UMA BREVE HISTÓRIA LITERÁRIA DOS VAMPIROS

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Sem dúvidas a mais famosa espécie de ser noturno são os vampiros. Histórias envolvendo os seres que perambulam no limiar entre a vida e a morte já eram populares nas mais antigas culturas. Criaturas sedentas por sangue e aprisionados à noite eterna já se faziam presentes em obras de Homero, Apuleio (Asno de Ouro, século II) e nas Mil e Uma Noites.

Por volta de 600 a. C. na China, há registros de um temido demônio chamado Giangeshi (um espécie de cadáver reanimado, com roupas que remetem à Dinastia Qing) que, dentre outras proezas, caminha em saltos longos e sugava o “qi” (energia vital) de suas vítimas.

Este vampiro/zumbi oriental teria hábitos noturnos e repousaria em caixões ou em cavernas escuras. Outras entidades vampíricas (como o Katakhanoso, Baital, Upty, Upiory ou o Urykolaker) assombraram os povos babilônios, assírios, egípcios, romanos  e gregos, em lendas que surgiram sem a possibilidade de uma interinfluência entre estas regiões.  

Até no Peru, o Canchus ou Pumapmicos já sugava o sangue de jovens adormecidos em lendas pré-colombianas. Porém, o arquétipo vampiresco que conhecemos hoje tem suas bases na crença dos povos eslavos enraizados nos Balcãs.

Monges tibetanos que emigraram para a região da Transilvânia (Romênia) acabaram semeando as lendas que iriam evoluir, anos mais tarde, para a saga do Conde Drácula.

Em meados do século XVIII, a Grécia ainda registrava a presença do mito  nas culturas locais e na Idade Média, os vampiros foram ligados aos demônios femininos, formatando os primeiros passos para começar o ritual hediondo da queima de bruxas. 

7ff3e-vampiro11O amor que transcendia a morte cabia perfeitamente nos moldes da literatura gótica, fazendo dos vampiros um dos principais personagens deste segmento literário.

Alguns afirmavam que estes lendas eram fatos e pensadores do quilate de Voltaire e Diderot já defenderam a existência dos vampiros em nosso mundo real. O primeiro “vampirólogo” do mundo real foi o padre francês Dom Augustin Calmet, que compilou vários casos, supostamente reais, que serviram de base para muitos romancistas criarem suas fábulas sobre estes seres da noite. Já Rousseau afirmava que se havia algo certo no mundo era a existência dos vampiros.

Nas regiões da Eslávia e da Valáquia, existem rumores da existência de uma espécie de epidemia vampírica, que causou inúmeras mortes. Daí, para escritores habilidosos adaptarem estas lendas nos encadernados literários não tardou.

Casando perfeitamente como romantismo gótico, o tema foi recorrente neste segmento da literatura, despertando o interesse de poetas como Victor Hugo, Prosper Merrimée e Goethe, que escreveram os primeiros poemas vampíricos que se tem notícia. Então, foi no fim do século XVIII e início do século XIX que as lendas vampíricas evoluíram para a literatura.

O início da participação dos vampiros em romances se confunde com o princípio do que convencionou-se a rotular como literatura gótica, um ramo da literatura onde se enquadravam as histórias de horror e mistério e que desde o princípio se fizeram deveras populares.

Este sucesso se deve, em parte, ao apelo sexual que estas histórias traziam. Vampiros de classe social nobre, ou vampiras ninfetas lésbicas alimentavam o imaginário erótico dos leitores, tudo de acordo com o que a época permitia. 

Hoje em dia, o tema está um tanto banalizado com os vampiros perdendo seu encanto tradicional (seja pela crueldade, nobreza, paixão obsessiva ou mistério) e a maioria dos livros que são publicados com o tema são, em sua  maioria, descartáveis e oportunistas, com personagens sem personalidade e enredos fracos com forte apelo de literatura de banca de jornal.

A região dos Balcãs, em especial a Transylvania, é o berço do mito moderno do vampiro, largamente difundido pela literatura.

A história moderna da literatura vampírica é, em grande parte, escrita pela autora norte americana Anne Ricce, com dois clássicos isolados de Richard Matheson e Stephen King, além da revolucionária Trilogia da Escuridão, escrita pelos autores Chuck Hogan e Guilhermo Del Toro. 

No Brasil, o autor André Vianco vem batalhando pela continuidade da qualidade neste segmento literário, se destacando como um dos grandes escritores da atualidade em solo brasileiro. Pretendo, nas próximas linhas, delinear um histórico literário com as “sérias” narrativas vampíricas.

Não espere esbarrar com vampiros brilhando à luz do sol, parecendo vaga-lumes. Ou ainda, vampiros vegetarianos que não se deliciam com um belo banquete de sangue, como alguns autores modernos descrevem seus seres que não são mais noturnos e vão dormir – em camas e não em caixões – antes da meia noite. Ironias à parte, quero aqui fazer uma espécie de bibliografia básica da literatura vampírica.

É importante lembrar que descartei os livros relativos aos jogos de RPG, como o livro de NOD, e os livros de clãs, que são bastante interessantes, mas que não cabiam na proposta deste texto.

Pelo menos noventa por cento dos títulos citados foram publicados no Brasil, seja em coletâneas de contos ou antologias dos próprios autores. É interessante salientar que estes romances clássicos são diferentes, em sua essência, do que foi banalizado em novelas nacionais e séries internacionais, bem como a saga Crepúsculo, que como literatura de banca de jornal é acima da média, mas não tem espaço dentre estas obras clássicas cuja importância vai além do simples retorno comercial.

 

VAMPIROS: UMA BREVE HISTÓRIA LITERÁRIA

1819: Vathek, de Willian Beckford.
 

1819: O Vampiro, John Pollidori: O marco zero da litaratura vampírica. Polidori era médico e amigo pessoa de Lord Byron. A história nasceu de um desafio numa tarde de chuva torrencial, onde cada um dos convidados na casa de Byron escreveria uma história fantástica ou de fantasia. Nesta noite nasceram dois dos personagens mais famosos de toda cultura humana: Frankstein e o Vampiro. O conto foi adaptado por Charlie Nodier para o teatro francês e por Maschner para a ópera alemã e por anos  foi referenciado a Lord Byron, aumentando sua popularidade na Europa no início do século XIX.

1821: Vampirismo, de Ernest Theodore Hoffman.
 

1835: Viy, Nikolai Gógol: Nesta história um estudante que mata uma bruxa é forçado pelo pai da vítima a ficar de fronte seu caixão durante três noites sucessivas.

1835: Berenice, Edgar Allan Poe: Publicado na revista Southern Literary Messenger é uma das obras-primas do mestre indiscutível do conto de horror e mistério, Poe mistura vampirismo e  horror nesta obra clássica e precursora.

1836: A Morta Apaixonada, Théophile Gautier: Um homem de letras completo, Gautier foi crítico de arte e teatro, poeta e romancista. Em A Morta Apaixonada o autor escreve um clássico da literatura gótica e coloca a França no mapa vampírico. Com certeza um dos contos mais envolventes e geniais da pequena história da literatura vampírica. Uma história ousada para a época, traz o amor de uma cortesã, morta, desperta seu amado, um padre, para uma nova vida.

1841: A Família do Wurdulak, Alexei Tolstoi:  Primo do grande escritor russo Leon Tolstói, Alexei criou uma história baseada em lendas populares sobre uma família de vampiros, os wurdulaks. Mais uma vez a figura da bela mulher vampiro se faz presente dando uma tônica especial ao conto.Mario Brava, diretor de cinema italiano, filmou este conto como parte de sua película As Três Faces do Terror.

1841: O Vampiro, Alexei Tolstoi: Um romance vampiresco do escritor russo.

1847: Varney ou o Banquete de Sangue, James Malcom Rymer.

1848: A Dama do Rosto Pálido (The Pale-faced Lady), Alexandre Dumas.

 1860: O Estranho Misterioso, autor anônimo: Conto alemão publicado na revista Odds and Ends foi escrito por um autor desconhecido até hoje e tem em seu personagem principal com um modelo para os que vieram depois, inclusive o vampiro mais famoso de todos: O Conde Drácula. Um dos melhores contos de vampiros que já tive oportunidade de ler.

 

1864: Fantasmas, Ivan Turguniev:  Uma das histórias de vampiros mais espirituais que se tem notícia. A figura da vampira aparece novamente. Destaque para a lírica descrição das cavalgadas noturnas desta bela ser das trevas.

 1870: Vikram e o Vampiro, Richard Francis Burton.

Carmilla, uma das primeiras vampiras lésbicas  da literatura. O conto foi declaradamente uma influência  para Bram Stocker criar seu Drácula.

 

1872: Carmilla, Sheridan Le Fannu: Um dos mais famosos contos de vampiros da literatura. Aqui nasce a vampira lésbica e muito do ambiente vampírico que irá abrigar as futuras obras do vampirismo literário, espalhando sua influência em toda literatura gótica. O interessante é que até Bram Stocker admitiu a influência desta peça na criação de sua obra máxima.

Confira nossa resenha especial para o conto “Carmilla”, de Sheridan Le Fannu, aqui… 

1891: Criaturas da Noite, Fergus Hume.
1894: O Desabrochar da Estranha Orquídea(The Flowering of the Strange Orchild), H.G. Wells .
1897: Drácula, Bram Stocker: Resultado de sete anos de dedicação à história, Drácula elevou o nome do irlandês Bram Stocker ao rol dos grandes escritores da literatura mundial. O romance é baseado nas lendas e crenças nos vampiros que existiam na região da Transilvânia. Stocker também se inspirou no príncipe da Valáquia Vlad Tepes Dracul que viveu no século XV, foi um tirano e guerreiro cruel. Esta mistura deu origem ao demoníaco personagem Drácula. No geral, o livro é um romance que envolve terror. Outro vampiro muito famoso foi originado por esta obra . A primeira adaptação do livro para o cinema não foi autorizada por quem detinha os direitos autorais da obra fazendo com que os produtores renomeassem o vampiro que figurava no centro da história, nascia o famoso  vampiro Nosferatu.

Drácula, sem dúvidas, é o vampiro mais popular de toda a cultura pop.
1911: Porque o Sangue é vida, Francis Marion Crawford: Nascido na Itália, mas erradicado nos EUA, Crawford dirigiu um jornal na Índia e ficou relativamente famoso postumamente quando publicada a compilação de contos Wandering Ghosts em 1911, antologia esta, que continha esta história. 
 
1911: A Tranferência, Algernon Blackwood: Uma das melhores histórias de vampiros do século XX, Blackwood foi um dos maiores escritores do gênero horror e sobrenatural. A primeira vez em que aparece um vampiro não-humano, em que a energia psíquica, e não o sangue, é que desenrola a trama. Nas palavras do mestre maior H. P. Lovecraft: “Inquestionavelmente o único mestre absoluto da atmosfera sobrenatural”.  
 
1912: O Quarto na Torre, Edward Frederic Benson: Nascido em 1867, Benson publicou este conto na antologia The Room in the Tower and Other Stories. Foi biógrafo da Rainha Vitória, e contista com tendencias para ficção científica e literatura de horror. Com certeza este é um dos clássicos do gênero em questão.
 
1917: O Vampiro, Horácio Quiroga: O primeiro conto do gênero escrito por um autor latino-americano.
 
1919: Conde Magnus, Montague Rhodes James:  O primeiro vampiro com uma dieta que não é baseada no banquete de sangue, mas este vampiro se você deixar irá sugar a sua vida.

1924: A Vampira de Sussex, Sir Arthur Conan Doyle: Desta vez traz uma personagem peruana, que o marido crê ser uma vampira após flagrá-la debruçada sobre o berço do filho com sangue nos lábios. Há alguns elementos góticos no conto, mas a solução é bem prosaica e nada sobrenatural.

1930: A Lua das Caveiras (The Moon of Skulls), Robert E. Howard.

1964: Eu Sou A Lenda, Richard Matheson:  Autor muito conhecido pelos fãs da ficção científica, Matheson croiu um universo novo nas histórias de vampiros. Neste clássico moderno do vampirismo Robert Neville é um homem , o último homem vivo, num planeta Terra onde cada homem, mulher ou criança se tornou vampiro. Quanto tempo um homem pode sobreviver num mundo destes? Um clássico absoluto!

1975: A Hora do Vampiro: Stephen king. Nesta obra, o mestre do terror americano tenta recriar um Drácula moderno baseado na maldiçção de Salem’s Lot e consegue compor um livro cujo suspense quase hipnótico evolui para um clímax de terror clássico.

1976: Vampiros do Espaço: Colin Wilson. Aqui se dá a fusão do vampirismo com a ficção científica. Onde a nos vampiros estra-terrenos sugam a força vital de nós seres humanos. Um dos clássicos da literatura vampiresca moderna.

Confira nossa resenha especial para o livro “Vampiros do Espaço”, de Colin Wilson, aqui
1976: Entrevista com o Vampiro: Anne Rice. O último grande clássico da literatura vampiresca, este romance apresenta Anne Ricce ao mundo. O vampiro Lestat é a figura do vampiro clássico, um ser da noite, sem piedade e sedento por sangue.

1985: O Vampiro Lestat: Anne Ricce. Segundo volume das Crônicas Vampirescas, este volume nos conta a história de Lestat, o maior nome da literatura vampírica do século XX. 

1988: A Rainha dos Condenados: Anne Rice. Continuando suas Crônicas Vampirescas, este terceiro volume nos apresenta uma interessante versão da origem dos vampiros e tempero roqueiro. 

1992: A História do Ladrão de Corpos: Anne Rice. Onde o vampiro Lestat se vê em um corpo mortal novamente. 

2004: Deixa Ela Entrar:  John Ajvide Lindqvist. Um marco moderno na literatura vampírica, onde a megalomania do vampiro clássico é deixada de lado e temas pouco usuais aos gênero, como bullying, servidão e dependência química, são incorporados. As locações comuns ao cotidiano nos fazem pensar que esta história podia acontecer com qualquer um de nós.

2009: A Trilogia da Escuridão – Noturno: Chuck Hogan e Guilhermo Del Toro. 

2010: A Trilogia da Escuridão – A Queda: Chuck Hogan e Guilhermo Del Toro. 

2011: A Trilogia da Escuridão – Noite Eterna: Chuck Hogan e Guilhermo Del Toro. 
Confira nosso texto especial sobre “A Trilogia da Escuridão”, de Chuck Hogan e Guilhermo Del Toro, aqui
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5 comentários Adicione o seu

  1. bas ketball disse:

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