FEDERICO FELLINI: Controverso, Polêmico e Genial!

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Por Paulo Lopes

Federico Fellini, era um mentiroso confesso. Talvez por isso não gostasse de dar entrevistas; Dizia que os jornalistas faziam perguntas que não lhe interessavam e ele as  respondia falando bobagens ou coisas estupidas. Coisas em que não acreditava. Mas era dono de algumas definições e frases fenomenais, o que não poderia ser diferente, pela sua criatividade e imaginação prodigiosas.  Numa delas  ele definiu seus filmes, de uma forma tão simples que, talvez fosse a definição da chamada sétima arte em um todo. Ele disse: “O Filme tem a linguagem simbólica dos sonhos. Gostaria que o espectador o visse sem deixar-se cegar demais pela tentação de querer compreender à força, mesmo aquilo onde não há nada para compreender, mas só para ver”.

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“ Nos filmes de Fellini, a natureza humana e a natureza propriamente, mantem, com a imaginação deformante, relações secretas, nas quais se reconhece a originalidade de sua inspiração”

Já o jornalista, critico de cinema e biografo de Fellini,  Gilbert Salachas,  deu uma definição mais profunda do cineasta e sua arte, dizendo:  “ Nos filmes de Fellini, a natureza humana e a natureza propriamente, mantem, com a imaginação deformante, relações secretas, nas quais se reconhece a originalidade de sua inspiração”.  De qualquer forma na história do cinema,  ele é um dos maiores, senão o maior, de todos os diretores. Gênio que fez da imagem a palavra e das palavras imagens inesquecíveis. Ao lado dele nesse panteão talvez apenas um Ingmar Bergman e um Akira Kurosawa.  Controverso, sim. Polêmico, sim. Mas, genial na maneira de contar suas histórias, no seu jeito de compor –ou decompor-  imagens e personagens e na poesia delirante de seus diálogos.

O mambembe bufão de Anthony Quinn em “A ESTRADA DA VIDA”, a  prostituta sofrida e triste de Giullieta Massina em “NOITES DE CABIRIA”,  a beldade  Anita Eckberg  banhando na Fonte de Trevi  em “A DOCE VIDA”,  o autobiográfico cineasta  Marcello Mastroianni  em “OITO MEIO”,  Pupella Maggio como a mama de “AMARCORD”,   o impotente  conquistador de Donald Sutherland em “CASANOVA” e de novo, cativantes, Mastroianni e Massina, em ‘GINGER E FRED”.  Personagens, que entre tantos outros modulados por uma mente brilhante, não encontram similares na história do cinema.

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“A ESTRADA DA VIDA” (1954) conquistou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro sendo, talvez, seu filme mais acessível…

É lugar comum  ao se começar  falar de  uma celebridade,  de qualquer área, se iniciar pelo local de nascimento. No caso de Federico Fellini(1920-1993) isto é uma necessidade, porque sua cidade natal, Rimini, na costa do Adriático, foi  cenário  constante, as vezes retratada de forma diferente e as vezes recriada, de seus filmes. Dono de uma mente extremamente criativa, Fellini, por mais paradoxal que possa parecer, foi um cineasta autobiográfico. E  sua saudosa Rimini, onde viveu até os  seus 17 anos, foi a fonte de sua inspiração em filmes como “OS BOAS VIDAS”/1953, onde ele retrata passagens de sua juventude e em “AMARCORD”/1973, que quer dizer “eu me lembro” no dialeto da Emilia-Romagna, região onde fica Rimini,  ele montou um retrato das suas lembranças, contadas de forma episódica e, , é claro, de acordo com seu jeito próprio de rever esse seu passado.  Com “AMARCORD”, Fellini ganhou seu terceiro “Oscar” de Filme estrangeiro.

No final dos anos 40 ele tentou a sorte como desenhista em Florença e  pouco tempo depois foi para Roma, com o intuito de estudar direito, mas sua veia artística se sobressaiu e depois de desenhar histórias em quadrinhos, fazer rádio e escrever canções, além de roteirizar para cômicos famosos da época, ele chegou ao cinema, primeiro roteirizando filmes menores e depois se associando a Roberto Rosselini, que o convidou para roteirizar “ROMA-CIDADE ABERTA”/1945, filme que se tornou um clássico indiscutível do cinema e marco inicial do neo-realismo italiano*. Colaborou também com o roteiro de “PAISA”/1946, outro clássico. De roteiro em roteiro, chegou a direção com  “MULHERES E LUZES”/1950,  em que dividiu a batuta com Alberto Lattuada. Mas logo faria seu primeiro trabalho sozinho: “O ABISMO DE UM SONHO”/1952. Em “OS BOAS VIDAS”/1953, a genialidade começou a aparecer e explodiu com “A ESTRADA DA VIDA”/1954, ganhando seu primeiro “Oscar” de filme estrangeiro e o Leão de Ouro em Veneza.

 Clássica cena de “La Dolce Vita” (1960), o filme mais famosos de Fellini, com Anita Ekberg e Marcello Mastroianni na Fontana di Trevi.

Esse filme, que tinha Anthony Quinn e Giulieta Masina no elenco, fez com que muitos lhe acusassem se ser infiel ao movimento neo-realista;  Principalmente, porque seu filme seguinte, “A TRAPAÇA”/1955, uma crítica mordaz a exploração do povo pela religião, tinha dois típicos atores de Hollywood no elenco: Broderick Crawford e Richard Basehart. No entanto, a partir dali seu estilo único de fazer cinema, delinearia seus caminhos na sétima arte.

Ele foi o primeiro diretor a ter o nome diretamente incorporado aos títulos de seus filmes, além do que seu estilo delirante e extravagante, criou o adjetivo “felliniano”, para se referir a personagens como os retratados por ele, sempre com maquiagem forte,  sempre contrários aos padrões tradicionais de beleza; Mulheres com olhos grandes, seios fartos, bocas miúdas e tonalidade de pele fantasmagóricas e os homens esteticamente feios e narigudos, com a testa acentuada até o meio da cabeça. Ser assim, era ser “felliniano”. Mas nada disso nunca teve grande importância, diante da maior qualidade de toda a sua obra, que foi a poesia sem freios de sua  imaginação.

Numa obra nivelada por qualidade e criatividade, Fellini foi um critico de sua época e de si mesmo retratando a Roma cinematográfica, da qual ele mesmo fazia parte, em “A DOCE VIDA”/1960, escandalizando todo o mundo do cinema e ganhando a Palma de Ouro em Cannes. Fez o mesmo em “OITO E MEIO”/1963; Uma autocritica visceral de si mesmo, como um cineasta em crise artística e pessoal, envolvido com os problemas para realização de seu ultimo filme.  Outra obra prima e mais um “Oscar” de filme estrangeiro.

 Trailer de “Satyricon” (1969)…

Em “SATYRICON”/1969,  Fellini criou uma Roma Imperial caótica e decadente, mas que só poderia ter existido em seus devaneios; Imaginação que ele deixou voar também em “ROMA”/1972, onde ele mais uma vez revive as lembranças de sua chegada a cidade, que, na verdade é a protagonista principal do filme. Em “CASANOVA”/1976, Fellini desconstruiu o mito de conquistador do veneziano de forma genial, transformando-o  num solitário depressivo em busca de si mesmo, em meio a decadência de uma época. Em “ENSAIO DE ORQUESTRA”/1979, Fellini  dá uma visão poética a rotina estafante de uma grande orquestra. Este filme marcou o fim de uma parceria que se estendia desde 1952, entre Fellini e o compositor Nino Rota, magnifico autor de todas as trilhas sonoras do diretor até então. Rota morreu em 1979.

Em “CIDADE DAS MULHERES”/1980, Fellini experimentou o olhar que as mulheres tem para o universo masculino, com Marcello Mastroianni mais uma vez emulando o próprio diretor. Em “E LA NAVE VÁ”/1983, Fellini cria um universo surreal e  operístico, todo construído em estúdio, recheado pelos típicos personagens de tantos filmes seus. Em  “GINGER E FRED”/1985, ele faz a sua maneira uma homenagem aos dançarinos hollywoodianos,  Fred Astaire e Ginger Rogers. Em  “ENTREVISTA”/1987, ele é ele mesmo num  filme que ele se homenageia e a seus amigos e companheiros em tantos filmes. Mas é uma emocionante homenagem ao cinema, isso sim. E finalmente, seu ultimo trabalho: “A VOZ DA LUA”/1990. Aqui ele transforma loucura em poesia através das divagações de um lunático, interpretado por Roberto Benigni. Muitos consideram esse seu trabalho mais fraco. Pode ser. Mas pouco de Fellini era muito.

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O estilo delirante e extravagante de Fellini criou o adjetivo “felliniano”, para se referir a personagens como os retratados por ele, sempre com maquiagem forte,  sempre contrários aos padrões tradicionais de beleza.

Além de todos os filmes citados aqui  ele em 1970, fez um semidocumentário para TV, chamado “I CLOWNS”, mostrando toda sua paixão pelo circo e pelos palhaços. Também dirigiu episódios para os filmes “AMORES NA CIDADE”/1953, “BOCACCIO 70”/1962 e “HISTÓRIAS EXTRAORDINARIAS”/1967. E, em 1969,  um episódio para a série de TV, “NBC EXPERIMENT IN TELEVISION”, chamado “Fellini: A Director’s Notebook”.

Uma história de Amor

Fellini conheceu Giulietta Masina quando ela foi chamada para interpretar um personagem dele adaptado para o rádio. Casaram em 1943. Os dois foram casados durante 50 anos e ela foi estrela de sete filmes dirigidos por ele. Alguns deles como “A ESTRADA DA VIDA”/1954, ‘NOITES DE CABIRIA”/1957, “JULIETA DOS ESPIRITOS”/1965 e “GINGER E FRED”/1985, verdadeiras obras primas e clássicos incontestáveis do cinema. Seus três outros filmes juntos foram “MULHERES E LUZES”/1950, “O ABISMO DE UM SONHO”/1952  e “A TRAPAÇA”/1955.

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Fellini e Giulietta Masina…

Companheira inseparável e presente em todos os momentos do cineasta, Giulietta foi diagnosticada com um câncer terminal no inicio dos anos 90; Como o mais surreal de seus personagens, o drama da perda próxima de sua parceira foi demais e ele literalmente morreu de tristeza em 21 de Outubro de 1993. Giulieta Masina, morreu em março de 1994.

*Neo-Realismo italiano:

Após o fim da Segunda Guerra, a Itália estava devastada; Alguns cineastas começaram a retratar de maneira muito crua e fiel toda essa realidade. Muitas vezes usando até gente comum, do povo, como atores. Esta visão aproximava estes filmes das características de um documentário, retratando as dificuldades e valores da população. Cinematograficamente o movimento se caracterizava pelo uso da iluminação natural, o uso da câmera quase como um expectador e filmagens em cenários reais. Assim era o Neo-Realismo Italiano,  movimento ganhou força nas mãos de diretores como Vittorio de Sica, Roberto Rossellini e Luchino Visconti. “ROMA-CIDADE ABERTA”(1945),  de Roberto Rossellini foi o pontapé inicial do movimento. Outros filmes do movimento: “OBSESSÃO”/1942 e “A TERRA TREME”/1948 de Luchino Visconti, “LADRÕES DE BICICLETA”/1948 de Vittorio de Sica, “CIDADE DA PERDIÇÃO”/1952 de Luigi Zampa…

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