LÚCIFER: Uma Entidade do Mal ou o Portador da Luz?

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Lúcifer, Satanás, Diabo ou Demônio são, na nossa sociedade cristã ocidental, alcunhas para um mesmo ser. Temido por vários, adorado por poucos e possuidor de alguns, esta figura é onipresente na cultura ocidental como responsável por todo o mal que nos flagela durante a vida, ou após a morte. Mesmo com toda esta carga de iniquidade, esta figura se faz presente nas mais diversas mitologias (com outros nome, conforme veremos posteriormente) e, também, na cultura pop em geral. para confirmar esta hipótese, basta se lembrar para quem Fausto, personagem de Goethe, vende sua alma em troca de fortuna e juventude, ou onde se ambiente a primeira parte da jornada de Dante na sua Divina Comédia. Mas quem, ou o que realmente é esta figura tão atemorizante? Claro que não tenho a presunção de responder tal interrogação, a minha intenção é investigar esta figura instigante com base em alguns documentos alheios ao costumas viés bíblico ocidental que tomo nosso imaginário. Dentro do ínfimo campo de convergência das mais variadas vertentes, Lúcifer é um ser não-humano, conhecedor das verdades do Universo e, apesar de ser mencionado em alguns livros como um arcanjo, a realidade é que a definição da casta angélica de Lúcifer é discutida até os dias de hoje. Além do mais, o que a tradição nos conta sobre este peculiar personagem é que fora concebido junto aos demais anjos no segundo dia da criação, sendo possuidor de uma inigualável beleza. Tal perfeição o levaria a desobedecer o Pai Celestial que determinara o louvor à sua nova criatura por parte dos anjos, feita à sua imagem e semelhança. Lúcifer teria se recusado a tal ato por considerar os humanos inferiores a ele. O orgulho foi levado a tal ponto que seu desejo se tornou construir um trono acima de Deus. A mitologia ainda nos diz que ele se mostra persuasivo ao convencer um terço dos anjos do Paraíso em prol de sua causa e combateu as tropas do Arcanjo Miguel em uma batalha que ficou conhecida como A Primeira Guerra do Céu. O fim da batalha é a derrota das hordas comandadas por Lúcifer que foram enviadas ao Inferno junto com seus seguidores. À partir daí, ele se torna o antagonista de Deus, tomando para si a missão de acabar com os planos que o Senhor tinha para, nós, seres humanos. Assim, como grande parte da história da humanidade é composta de dualidades, coube a esta entidade o papel de personificar todo o oposto ao Deus composto de bondade e benevolência, pois, se além destas virtudes, ainda existia o mal, quem o detinha? Até meados do século XII, a figura do Diabo ficou em segundo plano, mas em um determinado momento, a preocupação com sua influência se tornou parte tão grande na cultura religiosa ocidental que era mais comum ouvir falar dele do que de Deus. Nem a oração ensinada por Jesus sobreviveu ao temor causado pelo monstruoso Diabo que, em meados daquele mesmo século, tinha versos cantados como: Não nos deixei cair em tentação, mas livrai nos do Diabo, Amém! Mas existem controvérsias acerca da figura de Lúcifer. Por exemplo, outros documentos além dos relatos bíblicos narram esta batalha celeste onde alguns personagem são “trocados” e nos Pergaminhos do Mar Morto, registra-se que Miguel liderou os filhos da luz contra os filhos da escuridão, comandados pelo futuro demônio Belial. Alguns estudiosos da Bíblia ainda afirmam que a passagem que descreve a queda de Lúcifer, na verdade traria um erro de tradução para o termo Filho da Manhã, que fazia referência ao rei Nabucodonosor da Babilônia, sendo a queda da narrativa uma alegoria para a sua morte. Ou seja, existem caminhos a serem explorados quando queremos investigar um personagem tão controverso. Vamos percorrer estas algumas trilhas, que vão nos levar a interpretações fora dos padrões, mas que podem lançara luz a uma uma reputação assassinada por um pensamento arcaico, transformando a base cultural oriunda de milênios em novas visões embasadas por pensamentos mais modernos. Não tenho aqui interesse de divulgar ou enaltecer nenhuma vertente satânica e não irei me ater a nenhum ensinamento filosófico. Sendo assim, mantive os ensinamentos das mais variadas vertentes do satanismo de fora deste texto por estarem mais ligadas a uma interpretação filosófica da figura de Lúcifer e menos interessadas na investigação desta entidade. Assim, o que proponho é libertação dos dogmas passados de geração após geração, uma investigação livre de amarras e de mente aberta.

Lúcifer: Pela Bíblia.

A queda de Lúcifer é descrita em dois capítulos de livros distintos na Bíblia Sagrada. No livro de Isaías, capítulo 14, Lúcifer é referenciado como Estrela da Manhã, filho da alva, ficando, em alguns versículos, explícito seu desejo de ser semelhante ao Altíssimo e ter um trono exaltado acima das nuvens. A condenação, ou queda, é a precipitação ao reino dos mortos, no mais profundo abismo. Alguns estudiosos, recentemente, têm atribuído esta queda, não a Lúcifer, mas a outro rei humano que governou a Babilônia. Já em  Ezequiel, capítulo 28, uma breve biografia de nosso personagem é apresentada de forma lírica, com virtudes super-humanas, onde é adjetivado como “um sinete de perfeição, cheio de sabedoria e formosura.” Teria ele residência no Éden, jardim de Deus, sobre a forma de um querubim da guarda, ungido, coberto de pedras preciosas, mas tua perfeição não foi suficiente para que evitasse o pecado e fica claro que seu resplendor corrompeu a sua sabedoria. No fim, ele fora atirado queimado sobre a terra, mas seu acesso ao Paraíso ainda não havia sido revogado, como fica evidente na passagem em que ele teria colocado em xeque a fé de Jó. No livro de Lucas, a queda de Lúcifer, a partir daí já referenciado como Satanás é descrita como um relâmpago que cai do céu.  Este evento nos apresentaria à gênese do pecado no Universo, sendo Lúcifer o primeiro pecador e o orgulho o pecado inicial. Mas este não foi o único legado da corrupção deste anjo. Já como um anjo caído, teria através de uma serpente (ou seria a serpente uma alegoria para Satanás?) danado toda a criação divina na Terra.  Antes deste evento, em sua rebelião, levara cerca de um terço dos anjos consigo em sua queda e, segundo a tradição, tem levado milhões de almas humanas para o seu abismo, pois de acordo com alguns escritos bíblicos, ele é o governante diabólico deste mundo caído. Após a expulsão do Paraíso, teria mudado seu nome para Satanás (cujo significado pode ser hostil ou adversário, opositor), seu orgulho e ódio teriam pervertido sua sabedoria e ele se voltara contra tudo e todos que estivessem ligados positivamente aos propósitos divinos. No fim dos tempos ele será atirado em um rio de lava, onde sofrerá eternamente.  Mas, por enquanto, ele é denominado como “o príncipe deste mundo” e “o deus desta era”, tendo poder limitado em múltiplas esferas de existência. É importante lembrar que a maioria dos ensinamentos passados de geração em geração pela tradição cristã tem sua bases fixadas na tradução inglesa dos livros bíblicos que ficou conhecida como a Bíblia do Rei James, por volta de 1611.
A Queda de Lúcifer e dos anjos rebeldes, por Gustave Dore. Ilustração presente no Livro 1, do poema épico Paraíso Perdido, de John Milton

Lúcifer: Por Dante e Milton

Somente em 1611, com o advento da Bíblia do Rei James que os termos Luxferre, Lucis e Lucifer foram trazidos para as páginas bíblicas como associação ao mal. A figura maléfica e inimiga de Deus dada à Lúcifer é oriunda da literatura. Por mais absurdo que possa parecer, duas obras em particular incutiram no imaginário popular ocidental que Lúcifer é o Senhor das Moscas, o Príncipe de Todo o Mal. São elas, A Divina Comédia, de Dante Alighieri e Paraíso Perdido, de John Milton. No clássico de Dante, Lúcifer é encontrado no Canto XXXIV, da primeira parte, o Inferno, e descrito nas seguintes palavras: “Se um dia foi tão belo, quanto é hoje horrendo; se contra seu Criador alçou a fronte, bem entendo seja ele hoje a fonte única do mal que o mundo chora“. Continuando a leitura, somos apresentados a um Lúcifer de características medonhas, com três faces (uma delas vermelha que exalta todo o ódio de um ser maligno), asas como as de um morcego e tão grandes quanto cabem a um ser tão volátil e mau, chorava pelos seis olhos lágrimas de sangue e espuma e com a boca triturava a maior dos pecadores: Judas Iscariotes. Esta foi a última visão de Dante, antes de deixar o Inferno e seguir em direção ao Purgatório e a imagem que ficaria na imaginário popular dali em diante. Mas a principal contribuição de Dante para a tradição cristã foi a associação da figura de Lúcifer ao detentor de todo o mal do universo.  Paraíso Perdido é um clássico da literatura poética, também publicada em cantos, que conta a história do princípio da criação do mundo. Fortemente baseado no livro bíblico de Gênesis, o autor John Milton descreve a desobediência de Adão e Eva e a consequente expulsão do casal do Jardim do Éden.  Claro que Lúcifer tem uma presença de destaque em todos os dez mil versos que compõem a obra e sua personalidade se mostra peculiarmente atraente da forma como foi colocada por Milton, atribuindo a ele frases como: “É melhor reinar no Inferno do que servir no Paraíso”. Ao contrário da figura horrenda de Dante, o Lúcifer de Milton se mostra carismático e persuasivo. A verdade é que o caráter puritano deste poema épico divide opiniões quanto a ter Lúcifer (denominado Satanás) como mola propulsora da obra. A verdade é que quando dos lançamentos destas obras, a intelectualidade se encontrava ainda tão endurecida que poucos foram os que tomaram estes relatos literários apenas como ficção e as consequências ecoam até os dias de hoje.
Dante Alighieri vê Lúcifer em sua última parada no Inferno. Obra de Gustave Doré.

Lúcifer: Correlações Mitológicas

Dentro dos ensinamentos religiosos ocidentais, mais precisamente no cristianismo, temos a certeza de que os nomes Diabo, Satã e Lúcifer referenciam à mesma entidade, inimiga de um Deus onipresente, onisciente e onipotente. Na verdade, se ampliarmos nosso contexto, fazendo das descrições bíblicas parte da mitologia de um povo específico e adicionando-o ao conjunto de todos os outro mitos que foram ensinados pela história da humanidade, podemos, num primeiro momento, referenciar Satã, o Senhor das Trevas, ídolo do materialismo, como sendo o deus Saturno na mitologia greco-romana.  Saturno (ou Cronos) era um titã, filho da Terra e do Céu, que surgiu do Caos e pai de Júpiter (Zeus). Existe uma certa confusão na figura de Saturno, pois, se por um lado ele é ligado à divindade Cronos dos gregos, que devorava a própria prole, por outro lado, dizem que o seu reino constituiu a idade de ouro da inocência e da pureza. Se nos utilizarmos deste caminho veremos que, na verdade, Lúcifer não pode ser associado a Saturno, como os estudiosos fazem com Satã. Em Isaías 14:12, temos uma possível referencia a Lúcifer como a já mencionada “Estrela da Manhã”, termo que caminha diretamente para o planeta Vênus, uma indicação clara para a deusa Afrodite. Existiria ligação entre Lúcifer e Afrodite? Vejamos que Vênus (ou Afrodite), filha de Júpiter (ou nascida da espuma do mar), é um símbolo de beleza, se ocupando também do desejo e da sexualidade, assim como Lúcifer e ambos trazem a maçã dentre seus símbolos mitológicos. Ainda no âmbito da mitologia greco-romana, muitos estudiosos associam Lúcifer a Eósforo e Héspero, dois irmãos que tiveram ligações com símbolos como a maçã e o Dragão e em antigos cânticos nupciais Lúcifer é descrito como “o belo gênio de cachos dourados que conduz e entrega a noiva nos braços do noivo“.

Saturno, Seth e Loki, possíveis variações culturais de civilizações antigas semelhantes ao arquétipo de Lúcifer.

 

Viajando na geografia mitológica, caminhemos até os países nórdicos e chamemos por Loki. Este era uma divindade que se comprazia nas calúnias, nos atos condenáveis e na articulação de fraudes, ou seja, era o opositor maior do deus dos deuses no panteão nórdico. Mas esta não era a única semelhança com Lúcifer, pois a mitologia nos conta que Loki era belo e bem-feito de corpo, mas de temperamento caprichoso e maus instintos. Assim como Saturno não pertencia a raça dos deuses, sendo Loki um gigante, também não detinha linhagem sagrada. Uma de suas piores atuações se dá na morte de Balder, onde um banquete teria sido servido para doze deuses nórdicos em Valhalla. Entretanto, Loki, o espírito do mal (o portador de todo o mal?), tomou conhecimento de tal encontro, do qual, logicamente, fora excluído e usando algumas de suas artimanhas nefastas teria destruído o banquete e o resultado teria sido a morte do favorito dos deuses e filho de Odin. Ainda podemos buscar ligações entre Lúcifer e deuses americanos pré-colombianos e o titã Prometeu, mas faremos isso mais adiante e em outro contexto. Como veremos posteriormente, a história se repete de modo explícito nos mais diversos terrenos mitológicos. Indo até o Egito, talvez encontremos o mais forte deles. O deus Seth era representado por um homem com a cabeça de um animal mítico parecido com um cachorro de focinho e orelhas compridas e cauda ereta, ou ainda com a cabeça de um bode. Controlador dos trovões e das tempestades, era um dos nove deuses principais, irmão de Osíris, Ísis e de Néftis. Assim como Lúcifer, sua gênese fora no caminho do bem e era adorado como senhor do Egito. Com o passar do tempo tornou-se a personificação do mal, responsável por disseminar o caos cósmico. Entrou em conflito com com Hórus, filho de Osíris (que fora vítima fatal de Seth), assim como Lúcifer fora derrotado em sua rebelião por Miguel, que poderia ser enxergado como membros de uma mesma família divina.

Lúcifer, Shemyaza, Kukulkan ou Prometeu: Muitos Nomes Para o Mesmo Senhor do Conhecimento?

Historicamente, grande parte de nossa sociedade religiosa tem Lúcifer como a representação de todo o mal, um opositor dos propósitos de Deus. Entretanto, seu nome, em latim, quer dizer “aquele que traz a Luz“, ou o “Portador da Luz“. Ele ainda é referenciado como Lexferre, que pode se traduzido como “a mais brilhante estrela vespertina”, que também o associa aos planetas Vênus (que é um símbolo de beleza e elegância feminina) e Saturno. É interessante observar que alguns textos antigos traziam referências a  Lúcifer com a mais brilhante “estrela da manhã” e não como o “Pai de todo Mal“. Na antiga Babilônia, o título “Estrela da Manhã” era atribuído a um rei tirano  que, segundo os profetas antigos, estava fadado à queda de sua graça por causa de seus desígnios malignos. Este rei ainda era denominado de Príncipe dos Demônios, nuca sendo demais lembrar que os babilônios, naqueles tempos, eram adeptos da mitologia suméria, de caráter politeísta antropomórfico. Mas nosso foco será em outra faceta das interpretações acerca deste personagem comum ao consciente coletivo da nossa sociedade ocidental. O Livro de Enoque, conjunto de pergaminhos que datam de mais de 2000 anos, nos contam de seres angelicais que prestariam assistência à humanidade, referenciados como Vigilantes e cujo contato nos tornaram simpáticos a eles, a ponto dos Filhos de Deus tomarem as filhas dos homens como esposas. O convívio com os seres tornaram estes duzentos vigilantes menos interessados em suas obrigações originais, culminando numa rebelião que resultaria na criação de corpos materiais, “casamentos” com humanos e até mesmo miscigenação. Estes vigilantes eram liderados por Shamyaza, ou Satanael (que pode ser traduzido como Vigilante e que pode ter ligação direta com a palavra Satanás) e o ato de tomar esposas dentre os humanos era um pecado passível de castigo. Nunca é demais rememorar que tal conduta é descrita na Bíblia e teria como consequência o nascimento do Néfilins. O Livro de Enoque ainda nos diz que Mikael assistia dos céus à corrupção dos vigilantes e tendo participado o Altíssimo da situação, este o ordenou a comunicar o castigo de Shamyaza e seus seguidores de descer e perecer junto aos humanos. Após a descida dos vigilantes no Monte Armon, Shemyaza e seus seguidores compartilharam conhecimentos de medicina, magia, armas, astrologia, ciência e guerra com os seres humanos, o que nos levanta a questão da maldade deste líder. Ou será que ele apenas queria nos libertar da ignorância? Buscando outros relatos da antiguidade chegamos aos instrutores dos sumérios, os seres meio-homens, meio-deuses, que desceram das estrelas e instruíram os povos estes povos nos mais diversos conhecimentos. O mais interessante, é que estes seres, denominados Anunnakis, tinham suas feições reptilianas, assemelhando-os a serpentes, forma que os vigilantes descritos pelo Livro de Enoque e um símbolo associado a Lúcifer na nosso cultura.

Shemyaza, líder dos vigilantes, seria o responsável por libertar a humanidade das amarras da ignorância.

As semelhanças entre as histórias de Shamyaza e Lúcifer vão além da mera liderança de uma rebelião contra seus superiores e do fato de Lúcifer ser associado à serpente do Jardim do Éden, enquanto Shemyaza pode ser ligado aos Anunnakis e descrito com feições reptilianas. Indo um pouco mais além, alguns estudiosos colocam Lúcifer como um serafim, que eram os benfeitores da humanidade, responsáveis por disseminar conhecimentos diversos dentre os humanos e o termo “serafim” pode ser traduzido como Serpente Gigante. Logo, existem teorias que insistem em ligar os vigilantes do Livro de Enoque com os mesmos Anunnakis dos sumérios e seu líder, Shemyaza, pode ser a figura que inspirou o Lúcifer bíblico. Ao falarmos em “serpente gigante” que apresenta diversas áreas de conhecimento para a humanidade, é impossínão nos lembrarmos do deus serpente maia Kukulkan. Este deus era descrito como semelhante a uma serpente alada,que era detentora de total sabedoria e proporcionava o acesso da humanidade a um conhecimento cósmico. Kukulkan é um ser meio-humano, meio-serpente, ou como um ser humano que saia da boca de uma serpente e, assim como os Anunnakis, ele descera de uma estrela para ensinar astronomia, matemática e agricultura à humanidade. Se nos desatarmos dos grilhões a nós atrelados por dogmas, veremos que a alegoria da serpente que instruiu Eva a comer da árvore do CONHECIMENTO tem estreita coincidência com os mitos de Shemyaza e Kukulkan. Seriam Lúcifer, Shemyaza e Kukulkan nomes para um mesmo ser que realmente proporcionou à humanidade o abandono da ignorância intelectual? Além de Shemyaza  e Kukulkan, podemos descer um pouco mais na América e descobrir Viracocha, uma das principais divindades descritas pela cultura Inca. Esta deidade seria a responsável pela criação, colocou no mundo a primeira geração de gigantes (de modo semelhante a como era referenciada a prole dos Vigilantes do Livro de Enoque e os Néfilins bíblicos) e circulava ladeado de seu companheiro Inti, um condor profeta do mundo divino. Suas representações mostravam raios em suas mãos e um ser coroado pelo sol (seria ele o portador da luz como Lúcifer?). Além disso, na cultura Inca, a cobra, muitas vezes associada a Lúcifer, é um símbolo de intelecto, conhecimento e passado. Era tida como deidade do mundo inferior (Lúcifer e seu inferno?) e parte da trindade inca que trazia o condor como guardião dos céus e o puma como guardião da Terra.

Representação de Kukulkan, o deus serpente  alada dos maias, detentora de sabedoria
que proporciona o acesso da humanidade a um conhecimento cósmico

Outro personagem mitológico que merece atenção neste grupo que tem semelhanças com a figura de Lúcifer é o titã Prometeu. Pertencente a  uma raça de gigantes que habitou a Terra antes dos homens, ele e seu irmão Epimeteu foram responsáveis por dar aos homens e aos demais animais, todas as faculdades necessárias para sua preservação. A divisão do trabalho foi feita de modo que Epimeteu realizasse o feito e Prometeu revisasse o trabalho de grandes proporções para que o sucesso fosse garantido. Desta forma, foram divididas todas as faculdades necessárias aos animais, mas na hora de caracterizar o homem com algo que o destacasse perante os outros animais, Epimeteu notou que gastara todos os seus recursos e nada mais detinha. Assim, Prometeu, com a ajuda de Minerva, subiu ao céu e acendeu sua tocha no sol, roubando o fogo dos deuses e o trazendo para o homem, que com este artifício garantiria sua superioridade perante os outros animais. A figura de Prometeu é constantemente referenciada como amiga da humanidade, um defensor da Terra que ensinou aos homens preceitos de civilização e das artes. Contudo, ao assim proceder, contrariou Júpiter, tornado-se alvo da ira do deus dos deuses que o aprisionou a uma rocha na Terra para que tivesse o fígado devorado por uma águia durante todo o dia, para que durante a noite crescesse e fosse devorado novamente no dia seguinte. Este castigo seria perpétuo, pois Prometeu  negara a submeter-se a seu opressor, condição para sua pena ser revogada. Independente do caráter alegórico desta parte da mitologia, o cerne deste relato nos mostra mais um ser extra-humano que se indispõe com seus superiores em favor dos humanos e lhes fornece sabedoria, sendo punido severamente por tal ato. Além disso, Prometeu roubara a luz dos deuses e Lúcifer seria o “Portador da Luz”, uma das várias coincidências que não podem ser ignoradas. A diferença é que de todos os personagens com mitos semelhantes, Lúcifer seria o único demonizado pela cultura ocidental apesar das associações mitológicas serem gritantes e a possibilidade de todas elas retratarem o mesmo ser que conhecemos como Lúcifer ser real.

Prometeu, o Titã que roubou o fogo dos deuses para dá-lo aos seres humanos.

Lúcifer: Um alienígena?

Talvez, mais estranha conjectura a respeito deste personagem central em nosso texto seja a de que ele seria, na verdade, um ser de outro planeta. As teorias dos deuses alienígenas cresceram consideravelmente nos últimos anos, arregimentando adeptos e pesquisadores espalhados por todo o mundo e segundo alguns deles, algumas passagens bíblicas podem ser interpretadas como efetivos eventos ufológicos. É claro que a gênese da humanidade não passaria incólume a tais análises e, segundo os teóricos, estaria diretamente influenciada por seres de outros planetas. O que para muitos é absurdo, não pode ser desconsiderado neste panorama que desenvolvo acerca da figura de Lúcifer. Se analisarmos friamente as palavras em Gênesis, capítulo 6 (além de outros registros já mencionados anteriormente), vemos que os Filhos de Deus se encantaram com as filhas dos homens e daí surgiu uma prole de gigantes, ou Néfilins, uma palavra derivada de “Naphal”, que pode significar caído, e detentora da herança pecadora desta nova raça. Outro detalhe que não pode deixar de ser questionado é o fato de que, por definição, os anjos não são oriundos de nosso mundo, sendo assim, extraterrestres por natureza. Por consequência, Lúcifer, como um anjo que era, seria um extraterrestre. Entretanto, os teóricos dos antigos astronautas, que defendem a interferência alienígena no curso da vida em nosso planeta, alegam que o caráter extra-terreno de Lúcifer se dá fora na esfera bíblica, extrapolando a metafísica e obtendo contornos materiais. A palavra anjo seria o fruto de um erro de tradução para um vocábulo que seria equivalente a mensageiro e, em grego, algo como mediador ou intermediário. Na própria Bíblia, os anjos seriam descritos como mensageiros de Deus.

Seria Lúcifer um extraterrestre reptiliano?

Iluminando outras teorias, os anjos caídos, liderados por Lúcifer seriam extraterrestres que se rebelaram dentro de uma tripulação maior, com o desejo de tomar o poder dos caminhos para a instrução da raça humana. Dentro desta interpretação, alguns inferem que estes extraterrenos desejavam ajudar a raça humana a sair da infância intelectual e preferiam fixar-se na Terra, descendo no Monte Armon e sendo professores de uma humanidade que ainda engatinhava. Esta teoria ganha força quando interpretamos a história de Jó por um outro prisma. Os versículos presentes no Livro de Jó nos deixam a impressão de que Lúcifer faria parte do conselho celestial de anjos, se reunindo com outras entidades para atualizar as demandas de Deus. Numa destas “reuniões”, Lúcifer e o Criador teriam uma discussão que culminaria no desafio por parte de Lúcifer ao exemplo de Jó, apresentado por Deus como epítome de fé e obediência. Observar que nesta etapa Lúcifer já havia caído e se tornado Satanás, torna sua presença no âmbito divino uma ocorrência no mínimo curiosa. Retire o ambiente religioso envolvido em questões bíblicas de bem e mal e coloque esta rusga dentro de uma ficção científica, onde um líder de uma facção contrária aos ideais do comandante extraterreno, em missão em nosso planeta, discutam a respeito de um terráqueo que corrobore com os propósitos da filosofia de trabalho proposta pelo comandante. O contexto é diferente, mas o fato de Lúcifer ter lugar no parlatório divino é tão religiosamente contraditório quanto o fato de uma cúpula extraterrena disputando a lealdade de um terráqueo. Os defensores desta interpretação alienígena, enxergam os vigilantes apresentados no Livro de Enoque como seres de outros planetas, tendo Lúcifer como um dos muitos personagens inspirados no líder destes “anjos” que “caíram” de suas naves para ensinar e civilizar a raça humana. Ou seja, Lúcifer seria um extraterrestre que se rebelou contra sua raça para viver dentre os nossos ancestrais. Esta é a interpretação que defendem alguns dos pesquisadores que seguem a teoria dos deuses astronautas (para saber mais clique aqui).

Seria Lúcifer um Anunnaki? Alguns teóricos dos deuses astronautas apostam nesta possibilidade.

Se seguirmos por esta linha de raciocínio podemos ligar as associações de Lúcifer, Shemyaza, Kukulkan e Viracocha, todos estreitamente simbolizados por serpentes, como representações de um mesmo ser extraterreno reptiliano, que ainda traz forte semelhanças com os Anunnakis (palavra que significa aquele que desceu o céu) como vimos no tópico anterior. Alguns teóricos acreditam que os relatos sumérios são a maior evidência de que fomos visitados por seres de outros planetas e estes, que seriam os deuses sumérios, eram, na verdade, extraterrestres em busca de ouro para desenvolver um remédio para sua atmosfera danificada pela exploração nuclear. Se Lúcifer realmente for um destes seres, como mostram as evidências apresentadas anteriormente, então ele seria um ser de outro planeta físco. O interessante, é que na teoria acerca destes possíveis viajantes do espaço, também existe uma rebelião por parte de um grupo que enxergava divergências com os ideais de seus superiores. No caso do motim dos Anunnakis, a divergência levou à criação dos seres humanos para que fossem escravos na trabalho de extração mineral. Logicamente, todas estas conjecturas são baseadas em um nova face de interpretação do prisma das evidências históricas e a mesma é defendida por estudiosos ao redor do mundo.

Lúcifer: O que diz a Quinta Revelação?

De todas as linhas de pensamento expostas neste texto, a que será apresentada talvez seja a mais surreal e ao mesmo tempo a mais crível de todas. Segundo a história nos conta, entre os anos de 1928 e 1934, setenta pessoas residentes em Chicago receberam 197 documentos que foram compilados como O Livro de Urântia. Neste compêndio estariam textos que contariam a nós, humanos, toda a formação do Universo, sua divisão burocrática e explicaria em pormenores todo o plano universal, bem como responderia todas as questões inerentes ao nosso planeta, nomeando, especificando e detalhando todos os elos perdidos de nossa origem. Ao contrário do que muitos podem inferir, todos os autores etéreos são nomeados e existe dentro das páginas deste livro uma explicação da origem dos documentos e como eles chegarem até os seres humanos. Este conjunto de revelações ficou conhecido como Quinta Revelação de Urântia, pois como fica claro em suas páginas, houveram outras quatro revelações ao nosso planeta: Jesus Cristo, Dalamátia (livro que descreve em detalhes a chegada e o estabelecimento de um Príncipe Planetário ao nosso orbe, algo de extrema importância para um planeta que abrigaria vida), Adão e Eva (que teriam nascido há aproximadamente quarenta mil anos e trariam ensinamentos do Pai Celestial) e Melquisedeque de Salém (que viveu na Terra por volta de dois mil anos antes de Cristo e seria o responsável por ensinar-nos a doutrina monoteísta que seria a base dos ensinamentos de Abraão). Apesar do caráter surreal destas revelações, o exposto em suas páginas é tão fora da compreensão humana que afirmar a falsidade do que ali esta escrito é tão leviano quanto aceitar suas verdades sem uma acurada reflexão. Entretanto, todo o ensinamento exposto faz sentido e seria plenamente aceitável do ponto de vista científico e cada nova descoberta de nossa arcaica ciência cada vez mais comprova certos elementos ali apresentados previamente.

Uma representação do Grande Universo vista de nosso planeta, Urântia.

Porém, nosso interesse maior no texto de hoje é apresentar o que esta revelação no conta sobre Lúcifer e sua rebelião. Todavia, para entender de forma efetiva todo o cenário universal em que Lúcifer se insere, será necessário um prelúdio elucidativo quanto a estrutura universal apresentada pelos arquivos de Urantia. Nós vivemos em um pequeno pedaço de um Universo Mestre, divido em Espaço Externo (ou Inabitado) e Grande Universo (habitado ou habitável), este segundo sendo dividido em uma intrincada cadeia de departamentos administrativos. Dentro deste Grande Universo, temos sete Superuniversos que giram ao redor da Ilha Eterna e Estacionária do Paraíso, conhecido como Universo Central de Havona. Em cada um destes Superuniversos temos dez Setores Maiores, dentro de cada Setor Maior temos dez Setores Menores que, por sua vez, possuem cem Universos Locais em cada um deles. Cada Universo Local possui cem Constelações, em cada Constelação estão alocados mais cem Sistemas que possuem mil Planetas cada. Cada parte desta confusa divisão é regida por um planeta capital não natural. O nosso Superuniverso é o sétimo e se encontra na fronteira do Grande Universo, sendo batizado como Superuniverso de Orvonton. O núcleo central de Orvonton é a Via Láctea, sendo nossos Setores Maiores e Menores denominados, respectivamente, como Splandor e Ensa. Nosso Universo Local foi nomeado como Nebandon (cuja capital é Salvigton) e estamos no vigésimo quarto sistema da Constelação de Norladiadek, denominado Satânia (sugestivo aos nossos propósitos, não?), que possui cerca de 619 mundo habitados ou a habitar. Usualmente não existem mais de dois planetas habitados por sistema solar. Aliás, nosso sistema solar é referenciado nos arquivos universais como Monmacia. Se a divisão “geográfica” desta quinta revelação se mostra confusa, quando passamos ao “departamento burocrático” tudo tende a piorar e seguir para o âmbito não-palpável. Segundo os relatos aqui apresentados, Deus seria o Criador Pessoal do Paraíso de Havona e o controlador dos Superuniversos em níveis físicos, mentais e espirituais, além de ser a fonte criadora dos Filhos Criadores, responsáveis pela criação e organização dos universos de espaço-tempo. Nosso Universo Local de Nebandon foi concebido por um destes Filhos Criadores, denominado Mikael, que seria a nós apresentado como Jesus de Nazaré e cuja experiência carnal neste planeta seria necessária para sua completa evolução e seu estabelecimento como governante soberano. Pela jornada de Mikael na Terra (ou Urântia), nosso orbe é conhecido nas esferas superiores como “o planeta da cruz”.

Lúcifer: Um Filho Lanonandeque primário de Nebadon e um
dos três únicos desta classe que se opuseram ao governo do criador.

Lúcifer nesta revelação é referenciado como um ser de muita experiência de serviço em muitos Sistemas e distinguível por sua sabedoria, sagacidade e experiência. Ele ocupava a terceira ordem de filiação do universo, a dos Lanonandeques, que era a mais baixa ordem no âmbito divino da criação. A grande maioria destes Filhos se ocupa da soberania dos sistemas locais e como príncipes planetários, governantes da administração dos mundo habitados. Devido ao seu grau na ordem do Filhos, os Lanonandeques tiveram que frequentar preparações para o serviço subsequente e Nebadon começou sua existência com exatamente doze milhões destes Filhos Lanonandeques, que foram divididos em três categorias conforme o aproveitamento de sua preparação, onde eram medidas suas aptidões, personalidades e alcance de suas realizações. Lúcifer se enquadrou dentre os Lanonandeques Primários, a categoria mais alta das três e, junto dos setecentos mil desta classe, era o trigésimo sétimo mais capacitado de sua ordem. Com estas qualificações se tornou Soberano do nosso Sistema de Satânia, à época com 607 mundos habitados, sendo o nosso planeta, Urântia, o de número 606. Ele seria um dirigente administrativo, ao lado dos Pais Altíssimos das Constelações, na linha direta de autoridade de Nébadon. Como um ser não ascendente é descrito na Quinta Revelação como “perfeito eram os teus caminhos, desde o dia em que foste criado, até que a falta de retidão fosse encontrada em ti” e completa: “o teu coração enalteceu-se por causa da tua beleza; tu corrompeste a tua sabedoria em vista do teu esplendor. De que modo tu caíste dos céus, ó Lúcifer, filho da manhã! Tu que ousaste confundir os mundos, como foste abatido!” Por vaidade e auto-admiração Lúcifer abraçou a oposição à lealdade universal, às obrigações fraternais e se tornou cego para as relações cósmicas, sendo apenas um dos três Soberanos de Sistemas que desrespeitaram o Filho Criador e que sucumbiram ao impulso do ego. Segundo estes textos, Lúcifer, Satã e o Diabo seriam seres diferentes. Satã seria o primeiro assistente de Lúcifer, também um Lanonandeque primário, que participou ativamente da insurreição de Lúcifer como interventor da causa rebelde em nosso planeta perante o nosso Príncipe Planetário Caligástia, um Lanonandeque secundário, também referenciado como Diabo. Durante o processo de insurreição, Mikael ainda não estava preparado para sua auto-outorga como Soberano de Nebadon e os três, Lúcifer, Satã e Caligástia se uniram para causar o fracasso da última missão dele como Jesus em nosso orbe. Mas a tentação no deserto se mostrou infrutífera, como sabemos pelos registros bíblicos. O governo de Lúcifer e Satã durou por cerca de quinhentos mil anos e teve no Soberano do Sistema o cerne intelectual das bases rebeldes, que, apesar da resistência, conseguiu corromper Satã, que por sua vez persuadiu Caligástia, culminando do desencaminhar de Abaddon, dirigente do corpo de assistentes de Caligástia e Belzebu, líder das criaturas intermediárias que se aliaram à rebelião. O Dragão se tornou uma representação simbólica para esta formação rebelde, cujos atos fizeram com que Gabriel se deslocasse de Salvigton para vir prender os líderes rebeldes.

Vídeo que detalha de modo ímpar a rebelião de Lúcifer sob uma ótica baseada no Livro de Urantia. 

Durante uma espécie de conclave, há cerca de duzentos mil anos, Satã proclamou que a adoração podia ser dedicada às forças universais, mas que a lealdade seria apenas dedicada ao governante atual do Sistema, Lúcifer, o “Deus da Liberdade”. Prometeu ainda aos príncipes planetários o governo supremo de seus planetas. Apesar de optarem pela não interferência na questão dos rebeldes de Nebadon, os Pais da Constelação confinaram a ação rebelde ao Sistema de Satânia, tornando a época em um verdadeiro caos, com as forças rebeldes agindo por quase duzentos mil anos sem interferência, mas sem extrapolar o Sistema. Com Michael às margens da guerra que se iniciava, muito por estar de dedicando ao processo de preparação para a soberania do Universo de Nebadon, Gabriel se tornou líder das hostes leais na guerra contra o Dragão. Aqui cabe a observação de que uma guerra nestes ambientes não se assemelham a conflitos armados que vemos em nosso planeta. No fim das contas, a rebelião corrompeu trinta e sete príncipes planetários, levando uma quantidade considerável de seres à sedição e tivemos como sucessor de Lúcifer, Lanaforge, que afastou todos os rebeldes de qualquer poder governante, mas permitindo que transitem em qualquer parte das esferas moronciais e circulando pelos mundo habitados, seduzindo e corrompendo as mentes dos anjos e dos homens. Tal concessão foi feita, pois à época não havia em Satânia uma autoridade que pudesse julgar o rebelde perverso, pois Michael ainda não se tornara um governante soberano. Hoje, Lúcifer aguarda julgamento e pode ser até mesmo extinto do Universo. Caligástia foi o responsável por tentar Adão e Eva no “Jardim do Éden” usando artimanhas mais sutis e menos ficcionais como a alegoria apresentada em Gênesis e Satã já se encontra julgado e preso. Do que já tive oportunidade de absorver do Livro de Urântia, este registro se mostra interessante além do nível acadêmico.

Lúcifer: A visão Espírita da Inexistência.

A doutrina espírita traz uma visão ainda mais interessante, e, por que não, inquietante da figura de Lúcifer, que depois da queda virou Satã (ou Satanás). Na primeira parte de O Céu e o Inferno ou A Justiça Divina Segundo o Espiritismo, um dos cânones da espiritismo assinado por Allan Kardec, nos deparamos com algumas questões lógicas quanto a figura de Lúcifer e o relato de sua rebelião:

Se Satã e os demônios eram anjos, eles eram perfeitos; como, sendo perfeitos, puderam falir a ponto de desconhecer a autoridade desse Deus, em cuja presença se encontravam? Ainda se tivessem logrado uma tal eminência gradualmente, depois de haver percorrido a escala da perfeição, poderíamos conceber um triste retrocesso; não, porém, do modo por que no-los apresentam, isto é, perfeitos de origem. A conclusão é esta: – Deus quis criar seres perfeitos, porquanto os favorecera com todos os dons, mas enganou-se: logo, segundo a Igreja, Deus não é infalível!

No Livro dos Espíritos, fica claro que os anjos seriam espíritos puros, se encontrando no mais alto grau da escala evolutiva do espírito, percorrendo todos os graus necessários para atingir a perfeição. O tempo para cada um atingir este topo evolutivo foi diferente e cada um de nós está na mesma jornada evolutiva. Como os ensinamentos da doutrina espírita nos dizem que não existe a possibilidade de involução, se fosse Lúcifer um ser que atingira o máximo grau evolutivo espiritual, não poderia ele ter sucumbido a sentimentos tão primais e distantes de um espírito iluminado e dotado da luz divina. Sendo assim, a figura de Lúcifer, como um ser perfeito que caiu pelo orgulho se torna incongruente na visão espírita. Sobraria então a ideia de uma figura já caída, denominada Satanás, como personificação do mal, sendo nada mais que uma alegoria para satisfazer a necessidade humana de figuras para impressionar sua imaginação, agregando a seres incorpóreos materializações inerentes às suas qualidades ou defeitos. Na visão espírita, seria incongruente imaginar um “ser mau a lutar, de potencia a potencia, com a Divindade, cuja única preocupação seria a de contrariar os seus desígnios.” No Evangelho Segundo o Espiritismo, fica claro que os demônios são almas perversas e que não se desligaram dos desejos e sentimentos materiais e, logicamente, Lúcifer, a figura moldada em nossa mente como o detentor e defensor de todo o mal, é a representação em uníssono deste conjunto de espiritos que se comprazem com o mal nos mais diversos níveis de evolução menor. A questão é mais delicada e envolve um arcabouço de evidências e argumentos lógicos sobra a existência de um portador do mal pelo ponto de vista do espiritismo. Como nossa discussão básica é direcionada à figura de Lúcifer, não vou me preocupar com os argumentos ali alicerçados. Mas então, se a figura de Lúcifer (ou Satanás, ou Diabo) não existe, quem teria tentado Jesus Cristo? Bom, segundo o livro A Gênese: Os Milagres e as Predições Segundo o Espiritismo, esta passagem do evangelho seria apenas mais uma parábola a nos ensinar sobre os perigos que corremos a não resistirmos à incansável voz que vem nos tentar com a corrupção de nosso espírito para a obtenção de louros materiais. Esta passagem ainda nos ensinaria a refutar tais tentações, pois quando Jesus diz “Retira-te Satanás“, deveríamos ler “Para trás  a tentação”.

Tentações de Cristo de Bottichelli. De acordo com a doutrina espírita, a figura de Lúcifer não poderia existir, desta forma, a passagem da tentação de Jesus seria mais uma parábola presente no evangelho.

 

Por Fim…

Não existem discussões quanto ao caráter interpretativo de cada viés estudado sobre o personagem Lúcifer. Hoje, muitos de nós nos prendemos ao que nos foi dito como verdade absoluta sem pensar melhor nas arestas e incongruências destas verdades que seguimos, pelo simples fato de que nos foi ensinado que discutir, analisar e questionar quesitos religiosos é errado e blasfemo. Desta forma, a maioria de nós prefere a “verdade” de outros do que a nossa “verdade”.  Nesta lógica, minha busca foi baseada nas diversas variações acerca deste personagem como um arquétipo presente nas mais diversas culturas e que, apesar de ser associado ao negativismo geral, tem como um de seus símbolos a serpente, sinal comumente associado à sabedoria em grande parte das culturas antigas e, em especial, no caduceu, um símbolo que traz a proteção dos mensageiros. Tentei ao máximo fugir das relações religiosas modernas, bem como das associações a linhas filosóficas como o luciferianismo, satanismo, dentre outros, por encarar alguns destes segmentos como derivações da apresentação cristã de Lúcifer ou variação religiosa de alguma ideia aqui apresentada já como variação de relatos históricos ou passagens mitológicas. A ideia neste texto era abrir outras possibilidade de interpretações que não são inerentes a estes pensamentos filosóficos que poderão ser abordados futuramente. O mais importante é se livrar de amarras dogmáticas e tentar analisar friamente as conexões, sem a preocupação de colocar a fé à prova, exercendo a inteligência do livre arbítrio para argumentar de modo coerente e solidamente embasado a sua conclusão, sempre respeitando que o outro assim também o fez e nada afirma que uma delas é superior. A minha só foi estabelecida após este estudo (e o pouco já estudado sobre satanismo nos anos rebeldes de curiosidade inconsequente), mas não quis embuti-la dentre estas mal traçadas linhas que tentaram sistematizar o fruto de alguns meses de satisfação depravada de minha curiosidade indecente.


Referências…

1. Ron Rhodes: Christianity According to the Bible.
2. O Livro de Urântia 
3. Bambaataa Dolo: The Genesis of the Bible.
4. Dante Alighieri: A Divina Comédia
5. John W. Milor: Aliens in the Bible
6. Brenda Mallon: Símbolos Místicos
7. Thomas Bulfinch: O Livro de Ouro da Mitologia
8. Zecharia Stchin: Havia Gigantes na Terra.
9. Alan Kardec: O Livro dos Espíritos
10. Alan Kardec: O Livro dos Mediuns
11. Alan Kardec: O Ceu e o Inferno
12. Alan Kardec: A Genese
13. Jonathan Black: A História Secreta do Mundo
14. Jeffrey Burton Russell: Lucifer: The Devil In The Middle Ages

Postagem escrita ao som de :
1. Speed, Glue & Shinki: Tiger Album (1972)
2. Samael: Eternal (1999)
3. Winger: In The Heart of The Young (1990)
4. Dorsal Atlântica: Musical Guide From Stellium (1992)
5. Samael: Reign of Light (2006)
6. Paradise Lost: In Requiem (2007)
7. Slayer: Diabolus In Musica (1998) 
8. Adrenaline Mob: Men Of Honor (2014)
9. Linds Perhacs: The Soul Of All Natural Things (2014)
10. Sun Ra: Ten Chosen Songs
11. Rubico Cross: Rubicon Cross (2014)
12. Cesar Camargo Mariano e Prisma: Ponte das Estrelas (1986)
13. Magna Carta: Seasons (1970)
14. Moonspell: Sin/Pecado (1998)

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