ATUALIZANDO A DISCOTECA: Jeff Beck, “Loud Hailer” (2016)

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Jeff Beck: “Loud Hailer” (2016, Atco Records)

Jeff Beck esta na tríade imaculada da guitarra inglesa, ladeado por Jimmy Page e Eric Clapton, além de ser o mentor do álbum atemporal “Truth” (1968), trazendo uma abordagem pesada que influenciaria os caminhos do rock dali adiante, bem como sua trajetória musical versátil e muito relevante, que nos apresenta agora, após seis anos longe dos estúdios, seu novo álbum, que reinventa sua técnica recheada de malícia e domínio total de seu instrumento, com linhas de guitarra que nos atingem como balas disparadas por um atirador de elite. É interessante notar como Jeff Beck buscou uma pegada moderna, forte, urbana, engajada, revolta e cheia de atitude para desfilar suas nova composições chegando, em certos momentos, a nos ensinar como beber no classicismo do rock n’ roll, mas desconstruindo-o com sabedoria, elegância e propriedade, para remolda-lo como um grito visceral de contestação, quase como uma adorável contravenção ao estilo. Algo que alguns nomes do indie rock têm buscado em vão.

Jeff Beck mexeu no cerne do blues rock, alterando sua natureza, seu idioma, dando neologismos musicais controversos, que soam poéticos quando sistematizados em uma música inquieta, exploratória e fora dos seus padrões, de bateria seca e sem adornos, que ecoa um pouco da crueza e urgência espiritual destas faixas. Sua linhas de guitarra são, com o perdão dos clichês, mortais, perigosas e dilacerantes, como só um inconformado com o status quo pode conceber, reafirmando a genialidade de um senhor de 72 anos, que ainda se mostra relevante para a música contemporânea, saindo de sua zona de conforto e ousando, sem amenizar sua identidade, pelo contrário, dando-lhe uma voz ainda mais forte e impactante.

 “Live In The Dark”  vem provocativa e cheia de atitude, um pouco mais melódica, mas não menos perigosa!

Faixas como “The Revolution Will Be Televised” “Thugs Club” trazem a estrutura do blues reconstruída numa atitude punk, com guitarras rústicas sobre andamentos que beiram o alternativo, criando canções provocativas, traços também presentes em “Live In The Dark”, essa um pouco mais melódica, mas não menos perigosa. O que acontece em “Pull It” é um desconfortante inconformismo musical advindo das guitarras cheias de efeito, sendo a tradução musical da revolta sem inconsequência, enquanto “Scared For The Children” é a contemplação da mudança à partir da transformação de elementos musicais do passado, numa versão moderna de um blues cadenciado, guiado por guitarras dilacerantes, como acontece em “Shame”, que adiciona um pouco de soul sessentista ao motim musical de Beck.

“Right Now” traz  um groove absurdo (assim como virá na deliciosa e sacana “O.I.L. [Can’t Get Enough Of That Sticky]”), entrecortado por guitarras ácidas e uma sonoridade suja, encorpada e cheias de “zunidos”, enquanto “Edna” é uma pequena peça climática tão bela quanto uma flor que brota em meio ao asfalto. Talvez o maior destaque venha para “The Ballad Of The Jersey Wives” (ao lado da sensacional “Shrine”, que fecha o álbum), com variados andamentos, variada instrumentação e muitos detalhes, numa composição que caminha do groove pujante às linhas de guitarra dramáticas e revoltas.

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A sonoridade do álbum é toda construída sobre guitarras febris, alimentadas por muitos efeitos viscerais, inspirados na aridez do alto volume de um megafone e deve ser creditada, também, à Carmen Vandenberg, responsável pelas guitarras-base do álbum e aos vocais sensacionais de Rosie Bone, que consegue transitar do estilo sincopado e indisciplinado de Selah Sue, à elegância peculiar de Valerie June, passando pela ousadia e lassidão roqueira de Joan Jett. 

No fim, apesar de toda a exploração que permeia este efervescente manifesto musical, Jeff Beck nos mostra toda a sua relevância, mesmo que de uma forma brusca e politicamente engajada nos versos, que traz um pouco do sabor contestador do punk. Acredito que a palavra gênio tem sido banalizada nos tempos atuais, principalmente no campo da música, sendo assim precisamos de uma nova classificação para nomes como Jeff Beck. Por ora, enquanto não a temos, basta saber que Jeff esta ativo e continua produzindo obras muito superiores que seus contemporâneos e reinventando-se numa formatação mais forte eque certamente seria aprovada por Lisbeth Salander.

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