MAMONAS ASSASSINAS: Uma banda que não existiria em 2015!

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Pouco menos de duas décadas nos separam da transformação do irreverente em politicamente incorreto. Infelizmente, vivemos atualmente temerários em emitir opiniões ou até mesmo brincar com nossos amigos em mesas de bar.

Podemos ser vítimas daquele censor do movimento que nos estampará nas fuças o brasão trabalhado em discursos pré definidos e banhado em clichês de excluídos que ele nunca se encaixou.

Que somos uma nação de hipócritas ninguém pode contestar. Mesmo você não o sendo, estatisticamente, seu grupo perde em largo número para o aglomerado sob o adjetivo. Como se isso não bastasse, agora, estes asseclas se juntaram na Patrulha do Bom Mocismo, que são os defensores do politicamente correto, esbravejando suas hipocrisias como beijos para a torcida.

O brasileiro agora vive na sombra de ser taxado como preconceituoso por um simples comentário ou opinião, pois esta patrulha já se apresenta desenfreadamente apontando seu dedo indicador acusatório.

O povo parece que perdeu o discernimento e a capacidade crítica para distinguir uma opinião. Em sua maioria, perdemos o senso de humor e, principalmente, a capacidade de separar uma piada, ou um comentário pandego, de uma real crítica preconceituosa.

Todos querem sinceridade e opiniões embasadas, desde que estas concordem com o que está pré-estabelecido pelos cânones do “bom mocismo”. No meu entender, isto se tornou inerente à maioria das pessoas, pois assim fica mais fácil ser aceito, não existindo a possibilidade de ser criticado por suas idéias ou anseios.

Basta se mostrar politicamento correto e esta patrulha incansável e inexorável se encarregará de emparedar o divergentes ao seu pensamento, pois não há mais espaço para as pessoas que possuem opinião.

Estes tipos politicamente corretos se tornaram insuportáveis, mas sua força só aumentou com o passar do tempo. Assim, estabelecemos uma ditadura velada quanto a opiniões, onde ser subversivo e reacionário ficou cada vez mais simples: basta contrariar um dos cânones da cartilha do “bom mocismo”.

Achas que estou exagerando? Vamos a um exemplo. Atualmente no Brasil, se você for atacado por um cachorro raivoso, sofra suas mordidas calado e agradecido, pois se você der um tapa mínimo no animal, em sua própria defesa, aparecerão dos locais mais improváveis seres para te classificar dos piores nomes, mesmo vitimado, esvaindo em sangue e todo dilacerado.

Desabafos, e radicalismos à parte (afinal sua concordância com o dito acima não me importa, quero no máximo lhe fazer pensar sobre o assunto), estamos aqui para falar de como o irreverente se tornou preconceituoso, como nossa realidade é hipócrita e como vivemos em uma época chata. Para tal empreitada, eu clamo o exemplo que mais gosto: a banda Mamonas Assassinas!

Em 2015, Não Existiria Mamonas Assassinas!

Para aqueles que não acompanharam o fenômeno musical que ocorreu no Brasil, de maio de 1995 a março de 1996, em torno do Mamonas Assassinas, a dimensão real do culto que se criou para com o quinteto paulista após o fatídico acidente que ceifou a vida de seus integrantes é de compreensão duvidosa.

O que mais me chama a atenção nos dias de hoje é a relação imediata da banda com a irreverência, com o humor e até mesmo com certa dose de inocência saudosista, sendo que, muito do que forjou a real e afamada irreverência da banda é carimbado na mídia atual como impublicável.

Aos meus onze anos, quando o solitário álbum da banda foi lançado, eu podia muito bem cantar versos que traziam palavras como teta, suruba, negão, etc, sem medo de reprimenda, pois tínhamos a consciência de qual era o contexto daquele cantarolar.

O onisciente coletivo da época parecia menos regrado, menos tenso e impositor e como fruto desta época, afirmo que o álbum dos Mamonas Assassinas não seria lançado em 23 de junho de 2015, como acontecera em 1995.

Em nenhum momento quero desmerecer o trabalho da banda com este texto, muito pelo contrário, quero usá-lo como emblema iluminado em neon de que vivemos em uma época modorrenta, recheada de ditadores de regras, “bundas-moles” e reféns da auto-censura embasada no politicamente correto.

Será que em 2015 poderíamos ver uma apresentação destas na TV
sendo tachadas apenas de irreverentes e não de homofóbicas?

Rememorando as apresentações da banda em programas de televisão, fico pensando se permitiriam que executassem-nas hoje em dia em programas nas tardes de domingo como ocorria vinte anos atrás, pois, as justificativas utilizadas para a tolerância ao “funk” carioca não caberiam ao rock “besteirol” praticado por Dinho e seus asseclas, por não praticarem a “expressão cultural das minorias exploradas e sem acesso à cultura”.

Vamos fazer uma análise do primeiro álbum da banda, mas em versão 2015, com base nos conceitos implementados pela patrulha do bom-mocismo. Antes de prosseguir é importante salientar que a análise que farei a seguir é reflexo da forma como nossa enfadonha realidade interpretativa reagiria diante as brincadeiras e piadas, ou críticas disfarçadas de bom humor.

Crítica do único álbum da banda Mamonas Assassinas, versão 2015:

A primeira impressão que salta aos olhos é a imagem que estampa este álbum. Como, em 2015, uma gravadora permite que uma imagem tão sexista apresente sua nova aposta musical? Apresentação pouco alvissareira.

Play no CD e mal sabia eu que a afronta podia piorar. Apenas um olhar rápido no conteúdo das letras das músicas que compõem este álbum e vemos que o tiro de irreverencia saiu pela culatra e se tornou preconceituoso.

A primeira faixa, 1406, vem carregada de alusões ao consumismo e versos machistas, como em “Mas a pior de todas é minha mulher/ Tudo o que ela olha a desgraçada quer/ Televisão, microondas, micro system/ Microscópio, limpa-vidro, limpa-chifre, e/ Facas Ginsu”. Ou seja, estimulam o esteriótipo  da mulher de modo depreciativo frente ao consumismo, que ainda se repete na segunda parte da letra, onde apenas a mulher quer comprar “Ambervision, frigi-diet, celular, master-line\ Camisinha, camisola e kamikaze“.

A sequência, com  Vira-Vira, além das conotações a abusos sexuais sofridos pela Maria, ainda pode ser empacotado de imediato na pasta “xenofobia”, junto com a canção Jumento Celestino.

Se ainda acha que estou exagerando, pegue os versos de Uma Arlinda Mulher e me responda se esta canção não deveria ser censurada por conter uma alusão à violência contra a mulher? Afinal, o verso “Te falei que era importante competir, mas te mato de pancada se você não ganhar”  é dedicado à mesma mulher fora do padrão de beleza europeu alvo de preconceito no verso “Você é uma besta mitológica/ Com cabelo pixaim parecida com a Medusa”.

Ainda não é tudo, o rebaixamento da mulher continua em Bois Don’t Cry e em Lá Vem o Alemão, sendo, nesta última, claramente estereotipada como fútil, interesseira e mal caráter.

Robocop Gay é uma piada homofóbica de muito mal gosto e Mundo Animal faz “piada” com zoofilia em seus primeiros versos, cometendo erros imperdoáveis de português nos demais.  O preconceito reaparece em Sábado de Sol, que jocosamente faz referência aos dependentes químicos e em Lá Vem o Alemão que está carregada de preconceito racial.

Para completar o absurdo em forma de música, o grupo parece achincalhar estilos musicais tipicamente brasileiros em detrimento ao rock, tipicamente estrangeiro. Um erro total!

Já vejo os “bom-moços” arrasando o lançamento da banda estreante e o boicote que se seguiria dos veículos de comunicação, em decorrência de resenhas como a exemplificada acima.

Mas em 1995, as músicas viraram febre, o álbum era encarado como uma fusão irreverente e irrepreensível da pluralidade musical brasileira do rock nacional que já respirava por aparelhos no mainstream daqueles anos. A força do álbum foi tão grande que começaram a pipocar nomes roqueiros que investiam na irreverência explícita em sua letras, como Os Virgulóides e o Baba Cósmica.

Creio que a disparidade de absorção seja justificada pela incapacidade de separar o humor e a piada de uma opinião e/ou apologia. Neste prisma, fica fácil perceber como nosso entendimento se tornou mais intolerante e tendencioso, sendo este álbum do Mamonas Assassinas uma perfeita alegoria para evidenciar este fato e alertar sobre esta realidade perigosa, onde a tensão das desigualdades evoluiu para uma legião de ofendidos, entremeada por paladinos defensores de minorias que ajudam a espalhar esta ditadura do “politicamente correto” em que vivemos, cerceando a livre exploração humorística da nossa realidade.

Para a geração que se encontra por volta dos 30 anos, a mesma que se lembra dos meses finais de 1995, sabe a diversão e alegria que perderíamos se este álbum do Mamonas Assassinas fosse censurado nos dias de hoje. O que nos leva a refletir do que estamos sendo  privados pela ditadura do politicamente correto em que vivemos.

Justo no nosso país, que se vangloria de ter liberdade de expressão, vivemos a pior das censuras, a velada e que nos é individualmente auto-infligida e nem mesmo atentamos o quão contraditório é associar os verbetes “politicamente” e “correto” numa mesma expressão.

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1 comentário Adicione o seu

  1. Marcos disse:

    Precisamos de mais Mamonas Assassinas na música.

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