Nossas Músicas Nunca Foram Tão Ruins, parte 2: A Culpa é Sua!

 Mais Desabafos e Reflexões Acerca da Atual Cena Musical Brasileira

 

Neste início de ano, qualquer um que não viva numa bolha ou alheio às redes sociais, tomou conhecimento da dupla sertaneja que justificou sua baixa qualidade musical com falhas técnicas da Rede Globo. O acontecimento se deu num programa matinal onde vários artistas se apresentaram e nenhum deles ofereceu qualquer suspeita quanto ao nível técnico do setor de áudio da emissora. Claro, problemas acontecem até mesmo com as melhores famílias! Pois bem! Passados alguns dias, novamente, a mesma dupla sertaneja teve outro vídeo veiculado nas redes sociais onde os mesmos “problemas de áudio” ocorreram. Não é necessário ser um músico para notar que os dois rapazes, apesar de esforçados, desejosos e dedicados, não possuem o talento para ocupar o espaço que lhes foi dado.

Quando digo talento, englobo não somente domínio da técnica musical, mas outras especialidades que lhes são fugidias. Por exemplo, o Sex Pistols (para saber nossa visão sobre a banda, clique aqui) não pode ser comparado em técnica e genialidade musical com Bach (para saber mais, clique aqui). Todavia, o quarteto britânico estendeu seus tentáculos de influência por toda uma parcela da música moderna. Eles, apesar de toda a baixa qualidade que lhes eram peculiares, tinham algo original e de talento a oferecer! Sem querer entrar no mérito dos nomes brasileiros de extrema qualidade musical que estão à margem dos veículos de comunicação e divulgação, pergunte-se de quem é a culpa destes dois artistas estarem lá, na Rede Globo, expondo toda a baixa qualidade de sua arte?

De quem é a culpa de sermos alvejados impiedosamente por músicas de baixa qualidade cotidianamente?  

Não! O dinheiro de quem paga para que eles estejam lá não é culpado! Também não aponte para a empresa que aceita o “jabá”! A culpa é SUA,  que reclama da qualidade musical, mas aceita assistir o programa televisivo mesmo assim, ajudando a elevar o nível de audiência e, consequentemente, atraindo mais nomes de qualidade similar para a grade de programação da emissora. Quando se der conta, você já estará apreciando em regozijo o arremedo musical que estão financiando.  Muitas vezes, a nossa apreciação se dá até mesmo pela imagem do artista que nos chama a atenção por projetar aquilo que queríamos para nós mesmos. O que não percebemos é que a maioria destes nomes possuem imagem elaborada justamente para satisfazer o nosso apelo e moldadas para encobrir a falta de qualidade musical. Esta tática é velha e funciona no nosso país desde que a música ganhou imagem via televisão, antes mesmo da Jovem Guarda. Não bastava mais ter apenas talento, imagem também passaria a ser importante.

O “funk” carioca é um exemplo atual. Com empresas que funcionam como linhas de montagem de novos nomes, onde a preparação de um novo “artista” pode demorar até mesmo um ano, o estilo investe na exposição em massa de imagem em detrimento da música (algumas canções de um mesmo artista são a mesma música, com andamentos trocados ou tempos modificados). O próximo passo é investir em um clipe de impacto, com investimento financeiro alto, que sairá mais barato do que a gravação de um álbum completo (lembre-se que o artista em questão não é um compositor e seus fãs não estão interessados em pagar pela música) e que poderá ser divulgado no Youtube de modo maciço. Para alavancar os compartilhamentos e, consequentemente, o “sucesso” (entre aspas, pois um milhão de acessos não significa que a mesma quantidade de pessoas assistiu e aprovou sua música), investem em um discurso simples, carregado de gírias jovens e rimas pueris. Mesmo com o tapa de alta produção e investimento financeiro dado atualmente em nomes como Anitta e Naldo, a qualidade musical continua precária e eles só fazem sucesso por sua causa! Sim, você que absorve esta música como forma de estar alinhado com a maioria.

A qualidade musical continua precária por sua causa! Sim, você que absorve esta música como forma de estar alinhado com a maioria. Você que tira de sua sacola de argumentos aquele discurso clássico: “…eu não gosto deste tipo de música, mas quando está com a galera é legal!”

Não existe nenhum problema de estilos musicais como sertanejo, funk ou axé fazerem sucesso, se este se der por mérito da música e não de um empresário que desembolsa aproximadamente vinte mil reais para que seu artista esteja presente nas rádio e na televisão. Neste momento você irá sacar de sua sacola de argumentos aquele discurso clássico: “…eu não gosto deste tipo de música, mas quando está com a galera é legal!”. Pois então, cada vez que entoa este mantra, além de você assinar o atestado de sapiência da pobreza daquele tipo de música, ainda mostra que engana a si mesmo facilmente e, quiçá, periodicamente, simplesmente para seguir o fluxo. Além do mais, verifique se existem outras pessoas no carro quando você iniciar aquela playlist que só tem música “da galera”. Neste momento, se dará conta de que está apreciando algo de baixa qualidade pela simples exposição exagerada a ela. Uma mentira, contada várias vezes, virou uma verdade pra você que vai aceitar passivamente que lhe coloquem ouvido a dentro fast food musicais, engordando seu desprezo por quem realmente faz música nestas terras verde-amarelas. Desta forma, você não percebe que sua atitude está contribuindo fortemente para o declínio da qualidade musical no Brasil.

Ao seu lado, outro culpado que se sente inocente irá proferir um clássico da argumentação sobre “música boa”: “…música boa é a do passado!”. Sim. Existem músicas ótimas no passado, assim como existem obras de qualidade discutível. Ou você acha que só pela passagem do tempo Freak Le Bom Bom, da Gretchen, virou uma obra prima? Não meu caro! Com esta ideia de que não existe nada de novo e interessante no mundo musical, você se torna tão culpado quanto aqueles que aplaudem a pobreza da música nacional atual, pois esta conclusão é apenas um corolário da sua preguiça inerente em pesquisar novos nomes, se relegando apenas a maldizer as novidades que lhes são apresentadas, sem fazer um mínimo esforço para descobrir e apoiar novos nomes de qualidade. Hoje em dia, a informação é rápida e as opções vastas para quem quer experienciar novos paladares musicais. Basta se desvencilhar da televisão e do rádio e com cinco minutos diários você irá se espantar com a quantidade de novidades sensacionais que vais encontrar. Portanto, o senhor que vive de passado musical também é culpado. E quando pensar que “A música hoje está tão ruim que até as porcarias de antigamente ficaram boas”, saiba que, na verdade, seu nivelamento musical é foi rebaixado!

Outro culpado que se sente inocente irá proferir um clássico da argumentação sobre “música boa”: “…música boa é a do passado!” Esta conclusão é apenas um corolário da sua preguiça inerente em pesquisar novidades, sem fazer um mínimo esforço para descobrir e apoiar novos nomes de qualidade.

Próximo da fila! Claro, você que acompanha todos os lançamentos, lista ao menos cinquenta bons nomes da música que surgiram no último ano e se vangloriar das músicas que baixa gratuitamente. Saiba que a culpa é sua também! Sim, pois se o artista que você gosta não tem retorno com a sua arte como ele irá custear, sem o apoio dos veículos de comunicação (lembra-se que eles já estão comprados pelos empresários dos artistas de qualidade duvidosa?), a divulgação do seu trabalho? Alem do mais, o artista é um trabalhador como qualquer outro e deve ser remunerado, sendo obrigação nossa e não merecimento dele ser pago pela sua arte. Já até sei qual sentença está ecoando em sua mente. Esta também e clássica. “Poxa, os artistas ganham com o show e arte deve ser gratuita e de acesso a todos”. Este é um argumento torpe, quase cafajeste de quem quer justificar o roubo e a exploração do trabalho de outra pessoa. Você não é pago só pela mão de obra, é? Comece a pagar pela música que você gosta, mesmo que seja pela assinatura dos discutíveis serviços de streaming.

Não me esqueci do último culpado. Você talvez seja um fruto daqueles se vangloriam apenas com a música do passado, pois prefere assistir a mesma banda cover de seu artista favorito pela quarta vez em um mês ao invés de pagar apenas uma vez pra prestigiar uma banda autoral. Sim! Você talvez seja um dos maiores culpados. Por sua absorção incondicional deste tipo de atração, as pequenas casas de shows que poderiam servir de espaço para o criadouro de novos nomes da música nacional, são apenas repetidores de sucessos antigos mal executados por músicos que tinham um sonho de seguir com suas próprias canções. Porém, sempre que encaixam sua composição nos seus set de covers vê a platéia indo para a fila buscar mais uma cerveja. Lembre-se de que sua banda favorita, que hoje em dia você aprecia em versão cover, não teria espaço quando começou se todo mundo só quisesse assistir um cover do Elvis e outro cover dos Beatles. Para deixar registrado, sem sombra de dúvidas, a culpa não é da banda cover, é sua que a financia!

Não no esqueçamos do último culpado, que prefere assistir a mesma banda cover de seu artista favorito pela quarta vez este mês ao invés de pagar apenas uma vez pra prestigiar uma banda autoral. Para deixar registrado sem sombra de dúvidas, a culpa não é da banda cover, é sua que a financia! 

Todavia, não se incomode com os meus desabafos e guarde o seu argumento que termina com a palavra recalque. Seja consciente ao menos uma vez e raciocine sobre o que foi apontado. Principalmente se algum dos culpados enumerado incomodou-lhe a alma, tornando-lhe iracundo em seu íntimo. Se és um fã de música, certamente se encaixou em algum dos culpados acima, fazendo-nos perceber que a situação da música atual é ruim para quem se apega apenas ao mainstream. E ela assim se encontra por NOSSA culpa! Faça sua parte: 1) pesquisando mais e dependendo menos do rádio ou da Tv; 2) começando a pagar pela música que você gosta; 3) trocando o décimo show da mesma banda cover pelo show de uma banda autoral. Se queremos mudar o panorama devemos começar a repensar o valor que damos à arte produzida em solo verde-amarelo. Valorizar nossa música, nosso cinema e não deixar ninguém lhe dizer o que deve ou não ver ou ouvir.

Para acessar a primeira parte do desabafo, clique aqui.

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3 comentários Adicione o seu

  1. Diego Camargo disse:

    Fazia um tempo que eu não lia um bom texto sobre o tema!

    Valeu Marcelo, belo texto que eu praticamente assino embaixo.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Obrigado pelo comentário! Esse texto foi apenas parte de um desabafo… Fico feliz que tenha gostado. Volte sempre ao blog!

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      1. Diego Camargo disse:

        Vou voltar sim Marcelo! Já estou seguindo ele através do WordPress 🙂

        Outro ponto que eu colocaria no teu texto e que eu nunca entendo também.

        O cara que não suporta Funk (ou qualquer outra coisa), mas que ao receber o link do vídeo do Youtube clica e assiste (pra ver as gostosas) ou ‘pra ver se era ruim mesmo’.

        Resultado, o vídeo com milhões de views e a culpa é de quem?… Sua!

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