STEAMPUNK: Uma Introdução Literária ao Retrofuturismo a Vapor.

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por A. Z. Cordenonsi

Fogo nas Caldeiras! O Steampunk pede passagem!

Moçoilas e mancebos! Cavaleiros e Damas! Senhoras e Senhores!

Sejam bem-vindos a um passado que nunca existiu!

O Steampunk, uma vertente da ficção científica criada na década de 70, está criando asas cada vez mais fortes no mundo e no Brasil. Quanto mais a sociedade moderna fica imersa em prodígios tecnológicos que, provavelmente, seriam comparados à truques de prestidigitadores do século XIX, mais autores tem buscado no caldeirão do passado uma forma de ambientar as suas histórias.

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O retrofuturismo steampunk explora possibilidades tecnológicas que tem sua origem na tecnologia do vapor (steam) e as consequências do rápido ou peculiar desenvolvimento dos mesmos na sociedade (punk).

A maior parte das histórias é ambientada no final do século XIX e início do século XX, mas esta não é uma regra fixa. É possível ter histórias futuristas (numa linha também conhecida como steamfantasy) ou mais tardias. O que caracteriza o steampunk é a presença fulminante da tecnologia a vapor e a modificação, sutil ou violenta, das possibilidades de uso desta tecnologia. Desta forma, em termos tecnológicos, podemos ter tanto a presença de elementos triviais, como zepelins, trens e navios a vapor; quanto elementos especulativos, como androides, animais mecânicos, carros a vapor, aviões a vapor e o que você puder imaginar.

E, obviamente, esta mudança na linha do tempo da tecnologia vai influenciar a sociedade. A primeira e mais óbvia mudança está nas vestimentas. Histórias steampunk estão repletas de adequações, readequações, modificações e invenções no que concerne à moda e aos instrumentos de trabalho (gadgets) dos vários personagens. Corpetes e corsets, vestidos e espartilhos, casacos e sobrecasacas, cartolas e bengalas, meias, chapéus e botas de cano alto. Tudo é possível, tudo é mesclado, tudo é permitido.

E isso começa a dar uma certa sonoridade aos mundos steampunk, um glamour decadente que forma uma base comum a boa parte das obras, apesar de não ser uma regra fixa. A sociedade vitoriana, da metade final do século XIX até o início do século XX, tinha como elementos básicos a opulência dos ricos, a disparidade entre as classes sociais e uma grande força trabalhadora. A forma como cada autor trata estas questões é, obviamente, pessoal. Não há elementos fixos ou reguladores. Há autores que buscam exatamente na luta de classes o seu mote; outros preferem vislumbrar na sociedade mais ou menos privilegiada as suas histórias; há, ainda, os que mesclam, navegando por entre as classes sociais enquanto a história flui.

Steampunk Landscape

O steampunk, como gênero literário, apresenta um meio, uma sonoridade, um sabor, uma forma de apresentação, um glamour decadente que forma uma base comum a boa parte das obras, apesar de não ser uma regra fixa.

E é exatamente aí onde encontramos os principais equívocos em relação ao steampunk. O steampunk, como gênero literário, apresenta um meio, uma sonoridade, um sabor, uma forma de apresentação. Ao ler um suspense, o leitor sabe o que vai encontrar. Quem será o assassino? Ou assassinos? Ou ladrões? Quem é a vítima? Vítimas? Ao ler um livro de horror, o leitor também sabe que vai tomar alguns sustos. Será um horror gore, cheio de sangue? Ou um horror psicológico? Há inúmeras alternativas para qualquer gênero que você escolha. No entanto, todos eles têm uma ideia mais ou menos comum.

Mas este não é o caso do steampunk. Você pode contar uma história de horror, de suspense, policial, romance, erótica, qualquer coisa. Pois o steampunk não representa uma ideia de história, mas uma ambientação, apenas. Uma forma com valores estéticos, que podem ser deturpados a vontade. E esta liberdade permite que o autor enverede pelos mais diferentes caminhos.

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Em termos históricos, normalmente se atribui a Bruce Sterling e William Gibson a primazia de ter escrito o primeiro trabalho de vulto do steampunk, com a sua obra “A Máquina Diferencial”. O livro, que flerta com a história alternativa, mostra uma Inglaterra vitoriana onde Charles Babbage conseguiu construir um computador mecânico.

Mais tarde, Tim Powers e Michael Moorcocks desenvolveriam o gênero. “The Adventures of Luther Arkwright” (Bryan Talbot) é reconhecida como a primeira história em quadrinhos no gênero. Atualmente, temos autores como K.W. Jeter (“Infernal Devices”), Philip Reeve (“Mortal Engines”), Cherie Priest (“Boneshaker”) e Scott Westerfeld (“Leviathan”).

No Brasil, a onda steampunk surgiu em uma primeira coletânea, publicada pela falecida Tarja, intitulada “Steampunk, Histórias de um Passado Extraordinário”. Depois desta primeira abordagem, diversas outras coletâneas surgiram, principalmente enfatizando contos e noveletas: “VaporPunk I”, “VaporPunk II” e “DieselPunk” (Ed. Draco); “Steampink, Deus Ex-Machina e Óleo e Carvão” (Ed. Estronho); “Retrofurismo” (Ed. Tarja); e “Erótica Steampunk” (Ed. Ornitorrinco).

Em 2011, “O Baronato de Shoah – A Canção do Silêncio” (Ed. Draco), de José Roberto Vieira, é publicado, apresentando uma história de steamfantasy em um mundo imaginário. Em 2013, Flávio Medeiros Jr. lança “Homens e Monstros” (Ed. Draco), a Guerra Fria Vitoriana, um romance de história alternativa que mostra a disputa entre a França e a Inglaterra. Em 2014, foi lançada “A Lição de Anatomia do Temível Dr. Louison”, de Enéias Tavares, um suspense pulp que brinca com alguns dos mais aclamados personagens da literatura brasileira. Também neste ano, temos o lançamento de “Alvores”, livro independente de Lauro Kociuba, que mostra um mundo subterrâneo nas catacumbas de Curitiba, misturando steampunk e fantasia.

E, finalmente, em 2015, publiquei “Le Chevalier e a Exposição Universal”, pela AVEC Editora, um romance de aventura-pulp steampunk em uma Europa alternativa. Aqui, o professeur Jules Vernes é o Ministro da Ciência francês. Suas invenções impulsionaram a França, que se tornou o principal império mundial. Em um mundo habitado por animais mecânicos e estratificação social, um assassinato abala a polícia de Paris há poucos dias da inauguração da Exposição Universal de 1867. Abalados, os gendarmes chamam o seu melhor agente, um espião sem nome conhecido apenas como Le Chevalier.

Para os que querem se aventurar em aventuras esfumaçadas e becos sórdidos, a escolha é vasta.

Senta a pua!

foto_azcordenonsiA.Z.Cordenonsi é, na verdade, Andre Zanki Cordenonsi, um autor gaúcho de fantasia e aventura. Ele nasceu em 1975 em Santa Maria, Rio Grande do Sul, onde mora com a mulher, dois filhos, dois cachorros e um terreno cheio de insetos estranhos e seres imaginários. É autor de ficção, com mais de uma dezena de contos já publicados. O seu último romance, “Le Chevalier e a Exposição Universal”, foi publicado pela Editora AVEC (2015). Andre é professor universitário há quase vinte anos, atuando nas áreas de computação e tecnologia. Ele escreve sobre o que lhe passa na cabeça e não o deixa dormir à noite, quando as ideias se derramam no teclado como um trem descarrilado. Apaixonado por tecnologia antiga, divide seu tempo entre ser pai, marido, professor e escritor.

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