CHE GUEVARA: Duas Variações Sobre um Mesmo Tema

 

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Ernesto Che Guevara, o guerrilheiro latino que se tornou uma lenda, bem como uma figura recheada de contradições, que podem fazer dele um anjo, ou um demônio. Tudo depende do lado da moeda que se apresentem as duas variações sobre o mesmo tema: Che Guevara.

Alguns personagens da vida real passam a vida sem destaque histórico, outros entram na história após saírem da vida, mas poucos são como Ernesto Che Guevara (1928 – 1967) e se confundem com a própria história.

Desde sua chegada na costa da ilha de Cuba, em 1º de janeiro de 1959, ao lado de Fidel Castro, para lutar por uma revolução que iria depor o ditador Fulgêncio Batista, sua imagem de revolucionário, defensor da liberdade, das minorias oprimidas e paladino da igualdade foi disseminada pelos quatro cantos do planeta.

Não obstante, se tornou uma das figuras mais aclamadas do século XX, tendo sua famosa imagem estampada em camisetas trajadas por uma juventude que muitas das vezes não se atém ao fato de quem foi realmente Che Guevara.

Como toda figura emblemática existem os seus detratores e aqueles que defendem seus atos nobres, desprezando certas atrocidades confessadas pelo próprio Guevara.

Antes da revolução que fez de Che um nome a ser gravado nos livros de história, Havana, Las Vegas e Miami formava um triângulo sustentado por mafiosos, shows internacionais e grandes hotéis.

A influência cubana era tamanha que até mesmo a música americana bebeu na fonte do que ficou conhecido como Afro Cuban Jazz e vivia uma efervescente cena musical que pode ser conferida no belíssimo documentário Buena Vista Social Club.

Nestes tempos, o êxodo era invertido, com judeus, espanhóis e alemães se dirigindo à ilha presidida por Fulgêncio Batista que impôs uma ditadura, com atos de tortura e prisões arbitrárias.

Além disso, mafiosos se refugiaram em Havana e muitos encontros entre eles eram marcados na ilha. No segundo filme da série O Poderoso Chefão, Michael Corleone visita Cuba, até então de Fulgêncio, que muitos diziam ter se tornado o playground dos americanos.

Pode ser verdade, mas naquela época os mesmos cubanos tomavam a via contrária e tinham livre acesso aos Estados Unidos. Após a revolução, muitos esperavam por uma democracia, mas o intuito de Fidel e Guevara era moldar Cuba pelos parâmetros de Moscou.

Antes da revolução que fez de Che um nome a ser gravado nos livros de história, Havana, Las Vegas e Miami formava um triângulo sustentado por mafiosos, shows internacionais e grandes hotéis

 

CHE, O MÁRTIR…

O nome de Che Guevara se apresenta nos mais diverso lugares, desde escolas até nas tatuagens de seus seguidores, que compartilham de seus ideais exibidos desde infante. Ainda menino já era dotado de um sentimento de igualdade bem à frente dos de sua idade. Nascido como um garoto de classe média, descendente de nobres europeus dos quais herdou apenas o nome, Ernesto saía sempre em defesa dos mais fracos.

Não foi apenas uma vez que voltou para casa sem o casaco por tê-lo dado a alguém que precisava. Asmático, foi impedido pela doença de comparecer à escola regularmente, aprendendo a ler as primeiras palavras com sua mãe, Célia de La Serna. Ernesto, nascido em Rosário, Argentina, no ano de 1928, se mudou para Córdoba na década de 1940, quando já falava francês e se fantasiava de Gandhi no carnaval.

Ao contrário do que podemos pensar, não demonstrava ativismo político nesta época. No curso de medicina em Buenos Aires, quando o país vivia um golpe militar, Ernesto não protestava nas ruas e, segundo alguns historiadores, apesar de já ter contato com o socialismo, não apresentava tendências para se associar com o pensamento de esquerda. Era um leitor voraz, assimilando desde Aldous Huxley a filosofia e adorava viajar.

Che Guevara somente tomou o lugar de Ernesto, o argentino comum, em 1952, quando realizou sua famosa viagem com o amigo Alberto Granado pela América do Sul, onde pediu comida e abrigo na estrada e exerceu medicina num leprosário do Peru. As leituras começaram a ser mais direcionadas para a filosofia que Che pregaria anos mais tarde.

Consumiu Marx, Moriátegui e Rosa Luxemburgo. Neste momento as misérias lidas começaram a tomar rostos encontrados pelo caminho e enquanto seu amigo retorna para sua cidade e dar continuidade à sua carreira, Ernesto, agora já quase tomado pelo espírito de Che Guevara, renuncia o próprio bem estar em defesa de um ideal. Defenderia os oprimidos, lutaria pela igualdade econômica e ajudaria a construir um mundo melhor.

Che Guevara: Nascido na classe média argentina, abdicou de seu bem estar em prol de um ideal, lutando pela igualdade entre os homens

Fiel aos princípios, defendeu sua ideologia marxista quando foi preso ao lado de Fidel Castro por porte ilegal de armas no México e por tal conduta foi o último a sair da cadeia. Tentou dissuadir os guardas à sua causa e ficou preso por 57 dias.

Apesar de muitos dizerem o contrário, o militar cubano Alberto Bayo, treinador militar de Che, registraria em seu diário que o médico argentino seria o melhor aluno do grupo e teria conquistado a admiração do professor.

Outros relatos testemunham que ele estava sempre na linha de frente nos combates, protegendo seus homens, que mais tarde, treinados por Che, iriam repelir uma invasão de esquadrões financiados pela CIA na baía dos Porcos. O próprio Che, em discurso à ONU, admitiria que haviam fuzilamentos na ilha caribenha.

Centenas de pessoas foram executadas nos 6 meses que ele se encarregou dos presos políticos, mas Jorge Castañeda diz que se surpreende que a quantidade de execuções tenha sido tão pequena, defendendo que Che era um executor justo e perdoara o quanto pode. Além do mais, não existem provas do envolvimento de Che nos fuzilamentos.

Sua justiça era também social e imprimiu uma lei de reforma agrária, proibiu o latifúndio, distribuiu propriedades entre os camponeses e foi classificado pela revista americana Time como o cérebro da nova Cuba.

Antes de se tornar um mártir é referenciado como um trabalhador incansável, aluno dedicado (tinha aulas de matemática, economia e russo), praticava o voluntariado em trabalhos braçais dominicais.

Acabou se tornando maior que a revolução que ajudara a promulgar, seu símbolo maior, virou quase um popstar, mas alimentou divergências dentro da ilha, chegando a culpar a União Soviética de cúmplice no imperialismo.

A sua saída de Cuba foi inevitável. Seu próximo destino seria o Congo, onde sofreu um fracasso arrasador, o impelindo de volta à América, mais precisamente à Bolívia, onde encontraria a morte e sua imagem seria eternizada na história como um mártir.

Para alguns historiadores, Che Guevara buscava um sacrifício em luta quando se dirigiu para a Bolívia. Se for esta a razão, ele atingiu seu objetivo tendo como algoz o tenente Mario Téran, que fuzilou o homem, mas ajudou no nascimento de uma lenda, um deus para alguns.

 

GUEVARA, O GENOCIDA!

 

Muito do que foi exposto anteriormente são verdades, porém, para alguns, verdades contestáveis. O outro lado da moeda não crê num Che Guevara embebido de sentimentos ungidos. Para seus opositores suas atitudes eram banhadas de iniquidades em níveis diabólicos.

A máxima de Guevara é um dos primeiros pontos de objeção. Em suas palavras, “para construir o comunismo, simultaneamente com a base material tem que se fazer o homem novo”.

O modo como esta ideologia era colocada em prática é altamente discutível por ser baseada em perseguições a todos aqueles que não se encaixavam no novo molde cubano conduzido por um “dirigente supremo” como ele próprio designa em seu discurso  O que deve ser um jovem comunista, datado de 1962. Contradição extrema para um mártir libertário.

Voltando no tempo, em 1943, não se encontrava na marcha que reivindicava a libertação de seu amigo Alberto Granado, o mesmo que o acompanharia em suas viagens de descoberta pessoal citada anteriormente.

Segundo relatos, ele alegava que esta atitude seria infrutífera, que eles levariam uma surra dos policiais e que somente se juntaria aos protestantes se lhe dessem uma arma. A revolução cubana somente substituiu uma ditadura por outra, saiu o regime de Fulgêncio Batista, entrou a ditadura comunista que tinha Guevara como um de seus líderes.

Nesta época, milhares perderam suas propriedades, outros tantos fugiram e mais outras centenas perderam suas vidas. Segundo ele, apenas uma reforma agrária radical daria terra ao camponês.

A amizade não parecia ser algo valorizado por ele. Futuramente iria prender o amigo Huber Matos, que ajudara na revolução, pelo simples caráter contrário à ditadura comunista que começa a se instalar. Foi preso por 20 anos, após uma discussão se ele seria ou não fuzilado.

Guevara ainda seria o responsável pelo primeiro campo de trabalho forçado de Cuba, em 1960. Sua justificativa era baseada na reeducação pelo trabalho de pessoas consideradas imorais pela sua revolução comunista. O fato tomou proporções internacionais, acarretando em uma denúncia de violação de direitos humanos, cujo relatório oficial divulgado em 1967 fala em recrutamento forçado, nenhum direito de defesa e trabalho forçado por mais de oito horas diárias.

Nestes campos eram alocados gays, Testemunhas de Jeová, alcoólatras, sacerdotes diversos, e portadores de HIV. Ou seja, o mártir da liberdade, que lutou em defesa das minorias e o expurgo dos opressores, na verdade tinha se tornado um opressor e perseguidor implacável.

Che Guevara para alguns era um assassino frio, administrador cheio de caprichos e um genocida.

Outros relatos mostram que Guevara era um assassino frio. Durante a luta em Serra Maestra, em meados de 1957, ele teria assassinado um camponês por suspeita de traição. Em seu diário confessa que acabou com o problema dando um tiro com uma pistola calibre 32 no lado direito do crânio do camponês.

Em 1959, mandaria matar um menino de 15 anos que grafitava muros com mensagens opostas ao regime de Fidel Castro, mesmo com apelos da mão em favor do perdão de Che Guevara.

Aos mais exaltados basta uma olhadela em seu diário para constatar confissões de execuções sumárias ou ameaças de fuzilamentos a qualquer guerrilheiro que fosse suspeito de se opor à causa da revolução.

Alguns relatos chocam pela frieza de detalhes e nenhum traço de remorso por tirar a vida de um ser humano, como se sua ideologia fosse imaculada e qualquer que pensasse de modo contrário não tivesse o direito de viver na exemplar Cuba. Diplomaticamente, Guevara não demonstrava muita destreza. Quem engendrou a instalação dos mísseis de Cuba foi ele próprio em viagem à Rússia em 1961.

Ele foi o responsável pela crise dos mísseis de Cuba com o único intuito deliberado de afrontar os EUA. Historicamente, este foi o momento de maior tensão quanto a ser deflagrada uma guerra nuclear de proporções mundiais, algo completamente fora dos propósitos de um pacifista.

Além disso, Guevara era uma admirador das armas de fogo e pregava “um ódio intransigente ao inimigo”. Não tinha nenhuma competência administrativa e mesmo assim aceitou um cargo máximo de chefia no Banco Nacional. Quase enfiou Cuba num buraco financeiro, quando, por um simples capricho anti-imperialista, destruiu um acordo com os americanos envolvendo a produção de açúcar. O país foi impelido a um racionamento para combater a escassez de alimento.

Não foi diferente quando se tornou ministro da indústria, mas tudo isso era claramente justificado como reflexo do embargo dos imperialistas americanos. Não obstante, decidiu romper com o FMI e foi cobrado pelo empréstimo de 25 milhões de dólares. Teria que ficar sem dinheiro até a próxima produção de açúcar.  Neste caso recuou.

Contrariando vários princípios que seus defensores proclamam, ele pregava que os trabalhadores deveriam abrir mão das férias e voltar ao trabalho sem ganhar mais por isso.

Para finalizar, não é demais mencionar que Guevara não via problema em matar e se orgulhava de alguns assassinatos cometidos por ele por motivações políticas. Ou seja, a tortura e assassinato são virtudes, desde que cometidos contra os quais pensem diferente de você.


Che Guevara: Anatomia de um Psicopata. Belo documentário que explora o outro lado do “mártir”.

POR FIM…

Os defensores de Che Guevara podem alegar que tudo que denigre a imagem de ídolo libertário é uma mentira dos oposicionistas, que por sua vez, irão dizer que Che, o mártir, não existiu, sendo na verdade um genocida travestido de revolucionário pela propaganda comunista.

Na história sempre existem três lados e o terceiro, neste caso, nunca nos será revelado, pois estaria alheio a nossas premissas e preferências. A imparcialidade não é característica de nós, seres humanos, o que nos impele a uma dualidade até certo ponto agressiva, que nos impede de sair da disputa entre mártir ou genocida para Ernesto Guevara de la Serna.

Ele próprio  dizia que as transformações sociais radicais e aceleradas nem sempre, ou quase nunca, são perfeitas. Os pontos de vista são relativos, mentiras e informações plantadas por detratores e partidários sempre existirão.

Não quero aqui julgar, mas apresentar dois lados de uma mesma moeda. A minha opinião pouco importa neste caso, sendo mais importante investigar onde o Che mítico se encontra com o Ernesto Guevara da história, um homem que alardeava estar aberto às experiências humanas.

Entretanto, é bom salientar que muito do que foi escrito aqui veio de biografias das mais diversas, nascidas dos diários, discursos e pronunciamentos do próprio revolucionário que, em 1964, na Conferência das Nações Unidas assumiu que empregava os fuzilamentos e os faria enquanto achasse necessário para a causa revolucionária.

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