Thadeus. Não obstante, o Dr. Charles Montgomery seria acometido de algum complexo de Frankestein e seria um viciado em drogas. Ao contrário do que parece, as influências não estão apenas em clássicos antigos. Em 2008, era lançado o filme The Strangers, onde um trio torturava e aterrorizava um casal em sua casa de férias. A formação contava com duas mulheres mascaradas e um homem com um saco na cabeça. A ação se iniciava com uma das mulheres pedindo ajuda, alegando estar em perigo. No episódio Home Invasion, temos uma clara recriação desta obra incrustada de inúmeras citações a Charles Manson e sua Família. Extrapolando o tema, o personagem Tate sussurra a expressão Helter Skelter para as câmeras, que nada mais é que uma canção do Beatles, deturpada por Manson, se tornando uma das maiores associações ao assassino e sua guerra racial que o levou a cometer inúmeros crimes violentos. Um deles teria vitimado Sharon Tate (teria alguma influência o nome da vítima e do personagem assassino?), a esposa grávida de Roman Polaski, diretor do filme O Bebê de Rosemary. Não poderia deixar de citar a referência direta ao conto Papel de Parede Amarelo, de autoria de Charlotte Perkins Gilman, escritora americana precursora da literatura feminista e que é professoralmente sintetizado pela governanta idosa (aos olhos mãe de família), ou jovem libidinosa (aos olhos do pai de família), de forma contextualizada com o enredo desta primeira temporada.

Dracula, The Begining, a canção de Wojciech Kilar.

Os mais atentos podem relacionar os gêmeos ruivos Troy e Bryan , que foram assassinados por Thadeus e permanecem como almas penadas, vagando pela casa, como uma referência direta às gêmeas que aparecem no Hotel em O Iluminado de Stephen King. Esta última obra ainda tem um imóvel carregado de energias ruins e que controla um pai de família, ocorrência também presente no clássico de Jay Anson, Horror em Amytville.O clássico de Anson, que foi adaptado para o cinema tempos depois, ainda nos oferece uma família colocando todo o seu futuro numa casa, como uma espécie de materialização de seus anseios e o símbolo máximo da busca de renovação. Mas , estando presos ao imóvel por uma crise financeira, se vêem a mercê das manifestações nefastas daquelas paredes. Ainda podemos nos lembrar da boneca deixada na cadeira de balanço branca, presente na cena do incêndio deliberado de Larry, que viria a vitimizar sua família. O próprio George Lutz, personagem de Amityville, dizia que sua filha tinha uma boneca sempre deixada numa cadeira branca, qualificando o comportando de sua filha como estranho quando perto do brinquedo. Voltando ao âmbito d’O Iluminado, podemos lembrar da senhora  que é vista como jovem e sexy pelo chefe da família, claramente sobre influência do hotel. Além do mais, esta personagem da série, quando uma senhora, nos remete de imediato à enigmática Mrs Mills, de Os Outros, que sabe muito além daquilo que diz e “instrui” a ignorante protagonista. Outro clássico tanto do cinema quanto das páginas dos livros, O Bebê de Rosemary é um item referencial claro na personagem da vizinha – tempestuosa, intrometida – que estaria em conluio com o mal presente na casa, um ser sobrenatural, agente de um estupro que resultará numa gravidez sobre humana – tanto para Rosemary (do filme), quanto para Vivien (da série) -, levando as gestantes a se deliciar com deliciosos órgãos de animais crus (num caso um fígado, noutro um cérebro).

O efeito Dolly Zoom..


Influências em Casos Verídicos. Desprezando a inspiração em caso real da já citada obra de Jay Anson, não podemos deixar de lembrar da inserção do assassinato não solucionado de Elizabeth Short, apelidada de Dália Negra. Os motivos de seu assassinato e o seu algoz são desconhecidos. Seu corpo foi encontrado mutilado e esquartejado em um terreno de Los Angeles, no ano de 1947. O crime já havia inspirado um dos grandes momentos da filmografia do diretor Brian De Palma e foi romanceado pelo escritor James Ellroy. No episódio Spooky Little Girl, os autores oferecem uma explicação fictícia para a morte brutal de Elizabeth. Além desta referência a fatos verídicos, podemos listar o assassinato em massa das enfermeiras em um hospital escola no sul de Chicago que acontece no episódio do Halloween e o massacre protagonizado pelo personagem Tate em sua escola, onde ele invade a instituição fortemente armado e dispara de modo impiedoso contra seus colegas. Este é um dos trágicos eventos que já aconteceram e se repetiram nos Estados Unidos.  Uma referência que passa quase despercebida nos capítulos finais da primeira temporada, foi também utilizada numa das melhores história de Stephen King, A Tempestade do Século. A lenda da colônia perdida de Roanoke, vem como uma espécie de prova de charlatanismo da suposta médium que viria para ajudar uma das personagens. A colônia realmente existiu, sendo referenciada historicamente como uma das primeiras tentativas de colonizar o Novo Mundo, por volta de 1587. Após alguns contratempos, o líder da colonia se dirigiu até a Inglaterra em busca de suprimentos, numa viagem que durou três anos. Ao regressar, não existia mais nenhum colono na ilha, cujo único testamento fora a palavra croaton marcada em uma árvore. O mais inquietante é a declaração do navegador que havia avistado fumaça onde deveriam estar os colonos na noite anterior ao desembarque.

Entretanto…

Cada dia são expostas outras referências principais ou secundárias para esta primeira temporada, sendo expostas aqui apenas as principais e as que saltaram aos meus olhos de imediato. Estas enumerações das influências, apesar de serem amplas não mostram nenhum demérito ao resultado final. A proposta inicial era exatamente costurar elementos já presentes no segmento do terror, sejam literárias ou cinematográficas, com linhas técnicas de produção clássicas do gênero e enfeitadas com pinceladas de ineditismo moderno. Muitos contestaram a qualidade final da primeira temporada, mas era apenas um primeiro passo de um projeto que seria desenvolvido em outras temporadas e que tem sido melhor avaliadas por crítica e público a cada ano. A verdade é que este seriado veio para oxigenar um segmento que ficou relegado nos últimos tempos a um roteiro escatológico e brutal, nos trazendo novamente o sabor sinistro daquele horror indireto, sustos de tirar o fôlego e monstruosidades, ou seja, fugimos das torturas e autoflagelação de um jogo doentio gerenciado por um demente irresponsável, saindo do calabouço do açougueiro torturador e indo para um clima de classe e requinte sombrios. A busca por influências se seguirá a medida que for degustando as outras temporadas já produzidas e as que virão, sendo assim, este é apenas o início da montagem deste Frankenstein de referencias clássicas do terror em America Horror Story.

Anúncios

E aí? Curtiu? Conte-nos o que achou desta postagem, mas seja educado, por favor!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s