HQ: Soldado Desconhecido, de Garth Ennis e Kilian Plunkett

“Porque um homem no lugar certo, na hora certa, faz a diferença. E vence a guerra.”

Soldado Desconhecido.

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Soldado Desconhecido. Capa da primeira parte, publicada no Brasil pela editora Metal Pesado, em dezembro de 1997.

Um dos trabalhos menos conhecidos de Garth Ennis, Soldado Desconhecido funciona como uma short storie elegante em meio a seus clássicos. Filho dos anos 1970, o irlandês Grath Ennis acumula êxitos, seja em títulos originais ou trabalhando com personagens concebidos por outras mentes. São exemplos indiscutíveis destas duas facetas de suas carreira o clássico arco Hábitos Perigosos, em Hellblazer, marcante e cultuado pelos fãs do mago John Constantine, bem como a aclamada séries Preacher, um verdadeiro marco dos quadrinhos nos anos 1990. Todavia, a obra de Ennis é muito rica, indo muito além destes exemplos.

Escrita na segunda metade dos anos noventa, apenas alguns anos antes do roteirista se dirigir para a Marvel com a proposta de carta branca para trabalhar com o Justiceiro, ele publicou esta pequena saga, em quatro partes, com roteiro salpicado de referências da cultura pop, de arte  densa e carregada que se encaixa perfeitamente na misteriosa conspiração de motivos militares em que se baseia a trama.

Uma tradição nascida no Reino Unido após a I Guerra Mundial, o Túmulo do Soldado Desconhecido é um monumento erigido em prol de homenagear  e honrar os soldados que morreram em tempos de guerra, sem que houvessem identificações de seus corpos. O túmulo é simbólico aos soldados desconhecidos que pereceram no anonimato. Talvez o mais conhecido destes esteja no Cemitério Nacional de Arlington , nos Estados Unidos, um cemitério militar, onde está, por exemplo, o corpo do presidente Kennedy. Como plano de fundo, este cemitério ambienta o início da saga engendrada por Ennis como um thriller carregado de mistério, espionagem, conspirações, segredos de guerra e sangue. Muito sangue! O roteiro pode soar datado aos padrões de hoje e até mesmo previsível, todavia, se contextualizarmos a época em foi realizada a obra esta impressão é atenuada, se tornando um belo exercício de lógica e, principalmente, uma pertinente discussão da postura politico-militar norte-americana .

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Soldado Desconhecido. Capa da segunda parte, publicada no Brasil pela editora Metal Pesado, em fevereiro de 1998.

O enredo segue o agente solitário da CIA, William Clyde, que, após receber uma lista relativa a uma investigação com um nome desconhecido, navega em um campo minado de segredos sujos e operações militares nebulosas. Sua investigação circunda um personagem singular, um lendário agente do Exército Americano, conhecido apenas como o Soldado Desconhecido. Este agente estaria presente em momentos decisivos dos conflitos militares norte-americanos, ao longo da segunda metade do século XX. Dotado de habilidades extraordinárias e alto poder de persuasão, todas as suas operações parem seguir em segredo de Estado, tendo passado por todas as grandes investidas militares desde 1942, com eficiência implacável e desprovido de remorso.

Devemos enaltecer a forma como Ennis costurou sua trama, dividindo de modo claro em suas partes, elementos de espionagem, investigação, mistério, ação e conspiração. A forma como constrói os diálogos e a metalinguagem utilizada para a consciência de Clyde tornam a obra mais adulta e menos descartável. O diálogo final no cemitério de Arlington, dentro de uma cova exumada manualmente é cheia de um discurso ácido, politicamente desconfortante e frágeis justificativas para a maneira como os E.U.A. conduziam suas investidas militares. O final não será mais novidade nos dias de hoje, mas creio que em meados dos anos noventa, a versão alternativa para o fim da II Guerra mundial e a participação americana neste desfecho soaram quase ultrajantes.

A trama de Garth Ennis é quase uma reformulação de um clássico personagem dos quadrinhos de guerra, criado em 1966, por Robert Kanigher e Joe Kubert, estreando no número 168 da revista Our Army At War. O personagem ganhou sua própria série, onde descobrimos que Eddy Ray era um soldado norte-americano na Guerra do Pacífico, após o ataque em Pearl Harbor, que servira junto ao irmão, Harry. Desmotivado pelo menor número em que se encontravam, é Harry quem o retoma à batalha entoando o mantra que perseguirá Eddy: “um homem certo no lugar certo pode fazer a diferença na guerra”. Juntos colocam o discurso em prática até que um ataque fatal vitimiza Harry e desfigura Eddy. Este é o gatilho para que Eddy candidate-se em uma nova proposta da CIA, tendo sua identidade apagada e se tornando o Soldado Desconhecido após um vertiginoso treinamento. A versão de Ennis é bem mais obscura e sombria, condição esta amplificada pelos traços de Plunkett e cores de James Sinclair, que possuem uma variabilidade sutil de traços dentro da arte, dando o clima correto para cada elemento que deve ser destacado dentro da trama.

Soldado Desconhecido.. Unknown Soldier Garth Ennis

Entre a saga inicial e a reformulação de Garth Ennis, o Soldado Desconhecido ainda experimentou uma segunda série, publicada entre 1988 e 1989, trazendo uma abordagem muito diferente da original, decepcionando os fãs do personagem, ao colocá-lo como um imortal (algo corrigido na versão de Ennis) e de personalidade nada patriótica. Além destas, tivemos uma nova série para o Soldado Desconhecido via selo Vertigo, roteirizada por Joshua Dysart, em 2008, com uma proximidade maior ao personagem original. Um detalhe interessante deste abordagem é que o Soldado Desconhecido parece sair da já citada Tumba do Soldado Desconhecido, localizada no Cemitério de Arlington.

Apesar de não ser tão conhecido pela temáticaa de guerra, Garth Ennis o tem como recorrente em sua obra. Além de Soldado Desconhecido, dentre as tramas mais conhecidas em que ele emprestou sua criatividade estão a série especial denominada Histórias de Guerra e  Nascido Para Matar, que tem Frank Castle antes de se tornar o Justiceiro. No Brasil, a saga de Garth Ennis foi publicada em duas edições, entre dezembro de 1997 e fevereiro de 1998, nas edições n° 08 e n° 11, da revista DC Vertigo, via Editora Metal Pesado.

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