VINYL: Como a Geração Sexo, Drogas e Rock N’ Roll Revolucionou a Indústria da Música!

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 Abertura da série…

Nos dias de hoje poucos possuem o prazer de retirar uma edição em vinil de “Sticky Fingers” (1970), álbum dos Rolling Stones, da prateleira e experimentar a genialidade deste clássico pelos sulcos do vinil. Mas na época em que foi lançado, existiam poucas opções alternativas para degustar este conjunto inspirado de canções que abria a discografia setentista de Mick Jagger, Keith Richards e seus asseclas. Um período de excessos, ousadia, exuberância e genialidade em partes iguais que o próprio Jagger tenta, ao lado do cineasta Martin Scorcese e de seu filho, o ator James Jagger, recriar na série Vinyl, cuja primeira temporada foi apresentada em 2016 pela HBO. Surpreendentemente o projeto não obteve o sucesso esperado e a série foi cancelada após o término da primeira temporada, mesmo com a confirmação do canal para a segunda temporada à época da estréia.

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Scorcese e Jagger. A série nasceu de um grandiosos projeto de Mick Jagger para um filme que contasse a história da indústria da música. 

A trama discorre durante a revolução da indústria musical americana na década de 1970, muito bem detalhada no livro “Maestros, Obras-Primas & Loucura: A Vida Secreta e a Morte Vergonha da Indústria da Música Classica”, de Norman Lebrecht. Inclusive, uma das cenas iniciais, onde ocorre uma negociação de uma gravadora falida, me remeteu diretamente a este livro.

No centro da série temos a história de Richie Finestra (Bobby Cannavale), um empresário que tem que lutar para salvar sua gravadora, a American Century Records. A empresa está praticamente falida, mas a efervescente cena novaiorquina, que já tratava de incubar o embrião da rebeldia que eclodiria no punk,  ou nas cores que explodiriam a disco music, ou na insatisfação da música negra que convergiria no Hip-Hop, recoloca Finestra dentro dos velhos hábitos.

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Richie Finestra, mesmo não sendo um narrador confiável, consegue tornar a trama atraente, mesmo com toda a degradação e corrupção explicitada…

Gravitando em torno de Richie, e servindo de gatilho para as turbulências da narrativa, temos a esposa Devon (Olivia Wilde em ótima atuação e beleza desconcertante), que já viveu uma vida glamourosa como atriz e modelo, mas agora vive com as crianças na casa da família no subúrbio,  além de Zak Yankovich, o braço direito de Finestra na American Century, que parecem discordar fundamentalmente na forma de gerir a empresa, o que leva a conflitos frequentes.

Ainda não consegui me decidir se o mundo da indústria da música serve de plano de fundo para explosão de dramas pessoais, ou se a história dos personagens, que em dado momento chega a soar inócua de tão clichê, serve apenas para justificar a existência de uma série que explora indecentemente o saudosismo da era dourada do Rock N’ Roll. Em todo caso, fica evidente o modo como funcionava o ditatorial universo das gravadoras e a forma como os alemães adentraram no mercado fonográfico.

Um ponto positivo para a forma como coabitaram nomes reais e fictícios. Por exemplo nesta cena em que a banda fictícia Nasty Bits (liderada pelo ator James Jagger) abre o show do New York Dolls, com um certo Ramone na platéia…

A riqueza da série se encontra na eficiente recriação do clima da época, além das múltiplas referências. Todavia, a tensão das relações interpessoais geram bons momentos (como no episódio em que Devon se reencontra com Andy Warholl). Estas tensões são amplificadas pela contextualização  no período em que o mercado fonográfico era virado do avesso, gerando uma cadeia de degradações nas relações que são perfeitamente ambientadas pela trilha sonora muito bem escolhida e executada (a cena em que “Life On Mars”, de David Bowie, se faz presente, é fazer marejar os olhos de qualquer amante da boa música).

Um fator positivo é o cuidado em escolher atores com semelhanças físicas impressionantes com os artistas originais. É impossível não destacar a ótima versão de Alice Cooper, ou do já citado Andy Warhol.  Outro elemento destacável é a ambientação e figurino que conseguem promover uma viagem no tempo, misturando todas as estéticas glam, black, proto-punk e hippie, sem bagunças e caricaturas, talvez pela permissão dada pelo excelente roteiro de Terence Winter, que consegue explorar as diferentes nuances daquele período conturbado onde padrões que morriam ou que nasciam ainda intersectavam o mesmo espaço temporal. Neste sentido, ponto positivo para a forma como coabitaram nomes reais e fictícios (sem descaracterizar a história e deixando a impressão de que realmente PODERIA ter sido assim).

 Richie Finestra descobre Lester Grimes… 

Acredito que o fracasso da série se deva pelo fato da geração que louva séries como The Walking Dead Game of Thrones não compreenderem o espírito revolucionário que pairava nos ares da primeira metade dos anos 1970, afinal, o Rock N’ Roll nos dias de hoje virou um estilo de nicho, já alçado ao grupo da Música Erudita, do Jazz e do Blues, como elementos culturais destinados a iniciados, quase como bolhas musicais em meio ao pasteurizado e estéril mundo da música pop. É difícil, para quem não se lembra do mundo sem a internet, aceitar que existiu um período na indústria do entretenimento que as gravadoras detinham o poder absoluto sobre a música e sobre os artistas por três simples motivos: 1) a música podia ser consumida quase exclusivamente em vinis; 2)gravar um álbum era caro e dependia-se de uma gravadora para isso; e 3) o monopólio da divulgação era bancado pelas gravadoras através do rádio.

Outra impressão que tenho vem do fato de Richie Finestra não ser um narrador confiável, assim como os mentores do projeto, Jagger e Martin Scorcese, que passaram pelo período representado na série em condições duvidosas de sobriedade (basta ler o ótimo “Como a Geração Sexo, Drogas e Rock N’ Roll Salvou Hollywood”, de Peter Biskind, para entender o modo de vida da classe nos anos 1970) o que nos leva a questionar, mesmo com todas as licenças poéticas que uma produção deste porte permite, a plausibilidade de tais fatos. Mas, claro, PODERIA ter sido assim…

Uma aula grátis de estrutura musical moderna com Lester Grimes… 

Só lamento o cancelamento da série por uma parte que poderia ter sido melhor explorada: a história do bluesman Lester Grimes, “um músico que podia tocar como Hendrix e cantar como Sam Cooke”. Além da apaixonada interpretação de Ato Essandoh, que consegue transmitir sem palavras todo o sentimento causado pela canalhice de Richie, fica a impressão de que este personagem pertence ao plano real, mas disfarçado! Na verdade, Lester é uma quimera de nomes como B. B. King, Ike Turner, Hendrix e Sam Cooke, quiçá o melhor personagem da série, com muito ainda que se explorar dentro da trama. Entretanto, se sentiremos saudades apenas de Lester e da beleza surreal de Devon, justifica-se o cancelamento de um projeto deste porte.

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