ATUALIZANDO A DISCOTECA: Almir Sater e Renato Teixeira, “AR” (2015)

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Almir Sater e Renato Teixeira: “AR” (2015, Universal Music)

Parceiros de longa data, Almir Sater e Renato Teixeira já nos ofereceram belíssimas peças do cancioneiro brasileiro como “Tocando em Frente”, “Hora do Clarão”, “Um Violeiro Toca”“Índios Adeus”, composições estas que, além de demonstrar toda a elegância que a música caipira pode apresentar, são clássicos indiscutíveis de nossa cultura, seja pela sensibilidade e genialidade musical, seja pela beleza poética de seus versos.

Apesar de toda a associação com a música sertaneja que envolve o nome de Almir Sater, sempre o vi como um explorador das sonoridades tupiniquins, mais por uma forma folk do que propriamente caipira, assim como acontece nas diversas regiões do mundo, onde músicos locais buscam transmitir os ares de sua terra através de melodias. No caso de Almir, ele se valeu da nossa tradicional viola, quiçá o instrumento musical de  timbragem mais bela dentre aqueles que desfilam os tradicionalismos folclóricos universais, para traduzir todo o frescor e bucolismo do campo por notas musicais eloquentes.

O mesmo acontece com Renato Teixeira, compositor de “Romaria”“Amanheceu”, um caipira por essência, que consegue, através de sua arte, mostrar toda a beleza poética da cultura interiorana brasileira que, em dado momento, foi (con)fundida com a música sertaneja. Creio que em tempos idos, tal relação fosse menos incômoda, todavia, a música sertaneja moderna, como reflexo de uma sociedade alienada e consumista, em nenhuma ínfima parcela se assemelha ao que é forjado por Renato Teixeira, um verdadeiro artesão das artes musicais, que critica a realidade atual do estilo em sua magistral “Rapaz Caipira”.

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Apesar de parceiros de longa data, Almir e Renato apresentaram seu primeiro projeto em conjunto, composto apenas por canções inéditas, somente no final de 2015, mas valeu muito a pena esperar, pois o que temos em mãos é uma obra de arte sem par na música “caipira” (as aspas serão entendidas ao longo do texto) moderna. 

“D de Destino” abre o álbum com toques de música folk em meio a brasilidades musicais bucólicas e melodias campestres, além de versos bem elaborados, longe da poesia canhestra dos nomes modernos que violentam nossos ouvidos. Uma canção de abertura perfeita para uma trabalho que foi maturado e lapidado ao longo de seis anos ao lado do produtor americano, Eric Silver, o terceiro ponto que equilibra e solidifica o plano musical apresentado em “AR”.

Vindo de Nashville, Silver (ao centro na foto) já trabalhou com nomes diversos da música americana, sendo instrumentista de Kenny Rodgers, Shania Twain e Donna Summer e tendo seu nome vinculado aos brasileiros Titãs e NX Zero, além da sólida parceria com Almir Sater, com quem divide a produção límpida, os créditos dos arranjos de cordas esmerados e a inteligentíssima alocação das vozes climáticas de “AR”, além de tocar guitarra, baixo e violão no álbum. 

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A riqueza de detalhes dentro dos andamentos e arranjos salta aos ouvidos, bem como a forma com que as vozes de Renato e Almir se completam de modo natural, sem o afetamento tão costumeiro dentro do que se classificou como música caipira nas últimas três décadas. “Espelhos D’ Água” traz um clima mais moderno, com teclados bem utilizados e alta classe musical nos detalhes.

Esse é um álbum para quem gosta de prestar atenção aos detalhes, principalmente no brilhante trabalho poético dos versos. “A Primeira Vez” traz muito desta poesia, de modo singelo, reflexivo e confessional, emoldurado por um arranjo que beira o folk rock, mas de modo inocentemente romântico  e aconchegante, assim como na bucólica “A Flor que a Gente Assopra”, de belos duetos vocais.

Confira “O Amor Tem Muitas Maneiras”, umas das mais belas canções que ouvi nos últimos anos.

Num repertório que exala bom gosto musical e representa um gole de água fresca em meio ao deserto de qualidade da música tipicamente brasileira, dentre baladas (como as lindíssimas “Jura”“Amor Leva Eu”, além das já citadas), pitadas de melodias folclóricas (como na instigante e misteriosa melodia de “Bicho Feio”, que mistura um pouco da musicalidade western com a campestre) e apologias à beleza da vida rural (mais explícitas em “Peixe Frito”), o ponto máximo se encontra em “O Amor Tem Muitas Maneiras”, umas das mais belas canções que ouvi nos últimos anos, dona de uma poesia romântica elevada, solo de inspirações jazzísticas e irresistíveis levadas bluesy na viola.

A música que esta consagrada dupla brasileira nos presenteou está muito além do simples rótulo “música caipira”. Claro que o aroma rural é perene neste álbum, sendo possível até mesmo ouvir o farfalhar das folhas das árvores entre o silêncio das faixas e o tato refrescante do frio orvalho que umedece uma manhã campestre na poesia cantada com muito sentimento e sinceridade, todavia, ouvidos mais atentos ainda poderão saborear especiarias e exotismos musicais num dos melhores álbuns de folk da última década. 

Nota: 10.

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