YAKUZA: A Máfia Oriental!

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Em dado momento, durante a segunda temporada da série Demolidor, vemos um dos vilões em seu luxuoso e privativo escritório que, após ser roubado de sua lista de corrupções, abre uma ornamentada caixa de madeira onde, sobre veludo macio e escuro, descansam alguns dedos. Sim! Dedos humanos! Passado o susto inicial, nosso raciocínio nos leva a aceitar tal cena se pensarmos que o Tentáculo, grupo ao qual pertence o dono da caixa de dedos, seria um braço, ou um clã, da Yakuza, que pratica o tradicional ritual do Yubitsume, um ritual punitivo de automutilação, muito comum entre os membros da organização criminosa japonesa! Confesso que esta cena foi a mola propulsora para a elaboração desta postagem de hoje, sendo nosso objetivo traçar, mesmo que superficialmente, um panorama da Yakuza, a máfia japonesa. 

Solidificada como a mais temida organização criminosa do oriente, a Yakuza tem um modus operandi diferente do usual dentro da máfia mundial, afinal, seus membros não escondem sua filiação e seus clãs são bem conhecidos por causa da simbologia utilizada. Todo membro da Yakuza é marcado com tatuagens por quase todo o corpo, num ritual conhecido como Irezumi. Estas tatuagens exibem imagens nacionalistas, ou símbolos associados aos clãs, sendo escolhidas pelo tatuador – também membro da Yakuza – e não pelo tatuado. Esta tradição faz com que os membros da Yakuza sejam facilmente reconhecidos e, consequentemente, marginalizados pela sociedade japonesa.

Yakuza Irezumi

O Irezumi é uma tradição cheia de simbolismo, praticada pelos membros mais comprometidos com a organização, que tatuam uma grande parte do corpo, representando a capacidade de suportar dor em prol da Yakuza, sendo símbolo de lealdade e status dentro da organização.   

Outra tradição que torna facilmente reconhecido o membro da Yakuza é o ritual do Yubitsume. Ritual punitivo, o castigo consiste em cortar partes dos dedos do soldado que cometeu algum erro e envergonhou o clã ou a organização. Desta forma, faltar dedos no Japão é sinônimo de pertencer à Yakuza, que, para a sociedade japonesa, significa um indivíduo sem valor algum. A polícia, inclusive, se refere a eles como Beryokudan, que seria uma termo para classificar pejorativamente gangsteres violentos, sem tradição e nem honra.

Yubitsume Yakuza

O Yubitsume é um ritual de punição também conhecido como automutilação. O membro que falhara miseravelmente em sua missão, recebe uma faca e uma gaze para, em seguida, cortar um dedo mindinho na junta superior, colocá-lo em uma caixa e entregar a seu superior. À cada nova falha o dedo é cortado na junta seguinte, evoluindo para os demais dedos. Este ritual mostra a dependência do membro para com a organização, pois sem os dedos intactos ficaria incapacitado de empunhar firmemente suas armas. 

As origens da organização remetem ao Período Edo, quando o Japão era governado pelos xoguns da família Tokugawa, datando de 1603 até 1868, sendo reconhecido como o período histórico que marca o início da era moderna japonesa. As versões da origem da Yakuza diferem entre os membros e não-membros. Enquanto os yakuzas acreditam que seus antecessores eram homens honrados, samurais que perderam seus mestres, conhecido como Ronins, e que passaram a defender seus povoados das ações dos bandidos, os não-membros dizem que a aurora da Yakuza se deu a partir dos Kabuki-Mono, gangsteres maltrapilhos, também conhecidos como “Os Loucos”, que usavam espadas longas e intimidavam povoados. O mais correto é que as duas versões mescladas forneçam o verdade sobre o surgimento da organização em meio ao desigual caldo econômico e social japonês do século XVII.

Oicho-Kabu

O nome Yakuza é oriundo de um jogo de cartas japonês denominado Oicho-Kabu, onde, para vencê-lo, é necessário um somatório de cartas com número dezenove. À pior jogada possível, com as cartas 8, 9 e 3, que somariam 20 e não pontuariam no jogo, é dada o nome de  Yakuza. Ou seja, pertencer a este grupo representa não ter valor algum perante a sociedade japonesa. 

Historicamente, o auge da Yakuza se deu após a II Guerra Mundial, entre os anos de 1958 e 1963, onde chegou a ter mais de 180 mil membros e quase 5 mil clãs em todo o Japão. Esse fato faz com que muitos associem o nascimento da organização com o fim do conflito mundial em meados da década de 1940, como reflexo da explosão do mercado negro japonês de alimentos, nascido no pós-guerra, bem como a ocupação americana no Japão que criou uma clientela ávida por prostituição, jogos e noitadas, ou seja, as condições perfeitas para o desabrochar do crime organizado. Naquele período, a própria polícia japonesa, cujas fileiras foram dizimadas pela guerra e sem recursos suficientes para conter a explosão do crime, recorreu à Yakuza como forma de estabelecer os limites para o crime organizado.

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No período pós-segunda guerra mundial, a principal missão da Yakuza era fazer com que o crime não atingisse o cotidiano dos cidadãos ordinários, que escolheram ficar à margem disso. Em troca, os policiais fizeram vista grossa e alguns bairros de Tóquio eram governados pela Yakuza. 

A organização comandava a jogatina ilegal, contrabando, tráfico de drogas, mulheres – principalmente do leste europeu – e armas, pornografia, e a prostituição no Japão, bem como estendia seus tentáculos à política japonesa que se tornara bem mais liberal após o advento da constituição japonesa pós-segunda guerra mundial, que deu mais direitos às mulheres, além de estabelecer um código jurídico mais democrático. A digital da Yakuza está impressa na política japonesa após meados do século XX, principalmente junto ao Partido Liberal Democrático, numa escancarada oposição aos comunistas que, segundo alguns historiadores, era financiada pelos Estados Unidos através da CIA.

O patrocínio da organização advém de atividades ilícitas, bem como de atividades lícitas. De modo inteligente, seus líderes investem o dinheiro sujo do crime em atividades limpas como imóveis, construção civil, entretenimento (as ligas locais de luta livre são controladas ou tem envolvimento da Yakuza) e mercado de ações (prática de mafiosos de alto nível e que utilizam a sokaiya). Claro que também contabilizam contribuições financeiras “forçadas” de comerciantes e empresários através de intimidação e chantagem. Um exemplo das atividades rentáveis e legais da Yakuza é a rede de trens metropolitanos japonesa, que é controlada por um dos chefões da Yakuza, desde de 1989, rendendo cerca de 255 milhões de dólares ao ano.

HSokaiya é a chantagem com o intuito de comprar ações de uma empresa lucrativa e que dá recursos lícitos à Yakuza. Caso descubram informações que possam incriminar uma empresa, usam esse fato como chantagem – atém mesmo indireta – para se infiltrar no alto escalão da empresa. . 

Muito do sucesso da organização se deve à sua hierarquia piramidal, sendo, talvez, a mais rígida do mundo do crime. Totalmente masculina em seus primórdios, eles acreditavam que as mulheres eram fracas e não conseguiriam lutra contra os homens. A única mulher com privilégios seria a esposa do líder, que, em caso de morte deste, assumiria o controle dos planos até que fosse realizada uma escolha por um novo líder. Além desta hierarquia rígida, onde o líder é chamado de Oyabun e seu imediato de Wakagashira, a Yakuza possui regras que em hipótese alguma podem ser quebradas, e qualquer deslize requer reparação, principalmente se fere a honra e e a moral do clã, que tem inúmeras gangues chefiadas por seus filhos.

Dentre as tradições importantes da organização estão os rituais, como os já citados Irezumi e Yubitsume. Um dos mais importantes é o ritual de iniciação, onde o líder e mais um membro compartilham com o iniciado seus copos de saquê, sendo que o chefe bebe todo o conteúdo, enquanto o iniciado simplesmente beberica o copo, mostrando que todos compartilham dos mesmos sabores, mas existe uma hierarquia a ser respeitada. Além disso, esse ritual é um acordo de submissão e lealdade do iniciado e proteção por parte do líder. Outro ritual importante da Yakuza foi herdado dos samurais, o seppuku, sendo a este o maior dos rituais punitivos.

  1. Seppuku Harakiri  O Seppuku, ou Harakiri, é o famoso ritual suicida dos samurais. É aplicado pela Yakuza em caso de derrota, vergonha ou traição. Como se trata de um ritual de purificação da honra, é raro que um membro da organização se disponha a fazê-lo.

Em 1992, o governo japonês apertou o cerco contra o crime, criando uma lei rigorosa que culpava os chefes pelos delitos de seus membros, alimentando, consequentemente, uma guerra entre os clãs. O governo japonês inclusive colocou em prática um programa que retirava da organização os jovens que desejavam sair do crime, e os incluía novamente na sociedade japonesa.

Todavia, no Japão moderno, a Yakuza continua desfrutando de uma relação confortável com a polícia, tendo organizado sua ação de tal forma que indivíduos comuns poder usufruir de seus serviços (como jogos, prostituição e drogas) em segurança. Claro que esta garantia não se estende àqueles que deixam de pagar suas dívidas. Existem relatos de espancamentos até a morte de inadimplentes em clubes de Tóquio, sendo que nenhum dos agressores foi oficialmente acusado de um crime público. Existem estimativas de que depois dos anos 2000, a ação da Yakuza lucre, por ano, quase treze milhões de dólares.

Confira um interessante documentário sobre a Yakuza e a tradição das tatuagens.

A cultura pop sempre se valeu da organização como personagem ao longo dos anos, principalmente no cinema, quadrinhos e nos jogos de video-game. Sendo assim, listo cinco filmes que mostram bem a evolução da organização pelas lentes do cinema, começando simplesmente como histórias de gangsteres com espadas, evoluindo para uma intrincada rede de rusgas de rua, chefões do crime organizado, policiais corruptos e membros que desejam se desvencilhar da organização.

YAKUZA: 5 BONS FILMES!

  1. Tokyo Mafia: Yakuza Wars (1995);
  2. Yakuza In Love (1997);
  3. The Yakuza Papers (1973);
  4. Sonatine (1993);
  5. Outrage (2010)
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