5 PERGUNTAS: Enéias Tavares

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Temos a satisfação de continuar nossa seção de pequenas entrevistas com Enéias Tavares, escritor brilhante da nova geração nacional, que se mostrou altamente  solicito e interessado em responder nossas cinco perguntas, oferecendo-nos partes de sua erudição apurada e visão perspicaz,  além de indícios de seus projetos futuros.

ET5AUTOAPRESENTAÇÃO

Sendo objetivo, sou formado em Letras, mestre e doutor em literatura inglesa e leitor voraz de tudo o que me cair na mão, desde Homero, Shakespeare, Oscar Wilde e Tolkien, com um leve desvio da Literatura Brasileira, resolvido pela série Brasiliana Steampunk. Dos contemporâneos, minhas principais influências são Alan Moore, Anne Rice, Thomas Harris, Neil Gaiman, Garth Ennis e George Martin. Eu gosto de contar histórias, em especial em formas narrativas longas, mas também adoro contos e outras mídias, como quadrinhos, jogos, mapas, áudio dramas e guias de referências, todas linguagens que quero experimentar cedo ou tarde. Para finalizar, sou um interiorano sulista que adora correr ao amanhecer, trabalhar feito um louco durante o percurso solar diário e beber vinho à noite, na companhia de amigos, minhas felinas e dos fantasmas que vivem comigo em meu mausoléu.

1) A literatura nacional ainda sofre pela indiferença dos novos leitores que buscam entretenimento literário. Credito este doloroso fato ao histórico apego à técnica literária de nossos escritores ao longo dos anos, sendo tachados como escritores para intelectuais e/ou para outros escritores. Aliado a este fator ainda podemos lembrar que o caráter avaliativo escolar, tirou o prazer e o interesse dos jovens brasileiros pela literatura nativa, entregando-os aos autores internacionais. No Brasil, parecia que um escritor que se dedicasse aos moldes populares de literatura soava menor e sem crédito.  Observe que internacionalmente existem inúmeros escritores ditos populares que trazem novos entusiastas para o mundo literário e da mesma forma que ninguém nasce correndo, ninguém nasce se comprazendo da alta literatura. Todos nós engatinhamos, depois andamos e por fim corremos. Com a literatura o processo é similar. Em suma, o que quero dizer é que a antiga falta de escritores de entretenimento no Brasil pode ter contribuído para a criação deste cenário que temos hoje, onde qualquer fórmula literária estrangeira requentada tem mais aceitação dos novos leitores do que uma proposta corajosa como a de Brasiliana Steampunk.  Isso posto, qual seria a sua leitura destas observações, visto que és praticamente um desbravador de um gênero quase inexplorado no mercado literário nacional?

Essa pergunta, Marcelo, vem ao encontro de muito do que venho pensando. Primeiro, essa oposição entre “alta literatura” e “literatura popular” ou “de entretenimento” é uma falácia. Falava com Affonso Solano sobre isso há alguns dias, que é outro que defende a importância da literatura de fantasia como importante à formação de jovens leitores e de leitores críticos e reflexivos. Ademais, esse afastamento é ridículo e mentiroso, pois a nossa literatura dita clássica só o é porque um dia foi popular: Homero, Shakespeare, Balzac, Dickens e Machado, entre outros tantos, trabalhavam com gênero populares que precisavam conquistar audiências, encher teatros, agradar leitores de jornal. Criaram tantas coisas legais porque seu principal interesse era seu público. Infelizmente, há uma série de escritores sérios hoje que parecem estar requentando indefinidamente o mesmo enredo (o sujeito pós-moderno fragmentado que vaga pela cidade ruminando suas frustrações emocionais, espirituais, sexuais…), o que no fundo não passa de um exercício que considero limitador, egocentrico e entediante.

Segundo, tens razão ao dizer que a escola nos moldes tradicionais é também parte do problema. Em Brasiliana Steampunk, eu recriei os heróis que achava “legais” em nosso cânone, e há dezenas deles. Porém, boa parte destes ficou relegado a dados de época, informações estilísticas e tantas outras discussões que não interessam aos jovens leitores. Onde estão as grandes questões? Sobre amor, sexo, vida, que muitos de nós encontramos em Tolkien, Martin, Rowling, Rice e tantos outros autores de fantasia? Em nossa literatura, há muita coisa boa e instigante e penso que chegou a hora de levarmos essas questões para a sala de aula. Para isso, criamos um Suplemento Escolar que lançaremos em algumas semanas, escrito em parceria com professores e educadores, num visual delicioso, que lembra os quadrinhos dos X-Men ou da Liga da Justiça, que são referências que alunos e professores irão reconhecer. Eu te agradeço pelo “desbravador” e me orgulho muito de estar respondendo ficional e publicamente ao problema da formação de jovens leitores em nosso país.

Deixo aos visitantes do Gaveta de Bagunças uma “entrevista” que uma das minhas heróinas, Beatriz travestida de Dante D´Augustine, deu sobre o tema: Ficção Popular é Literatura?: http://goo.gl/yaqVYA

Final Resposta 1

2) Como fã de HQ’s, notei uma nítida influência de A Liga Extraordinária, do mestre Alan Moore, em sua construção do Parthenon Místico. Esta minha observação estaria correta? Além disso, apesar de se alocar dentro do rótulo steampunk, sua escrita vai muito além, sendo possível enxergar diversos elementos da literatura gótica clássica em alguns andamentos (Bram Stoker e Anne Ricce, por exemplo), bem como algumas técnicas naturais aos roteiristas dos quadrinhos, dando muito poder à sua construção visual, que enriquece a obra A Lição de Anatomia do Temível Dr. Louison. O quanto estes elementos alheios ao meio steampunk, além das discussões de temas atuais como sexualidade e preconceito racial, influenciaram o produto final da obra?

O elemento steampunk em Lição de Anatomia é um tanto secundário, algo que não pode ser dito sobre o futuro volume dois da série, O Parthenon Místico, que depende muito mais da tecnologia retrofuturista. Ele foi o último elemento a ser adicionado ao primeiro livro e serviu para reforçar justamente o aspecto fantástico da história, comunicando com o público mais jovem, jovem adulto e geek.

Por outro lado, queria responder ao preconceito de que histórias de entretenimento não apresentam assuntos sérios. Então, sim, entre autômatos robóticos, zepelins fumacentos e maquinários eletrostáticos, temos uma sociedade muito parecida com a nossa, imersa em preconceito étnico, injustiça social e machismo, para não dizermos misoginia. Mas o interessante é percebermos que muitos destes elementos já estavam presentes nas fontes literárias do século 19. Ou seja, ainda estamos reproduzindo estereótipos de gênero, atacando homoafetividade, desprezando marginais e diferentes e sendo responsáveis por uma sociedade em que a grande maioria da população vive em situações precárias, sem acesso ao mais importante, educação de qualidade, que é aquilo que nos aproxima dos livros, das ideias, das críticas e ações existenciais e sociais relevantes.

Num outro nível, tens razão, todos os autores citados e muitos outros estão presentes no estilo, nos diálogos, na estrutura, na ambientação e na forma como descrevo essa cidade. Sempre digo que Porto Alegre dos Amantes está para mim e para meus heróis marginais e soturnos como Nova Orleans está para Anne Rice e seus vampiros e bruxas. Aos que quiserem passear por este cenário, fizemos em parceria com o Sarjeta RPG um áudio drama com produção de Ramon Mineiro chamado “Passeio Turístico por Porto Alegre dos Amantes, com Vitória Acauã”. Eis o link do programa: http://goo.gl/7cnA6y.

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3) Minha percepção me diz que a trama de A Lição de Anatomia do Temível Dr. Louison se desenvolve em uma realidade literária paralela. Nesta, personagens tradicionais de nossa tradição literária se tornam mais moldáveis. Existem planos de entrelaçar as obras tradicionais onde cada personagem foi pinçado, criando uma ligação entre eles dentro do universo de Brasiliana Steampunk? Além disso, chegou ao seu conhecimento alguma crítica negativa quanto a salutar ousadia com que você remodelou estes personagens clássicos?

Adorei o “salutar ousadia”. Vou anotar em meu caderno de “expressões memoráveis”, Marcelo. Quanto à primeira pergunta, sim, existe. Eu tenho esse documento de mais de vinte páginas que mapeia as datas de publicações, idades ficcionais dos protagonistas e prováveis datas de nascimento de acordo com 1911, ano de Lição de Anatomia. O efeito de tal exercício – tirando as dores de cabeça de semanas – é intrigante, pois aloca esse grandes heróis num mesmo universo, o que na verdade é o que todos vivenciamos enquanto leitores, não? Todos nós, vivemos em realidades mentais auto-criadas e construídas a partir dos nossos referenciais culturais e literários.

A série explora o potencial imaginativo dessas estórias, autores e obras. O que tenho sugerido aos novos leitores é que busquem pelas “origens secretas” dos heróis de Brasiliana Steampunk nos autores que os criaram. Quanto à críticas negativas, por hora, não. Eu esperava por elas, mas só o que tenho recebido são apoios e palavras carinhosas de muitos professores e acadêmicos. Um exemplo disso é o artigo de Bruno Matangrano, tradutor e escritor, que fez uma análise bem interessante sobre o livro para o periódico acadêmico Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea (http://goo.gl/OuZQCd).

Eu acredito que todos, Marcelo, tanto professores quanto alunos, em qualquer nível, estão em busca de novas possibilidades para o ensino e o debate sobre arte e literatura. E eles compreendem que Brasiliana Steampunk pode propiciar isso. Quanto às críticas negativas, estudo William Blake, cujo provérbio do inferno “Oposição é Verdaderia Amizade” me faz também receber opiniões negativas ou contrárias às minhas como verdadeiras dádivas.

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4) Sua construção das personagens é brilhante, conseguindo imprimir uma personalidade natural a cada uma delas. Todavia, apesar de Dr. Louison aparecer no título da obra, sua persona é pouco explorada. Ele é um personagem que apresenta muito potencial para desenvolvimento, sendo que seu mistério desperta curiosidade e sua força, tanto psicológica quanto física, nos deixa encucados com sua natureza. Tenho a impressão de que ele é quase uma quimera de grandes personagens da literatura universal. Estarei certo? Se sim, quais seriam estes personagens? Voltaremos a nos encontrar com ele nos próximos volumes?

Certamente vamos. Estamos lançando na Amazon o Brasiliana Steampunk Contos (https://goo.gl/j5FqPM), série de narrativas curtas protagonizadas por um herói da série, entre eles Louison, que fechará esse primeiro volume. Esses contos tem apresentação de outros escritores, posfácio meu, ilustrações de Karl Felippe e capas maravilhosas de Poliane Gicele.

Ainda sobre Louison, temos outro conto que será publicado no número 11 da Revista Trasgo, uma publicação nacional de ficção científica e fantasia que nunca canso de elogiar e indicar. “Solfieri & A Estalagem dos Enforcados”, como o próprio título anuncia, terá por protagonista o mago imortal criado por Álvares de Azevedo em Noites da Taverna. Mas nesta história, Louison aparece como coadjuvante e tem um papel bem importante no desenvolvimento do enredo, que inclui o demônio lovecraftiano Pamu, o Venerável, outro personagem que vamos explorar no futuro. Quanto às origens de Louison, ele compreende muitos elementos literários diversos, desde Hannibal Lecter, passando por Marius de Anne Rice e Ozymandias de Alan Moore, o Wilhelm Meister de Goethe, até as figuras monstruosas típicas como Jack o Estripador e outros assassinos literários. Mas no final, uma das mais importantes chaves de compreensão para ele é Dante na Divina Comédia. Lição de Anatomia apresenta várias dessas diferenças. Há muito ainda a responder sobre ele e tantos outros personagens da série. Espero que o público continue interessado no meu trabalho e se divertindo com os dramas e aventuras de Brasiliana Steampunk.

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5) Acredito que os subgêneros da ficção científica ainda são um pouco obscuros para o público brasileiro, sendo complicado diferenciar o steampunk do retrofuturismo, por exemplo. Além de clássicos pioneiros como Jules Verne e H. G. Wells, quais seriam suas indicações para aqueles que querem iniciar no mundo steampunk? Por fim, Brasiliana Steampunk é um projeto que abrange outras mídias além da série de livros, não?

Eu particularmente me apego pouco a essas diferenciações de gêreros e subgêneros literários, algo que pertence mais aos estudiosos do que aos autores e leitores. Para mim, boas histórias são o mais importante, indiferente de serem steampunk, diselpunk, clockpunk ou qualquer outro gênero, como fantasia medieval, dark fantasy ou horror.

De obras steampunk nacionais, destaco Le Chavalier e a Exposição Universal (N.E.: que inclusive resenhamos aqui no Gaveta de Bagunças), de Andre Cordenonsi, livro que saiu pela editora Avec em 2015 e que em breve ganhará HQ. Também O Baronato de Shoah, de José Roberto Vieira, série steamfantasy cujos dois primeiros volumes foram publicados pela editora Draco. Da mesma editora, recomendo Homens e Monstros, de Flávio Medeiros Jr., que une personagens ficcionais e históricos numa Europa em guerra.

Quanto à dimensão transmídia, você acertou, Marcelo. Além do Suplemento Escolar, lançaremos este ano o cardgame “Cartas a Vapor”, feito em parceria com a Potato Cat, empresa paulistana de jogos, e o artista Bruno Accioly, e que iremos produzir via financiamento coletivo Kickante no próximo mês.  Trata-se de um jogo com mais de duzentas cartas que detalhará o universo da série com um grande elenco de personagens, cenários e ferramentas. Ainda no mundo dos jogos, teremos o suplemento de RPG que sairá pela New Order para o RPG “The Strange”. Neste, os jogadores poderão visitar Porto Alegre dos Amantes e jogar com os heróis e vilões do universo.

Por fim, destaco o investimento que estamos fazendo na área de áudios, primeiramente com áudio dramas em parceria com o Sarjeta RPG e num segundo momento, com o áudio livro de Lição de Anatomia, que está sendo produzido pelo podcast Caixa de Histórias para as plataformas tocalivros.com e ubook.com. Um abraço aos amigos Paulo Carvalho, Beatriz Mazarak e Joy Japy que estão dando vida com suas vozes aos heróis de Brasiliana Steampunk. Pensando no leitor ou consumidor, o que desejamos produzir é uma imersão multimidiática, tudo para reforçar a diversão e a experiência literária que a série propicia. Em boa parte desses projetos, destaco o apoio do Grupo Epic e da loja Epic Art, reunião de várias empresas, profissionais e artistas que trabalham com indústria criativa e público jovem. Como pode imaginar, tem sido uma experiência mágica trabalhar com essas pessoas.

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ENÉIAS TAVARES INDICA

3 BONS LIVROS :

O Vampiro Lestat, de Anne Rice

Ouro, Fogo & Megabytes, de Felipe Castilho

O Caminho do Louco, de Alex Mandarino

1 LIVRO INDISPENSÁVEL

O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilder

2 BONS FILMES

Amantes Eternos, de Jim Jarmusch

A Ilha do Medo, de Martin Scorsese

1 FILME DECEPCIONANTE

Victor Frankenstein, de Paul McGuigan

1 BOM DISCO:

Reflektor, de Acade Fire

Obra do Autor:

Brasiliana-Steampunk-Lição-de-Anatomia-Capa
Brasiliana Steampunk: Lição de Anatomia do Temível Dr. Louison (2014, Fantasy/Casa da Palavra)
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