BOB DYLAN: O Nobel de Literatura para a Poesia Impressa por Música

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“Sim e quantas vezes um homem deve olhar pra cima
Antes de conseguir ver o céu?
Sim e quantos ouvidos um homem deve ter
Pra poder conseguir ouvir as pessoas chorarem?
Sim e quantas mortes serão necessárias até ele saber
Que pessoas demais morreram?
A resposta, meu amigo, está soprando no vento
A resposta está soprando no vento”

A poesia perde sua relevância quando não eternizada numa sequência de papéis encadernados, mas sim emolduradas por notas musicais e registradas em um álbum? Um poeta não pode habitar o mesmo corpo de um músico e vice-versa?

Estas questões foram as primeiras que pipocaram na minha mente quando vi as críticas que saltitavam nas redes sociais pela escolha de Bob Dylan para o Prêmio Nobel de Literatura, principalmente no Brasil, terra cantada por Raul Seixas como aquela em que todos gostam de reclamar e se lamentar!

Alheio a estas questões, duvido que os ouvidos habituados a versos como estes que abrem nosso texto se assustaram com a láurea do Nobel de Literatura para Bob Dylan, que fez de seus álbuns verdadeiros manifestos, compostos por crônicas poéticas de sua geração, sendo que algumas de suas poesias permanecem com forte interpretação até mesmo nos dias de hoje.

A poesia de Mr Dylan é poderosíssima, emoldurada ou não por sua música, declamada ou não por sua voz, tanto que as letras de suas composições são estudadas em universidades, sendo, por diversas vezes, comparado a nomes como John Keats e William Butler Yeats. Além disso, aos desavisados, saibam que seu nome já fora elencado para ganhar o prêmio em 1996.

Bob Dylan: “Blowing In The Wind”

Dylan é um cronista de seu tempo, que anunciava os tons da mudança, mas longe do sentido religioso (apesar de muitos de seus admiradores olharem-no quase como um profeta), encharcando seus versos com filosofia cotidiana e um inconformismo alegórico, fazendo com que sempre fosse enaltecido como um grande poeta, além de um músico revolucionário.

Mas a revolução de Dylan era diferente, se tornando quase sempre um rebelde que se rebelava contra a rebelião, desde que foi de encontro ao colorido da sociedade americana com cortantes melodias e versos que falavam aos corações mais simples em “The Freewheelin’ Bob Dylan” (1963), que abria com os versos reflexivos de “Blowin’ In The Wind”.

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Bob Dylan foi laureado com o Nobel de Literatura por “ter criado uma nova expressão poética dentro da grande tradição norte-americana da canção”.

Pessoalmente, a obra de Dylan foi primeiramente experimentada pela sua poesia do que pela sua música. Lembro-me do quanto fiquei impactado com a interpretação de “Mr. Tambourine Man”, feita pela professora substituta encenada por Michelle Pfeiffer no filme “Mentes Perigosas”.

Era algo que aos meus olhos adolescentes saia do clichê dos moldes professorais ajudando ainda mais na amplificação do poder poético da retórica de Dylan na mente de um jovem. Eram tempos sem o acesso livre da informação via internet, o que me fez só ter contato com a música quase meia década depois.

Todavia, a manufatura poética de Bob Dylan vinha embalada num diálogo cheio de significado ao seu público, independente do quando ou do onde ele estivesse. Quer mais relevância literária do que a contida neste poder?

Alheio ao impacto pessoal, historicamente, ele reescreveu o manual da música pop nos anos 1960, sendo difícil acompanhá-lo, tanto em quantidade quanto em qualidade, ao incorporar suas influências de Rimbaud na narrativa poética focada no detalhe e no humor, que jogava com os tradicionalismos trágicos das baladas e com o surrealismo, dando ainda mais crédito ao comunicado oficial do Prêmio Nobel, que justificava a escolha por Dylan “ter criado uma nova expressão poética dentro da grande tradição norte-americana da canção”.

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Historicamente, ele reescreveu o manual da música pop nos anos 1960 e sua poesia não carecia de um guia literário, sendo agressivamente contracultural e sensivelmente pessoal, ao mesmo tempo!

Entendo, que para as mentes mais novas, desinteressadas em mergulhar na obra vasta de Bob Dylan, seja quase um ultraje ver um músico ganhando um prêmio voltado à literatura, mesmo que muito destes que se dizem contrários, entendam como literatura de alta classe nomes como Dan Brown, John Green, Suzane Collins e afins.

Quem tiver um pouco mais de interesse, verá que ele descrevia, ousadamente, imagens que não estavam na tradição da música Folk, do Blues ou do Rock N’ Roll, se valendo de um surrealismo palatável que alegoricamente expressava os sentimentos de uma época, mas sem se apegar a discursos e ideologias políticas, o que lhe auferiu o título -renegado por ele próprio – de “A Voz de Uma Geração”, por englobar os desejos de mudança de uma geração.

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O escritor Salman Rushdie, por exemplo, declarou que estava encantado com a vitória de Bob Dylan no Nobel de Literatura, pois suas letras eram uma inspiração para ele durante toda a sua vida, desde que o ouvira pela primeira vez, na escola. Em complemento, declarou que “as fronteiras da literatura estão se expandindo, e é excitante que o Prêmio Nobel reconheça este fato.” Já o professor Seamus Perry, da Universidade de Oxford, comparou o talento de Bob Dylan com o de Alfred Lord Tennyson, enquanto o escritor Joyce Carol Oates afirma que não deveria existir questionamentos quanto ao caráter literário do trabalho de Bob Dylan.

A literatura dos versos de Dylan não carecia de um guia literário, sendo agressivamente contracultural e sensivelmente pessoal ao mesmo tempo e, aos meus olhos, soa refrescante, em tempos de tamanha carência poética no mundo da música, ver Dylan laureado não somente pela sua relevância musical, mas também pela sua mensagem.

Para aqueles que não compreendem tal premiação, vale conferir ao menos seus álbuns compreendidos de 1963 à 1975, e saber que as pessoas que o rodeavam não eram músicos, mas poetas como Allen Ginsberg. Todavia, não se assuste se Bob Dylan não aceitar o prêmio, como fez Jean-Paul Sartre, em 1964.

Por fim, concordando ou não com a escolha, não entremos no mérito das comparações esdruxulas, como a que vi ontem , onde perguntavam se “agora, Dan Brown também poderia ganhar o Grammy”? Afinal de contas, certamente Dan Brown tem a mesma relevância para a literatura, quanto Bob Dylan para a música, não é mesmo?

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