BLAXPLOITATION: A Ascensão dos Negros no Cinema

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Por Paulo Lopes

O Blaxploitation ou Blacksploitation, definição que juntou os termos Black (Negro) e Exploitation (Exploração), foi um movimento curto; Durou no máximo uns cinco anos, a partir do lançamento de “SHAFT”, em 1971. “SHAFT” foi uma inovação no gênero policial, porque mostrava como protagonista um detetive negro (Richard Roundtree) e pior, irreverente, violento, agindo acima da lei, quebrando paradigmas raciais que vigoravam na indústria do cinema até então. Mas obteve um enorme sucesso, principalmente entre a população negra, apesar de execrado pela crítica especializada. Dirigido também por um negro, Gordon Parks, chegou a vencer o “Oscar” com a inesquecível canção tema, criada por Isaac Hayes e, ainda, obteve uma indicação pela Trilha Sonora Original.

Cena de abertura de “Shatf” (1971).

É preciso lembrar que nessa época o cinema americano passava por uma profunda reviravolta de conceitos, que iria marcar os rumos da indústria de uma maneira profunda pelas próximas décadas. Esse período é detalhado de forma magnífica por Peter Biskind, no seu excelente livro “Como a Geração Sexo-drogas-e-rock’n’roll salvou Hollywood”, uma leitura que recomendo a todo aficionado da chamada sétima arte. Além disso, graças a luta contra a segregação racial por todos os Estados Unidos, o povo negro, principalmente através de organizações como Panteras Negras e Black Power, aumentava sensivelmente o clamor pelo fim de qualquer forma de racismo e discriminação.

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Manifestação dos Panteras Negras nas ruas de Oakland, na Califórnia, 1968.

No entanto, vale lembrar que muitas das organizações que lutavam contra o racismo, renegaram o tipo de mensagem que esses filmes passavam. Mas esse novo contexto permitiu o aparecimento do Blaxploitation, que não era nada mais do que um pequeno movimento dentro de um panorama anti-racial gigante, que não só a América, mas todo o mundo vivia na época. Um movimento desse tipo, independentemente de qualidade técnica e artística, seria inaceitável poucos anos antes. Um cinema feito por negros e para negros.

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“Shaft” (1971, MGM)

“Shaft” estabeleceu um roteiro a ser seguido pelos filmes que foram feitos na esteira de seu sucesso. Invariavelmente tramas policiais até certo ponto banais, mas que se destacavam por trazerem protagonistas negros, na maioria das vezes com vilões brancos, com muita ação, um certo erotismo e tudo embalado por, aí sim, uma trilha sonora de primeiríssima qualidade, compostas por músicos e arranjadores já consagrados no cenário musical americano. Olha só o calibre de alguns desses nomes: Curtis Mayfield, Quincy Jones, Barry White, Marvin Gaye, Isaac Hayes e Willie Hutch. É verdade que muitos desses filmes, talvez na ânsia de se aproveitar de um publico crescente, tinham uma qualidade duvidosa, mas graças a alguns talentosos diretores, negros em sua maioria, muitos desses filmes deixaram um legado representativo do movimento para a posteridade. Realizadores talentosos como Gordon Parks(1912/2006) e seu filho Gordon Parks Jr.(1934/1979), Larry Cohen, Ivan Dixon (1931/2008) e alguns outros.

 Trailer de “Superfly” (1972), que traz uma lendária trilha sonora à cargo de Curtis Mayfield.

Alguns nomes se destacariam estrelando filmes do movimento, mas poucos teriam, realmente uma carreira de destaque nos anos posteriores. Richard Roundtree, o astro de “Shaft”, reprisou seu papel em dois outros filmes O GRANDE GOLPE DE SHAFT(Shat’s big Score/1972) e SHAFT NA AFRICA(Shaft in Africa/1973); Voltou ao papel numa série de TV, com apenas 7 episódios, realizados entre 1973/1974. Em atividade até os dias atuais, sua carreira se dividiu entre filmes menores e participações em episódios de séries televisivas. Jim Brown, ex-jogador de futebol americano, esteve em O JUSTICEIRO NEGRO”(Black Gunn/1972), e se destacou posteriormente em alguns papéis de maior importância; Jim Kelly, companheiro de Bruce Lee, em OPERAÇÃO DRAGÃO(Enter the Dragon/1970) fez JONES-O FAIXA PRÊTA(Black Belt Jones/1974). Tamara Dobson(1947-2006), teve uma carreira curta, mas estrelou CLEOPATRA JONES(idem/1973) e CLEOPATRA JONES E O CASSINO DE OURO(Cleopatra Jones and the Cassino of Gold/1975). Fred Williamson, que estrelou um dos grandes sucessos do movimento, O CHEFÃO DE NOVA YORK(Black Caesar/1973), dirigido por Larry Cohen, também ainda se mantem ativo e por muitos anos ele estrelou filmes policiais e de ação, reminiscências desse primeiro sucesso.

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Pam Grier, que estrelou COFFY-EM BUSCA DE VINGANÇA(Coffy/1973) de Jack Hill, teve a mesma trajetória de Richard Roundtree, mas graças a Quentin Tarantino, obteve um novo sucesso 18 anos depois em JACKIE BROWN(idem/1997). 

Alguns outros filmes que se destacaram, como legítimos representantes desse movimento:

  1. SWEET SWEETBACK’S BADAAAS SONG *(1971) De e com:Melvin Van Peebles
  2. SUPERFLY(Superfly/1972) De Gordon Parks Jr. Com:Ron O’Neal
  3. O TERRIVEL MR. T(Trouble Man/1972) De Ivan Dixon Com:Robert Hooks
  4. NA MIRA DO INVESTIGADOR(Black Eye/1972) De Jack Arnold Com:Fred Williamson
  5. HIT MAN*(1972) de George Armitage Com:Bernie Casey
  6. WILLIE DYNAMITE *(1974) De Gilbert Moses Com:Roscoe Orman
  7. BLACK SAMSON(Black Samson/1974) De Charles Bail Com:Rockne Tarkington
  8. FOXY BROWN(Foxy Brown/1974) De Jack Hill Com:Pam Grier
  9. IMPLÁCAVEIS ATÉ NO INFERNO(Three the hard way/1974) De Gordon Parks Jr. Com: Jim Brown, Fred Williamson e Jim Kelly.
  10. BUCKTOWN*(1975) De Arthur Marks Com:Fred Williamson e Pam Grier
  11. DOLEMITE*(1975) De Urville Martin Com:Rudy Ray Moore
  12. BLACK SAMURAI*(1977) De Al Adamson Com:Jim Kelly
    *Inéditos no Brasil.

Lembrando que no conceituado site de cinema IMDB, estão relacionados quase 300 titulos referentes ao Blaxploitation; Sendo que ali estão amostrados qualquer filme que tenha um vinculo, por pequeno que seja com o movimento, e de todas as épocas, não representando, portanto, o conceito básico que caracterizou o Blaxploitation. Confira todos esses filmes no link abaixo: (http://www.imdb.com/search/keyword?keywords=blaxploitation)

 Trailer de “Jackie Brown”, filme de Quentin Tarantino que homenageia o Blaxploitation, trazendo a musa do gênero Pam Grier.

Uma das coisas legais do cinema e televisão americanas é sua capacidade de revisitar ciclos, através de homenagens e refilmagens, feitas sempre com muita qualidade. O Blaxploitation, já em 1997, foi homenageado por Quentin Tarantino no excelente JACKIE BROWN, que trazia no elenco nomes como Pam Grier, Samuel L. Jackson, Robert DeNiro, Robert Foster, Bridget Fonda e outros. Samuel L. Jackson também esteve na refilmagem SHAFT(2000), onde encarnou o sobrinho do John Shaft original, que, por sinal, aparece no filme vivido por um Richard Roundtree envelhecido. Agora em 2016, o Netflix, traz de volta todo o espirito e clima do Blaxploitation, com o lançamento da série LUKE CAGE(13 Episódios).

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Originalmente, Luke Cage vinha empacotado pelas influências do Blaxploitation.

Luke Cage, o Herói de Aluguel, foi o primeiro protagonista negro da Marvel. Criado em 1972, por Archie Goodwin, George Tuska e o desenhista John Romita, aproveitava-se do crescimento do apelo negro no cinema onde a Blaxploitation dava seus primeiros passos com grande sucesso, principalmente entre o publico alvo. Por isso as HQ’s do novo super herói eram nitidamente calcadas nos elementos dos filmes do movimento. Cage, apesar de se proclamar um herói de aluguel, é super herói, sim; Dotado de superforça e pele a prova de balas, seus poderes foram lhe dados acidentalmente por um cientista das Industrias Stark, durante uma experiência sabotada, na penitenciaria Seagate. Direto dos quadrinhos Luke Cage, agora ganha vida na pele do ator Mike Colter. (confira nosso texto especial sobre Luke Cage aqui)

Como vários outros ciclos mais específicos, o Blaxploitation, não agradou a critica na época, mas o que é importante foi o legado que esses filmes deixaram para gerações posteriores, mostrando, principalmente, o poder dos negros na indústria do entretenimento dentro e fora das telas.

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