5 PERGUNTAS: Marcos Peres

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Marcos-PeresMarcos Peres é paranaense, formado em direito e já lançou dois livros indicadíssimos (O Evangelho Segundo Hitler e Que Fim Levou Juliana Klein?), desfilando um estilo clássico, onde as curvas sinuosas da montanha russa de informações são construídas por complexos e intricados grafos multi-referenciais. Suas histórias nos guiam por perigosas transmutações dos clichês literários e arranjos narrativos cercados pelo precipício do ridículo, que irão convergir de modo magistral em obras inteligentes e audaciosas, oxigenando a literatura nacional moderna. Com a destreza de poucos, consegue se valer de elementos que atrai leitores em busca de entretenimento, tanto quanto fisga aqueles que se comprazem da alta literatura. Desta forma, tenho o prazer de iniciar a nossa nova seção de pequenas entrevistas com ele, Marcos Peres, que se mostrou extremamente solicito e atencioso em responder nossas cinco perguntas, além de nos fornecer indícios do que virá em suas próximas obras.

1) Sua literatura é muito original e de muita identidade, sendo complicado traçar paralelos de influências. Acredito que, obviamente, Jorge L. Borges seja um de seus inspiradores, mas não consigo ir muito além dele nas minhas observações. Sendo assim, quais seriam suas principais influências como escritor?

Marcos Peres: Sou fã de Umberto Eco, Borges, Garcia Márquez, Llosa, Murakami, Mia Couto, Cortázar, Flaubert, Dostoievski, Saramago, Lobo Antunes. Dos brasileiros, gosto muito de Guimarães Rosa, Machado, Autran Dourado, Domingos Pelegrini, Rubem Fonseca, Dalton Trevisan, Milton Hatoum. São todos mestres. Dou esta resposta como leitor e não como autor. Sou grato a todos estes escritores. Todos, de alguma maneira, auxiliaram-me a conhecer um pouco de literatura.

2) Em seu primeiro livro, “O Evangelho Segundo Hitler”, existe uma intricada rede de ligações entre sociedades secretas, literatura clássica, ocultismo e história, enquanto sua segunda obra, “Que Fim Levou Juliana Klein?”, trata de alta filosofia, argumentação acadêmica e múltiplas referências. Como funciona o seu processo de pesquisa para alicerçar seus livros e qual sua lógica para costurar estes elementos diversos em suas tramas de modo tão conciso?

Marcos Peres: O Evangelho nasceu como brincadeira ao conto 3 versões de Judas, de Borges. Decidi focar o tema do duplo por ser uma constante na literatura borgiana e também porque, na minha trama, eu falaria de coisas sagradas e profanas – com o intuito de criar uma teoria conspiratória. Em determinado ponto do livro, aceito que utilizarei o nazismo e Hitler – portanto, ao contrário do que pensam, não foi um proposito inicial falar de nazistas. 

Por tudo isso, minha pesquisa foi parcial, não criteriosa. Deliberadamente, refutei os fatos que não me eram interessantes e ressaltei os que me eram convenientes. Esta é a regra geral para criar uma teoria conspiratória: ser um escritor-advogado, ressaltando o que lhe convém, passando por cima do que lhe é danoso. Não é uma fórmula nova, não se trata de nada original: Umberto Eco a usou em seu Pêndulo de Foucault – e muitos outros, antes dele, já haviam usado.

Em Juliana Klein, o processo foi distinto porque o livro assim pedia: para escrever um policial, revisitei as regras gerais do romance policial. As pistas falsas, a observância para não trapacear os leitores, a tentativa de manter o suspense até o final. 

A filosofia acaba entrando na história e estudei um pouco de Nietzsche para criar o argumento do suspense. Mas não quis que essa filosofia ficasse muito demorada. Tentei intercalar ação com trechos curtos de filosofia para deixar o texto mais fluído. Sinto que o Evangelho, em determinados pontos, ficou professoral demais – porque a formação da teoria conspiratória assim exigia.

Em Juliana, tentei intercalar pensamento e ação com mais velocidade.

3) Apesar de toda a miríade de referências que compõe suas obras, seus dois livros  discorrem sobre os sentimentos humanos e suas consequências. Neste contexto, seus personagens são os pilares de suas tramas, sendo a construção dos mesmos uma arte que você domina muito bem. Explique um pouco sobre este processo de criação e como molda seus personagens. Eles evoluem junto com a história, ou já possuem uma trajetória pré-estabelecida que só precisará ser detalhada?

Marcos Peres: O Evangelho trata basicamente da crença em teorias sedutoras. É mais reconfortante acreditar em planos metafísicos, em teorias estapafúrdias do que acreditar na força do acaso. É, em último momento, uma crítica ao não pensar, ao comprar tudo o que nos é colocado, dia a dia. Em tempos de facebook, com tantos factoides criados, é um convite para pensar criticamente sobre aquilo que lemos.

Em Juliana, conto a história de uma crença levada ao extremo. Todo pensamento, religioso, político ou filosófico, levado ao extremo, sem ponderações, é danoso. O livro trata de uma crença fervorosa. Que é levada ao seu cabo.

Ao contrário dos temas – que nascem, em sua maioria, de leituras – os personagens nascem de pessoas reais, de “se pegar”. Claro que não há um correspondente exato para o Irineu nem a Juliana é cópia de uma Juliana vivente. Mas, certamente, pego detalhes, trejeitos, modos de falar, de olhar. A realidade é muito rica, é um terreno muito fértil para a ficção. Basta saber observá-la. Aprendi isso com Ignácio de Loyola Brandão há alguns bons anos: eu estava, então, na plateia. Era apenas um espectador, maravilhado. Ignácio discorreu sobre como o autor deve ser, antes de tudo, um sujeito atento para o que acontece ao seu redor. Ano passado, tive a oportunidade de dividir o microfone com ele em um evento literário. No fim do evento, ele me deu uma agenda e disse: “nunca se afaste dela. Isso vai te ajudar a registrar a realidade. Desejo sorte”

Desde então, esta pequena agenda está ao meu lado. Nela, há o esboço da gênese de companheiros de Irineu nos futuros livros. Isso é literatura.  

4) Podemos perceber no livro “Que Fim Levou Juliana Klein?”, uma descrição minuciosa dos ambientes e certo toque de cinema noir nas aclimatações. O quanto o cinema influencia nas composições de suas obras, personagens e tramas? Pergunto isso, pois tenho a impressão de que Irineu de Freitas foi pinçado num filme típico dos anos 1980.

Marcos Peres: Não sou um especialista no noir. Gosto, claro, mas me sinto apenas como um leitor grato – e não um discípulo dos mestres do noir. Penso que Juliana Klein bebeu mais da literatura do que do cinema: dos escritos, cito o inspetor Kurt Wallander, de Henning Mankell, Padre Brown de Chesterton e Don Isidro de Borges & Bioy Casares. Gosto muito do clima fantasmagórico e noir dos livros de Patrick Modiano, apesar dele não ser um autor policial, stricto senso. Sobretudo, preciso citar um conto de Rubem Fonseca, que mudou minha concepção como leitor e meu gosto pelo noir: ‘Romance negro’. Este conto é uma verdadeira aula do gênero. Para ser lido de joelhos. 

Mas fiquei curioso pela referência cinematográfica. Faço a réplica, então. Qual é sua impressão?

Gaveta de Bagunças: Digamos que nossa impressão se baseia numa versão noir e moderna de filmes como O Falcão Maltês, onde trocamos Humphrey Bogart por Jean Reno para interpretar Irineu de Freitas.  

5) Você se mostrou como um dos autores mais corajosos e instigantes de sua geração, guiando suas narrativas por um terreno complexo e flertando com absurdos, gerando muita curiosidade em qual será o seu próximo passo. Poderia dividir conosco quais são os seus planos futuros? Gabriela Klein retornará para jogar um pouco mais de luz ao mistério dos Klein?

Marcos Peres: Fico, primeiramente, honrado e feliz com a colocação sobre meus livros. Sinto vontade de flertar com outros temas (e, na minha cabeça, tenho a ideia de criar outro livro sobre teorias conspiratórias, envolvendo um artista brasileiro. Uma teoria conspiratória envolvendo o período da ditadura). Porém, sinto que preciso fechar um ciclo com Irineu de Freitas. Que fim levou Juliana Klein? não é sua primeira desventura nem a última. Tenho, em minha cabeça, a origem e o fim da carreira de delegado do personagem.

Em Juliana, menciono coisas sobre o passado Irineu, além de deixar uma lacuna em seu futuro. Meu objetivo é preencher estas lacunas – em mais 3 ou 4 livros, acredito. Não posso dizer muito, mas, se fosse apostar, diria que Gabriela Klein volta: mais velha, talvez ainda atormentada, quiçá elucidativa. Outra coisa que apostaria: o próximo livro contará uma história anterior aos mistérios de Juliana em Curitiba. Em QFLJK?, menciono sobre o casamento e problemas com álcool do delegado. No próximo romance, acredito que este passado será revisitado. É esperar para ver. Ou, melhor, para ler.  

Gaveta de Bagunças: Para finalizar, fique à vontade para pontuar algo que queira mencionar fora das perguntas acima.

Marcos Peres: Agradeço ao espaço e a todos os comentários elogiosos. Deixo, registrado, que sou um fã do blog. E muito feliz de poder participar dele.

 

MARCOS PERES INDICA:

3 BONS LIVROS 

Exército furioso, de Fred Vargas. Um policial marcado por elementos sobrenaturais. Um grande romance.

Tirza, de Arnon Grunberg.  fenômeno holandês na literatura. Uma verdadeira aula na condução da trama. Indicado para leitores e escritores.

Norwegian Wood, de Haruki Murakami. Referência explicita a uma canção dos Beatles. Com muitas referências musicais (inclusive com músicas brasileiras de Tom Jobim), Murakami propõe uma trama triste e envolvente.

1 LIVRO QUE NÃO EMPOLGOU:

Carol, de Patricia Highsmitt.

2 BONS FILMES:

Citarei o argentino Relatos Selvagens pelo esplendoroso roteiro. E A pele de vênus de Polanski.

1 FILME DISPENSÁVEL:

Amor nos tempos de Cólera porque é injusto competir com o romance.

 

Você pode adquirir os livros do autor clicando nas capas abaixo:

O Evangelho Segundo Hitler
Marcos Peres, O Evangelho Segundo Hitler
Que Fim Levou Juliana Klein?
Marcos Peres, Que Fim Levou Juliana Klein?

 

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4 comentários Adicione o seu

  1. Eu li o livro Que fim levou Juliana Klein? e me encantei pela escrita de Marcos Peres, tinha algumas perguntas para o autor e essa entrevista sanou minhas dúvidas e despertou ainda mais o meu interesse pela obra O evangelho segundo Hitler. Excelentes perguntas!
    Abraços.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Obrigado pelo elogio e pelo feedback! As duas obras do Marcos são sensacionais e temos uma resenha detalhada para seus dois livros, linkadas acima… Abraços e volte sempre…

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