VOCÊ DEVIA OUVIR ISTO: The Beatles, “The Beatles” (White Album)

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Dia Indicado Pra Ouvir:  Quinta-Feira;

Hora do dia indicada para ouvir:  Três da Tarde;

Definição em um poucas palavras: Adulto, Classudo.

Estilo do Artista: Classic Rock.

Comentário Geral: Perdoem-me os críticos e historiadores que clamam por “Sgt. Peppers…” ou “Abbey Road”, mas este é melhor álbum do quarteto de Liverpool. Em formato duplo, “The Beatles”, ou “White Album”, foi lançado em 1968 e os quatro integrantes da banda tinham em mãos 34 novas composições, das quais 30 foram lançadas nos dois discos que eram embalados pela simples arte gráfica alva. Aliás, a singela capa branca, trazendo apenas o nome da banda em alto relevo, contrastava com a arte gráfica revolucionária do clássico Sgt Peppers, último álbum anteriormente formado apenas por músicas inéditas da banda.

Dentre o grande número de composições, a primeira a ser finalizada foi Lady Madonna, e mantendo a tradição, ela foi lançada em 15 de março de 1968, no décimo sétimo single dos Beatles, que ainda trazia em seu lado B a canção The Inner Light, sendo esta a primeira composição de George Harrison a entrar em um single dos Beatles. Após a gravação desta música o quarteto se dirigiu para as Índias, onde ficaram por diversas semanas visando aprofundar seus estudos em meditação transcendental, com Maharishi Mahesh Yogi e entraram num de seus períodos mais prolíficos em termos de composição.

Das sessões de gravação antes da viagem à Índia resultaram oito composições, dentre as quais Lady Madonna era a mais brilhante. Com autoria total de McCartney, sua letra promovia um tributo às mulheres e sua estrutura musical os colocava novamente dentro da sonoridade pura do rock n’ roll. O riff de piano foi retirado de um sucesso tímido dos anos 1950, denominada Bad Penny Blues. Esta canção pode ser encarada como o marco final das colagens sonoras em estúdio, efeitos especiais de camadas musicais sobrepostas. Esta sessão de gravação ainda frutificou a belíssima Across The Universe“John estava mergulhado nas drogas de um modo que nunca havíamos feito”, dizia Paul ao se referir ao tempo em que voltaram da Índia.

John havia sido apresentado à heroína antes da viagem e na volta passaram a consumi-la regularmente. No dia 30 de maio entram no estúdio Abbey Road para dar início às gravações das muitas músicas compostas na temporada passada nas Índias. A primeira faixa a ser trabalhada foi Revolution 1, de John Lennon, que em sua versão original era uma balada, ou seja, aquela versão que saiu no single de Hey Jude não era a original. Na verdade, os Beatles registraram nada menos do que dezoito opções desta faixa. A versão desta música presente em The White Album é quase um blues acústico de andamento lento, sem as guitarras distorcidas e oposta a toda fúria que se apresenta na versão do single que é mais conhecida do público. Os seis minutos finais desta Revolution 1 presente no álbum de 1968 foram editados e utilizados em Revolution 9, uma canção formada por colagens de sons que seria de vital influência para diversas bandas do recém-nascido rock progressivo.

Tudo isso foi originado de uma improvisação perpetrada por Lennon quando o arranjo da canção chegou ao máximo de sua magia e criou vida própria em acordes dedilhados, gritos lamentos e o um apelo revolucionário latente. O improviso se desdobrou por dez minutos, até que Lennon desabafou após seu orgasmo musical: “Assim está bem, já chega!“. Voltando a Hey Jude, ela foi composta por Paul McCartney junto às demais músicas presentes no álbum, mas foi lançada no dia 30 de agosto de 1968 e foi um dos singles de maior sucesso dos Beatles.

O disco, já no lançamento, figurou nos primeiros lugares dos charts da Inglaterra e permaneceu na lista  por 22 semanas sendo que esteve em primeiro lugar em oito semanas destas vinte e duas. Na lista de mais vendidos dos EUA, The White Album ficou por nove semanas em primeiro lugar e permaneceu nesta lista por 65 semanas seguidas. Assim como aconteceu com Sgt. Peppers, este álbum de 1968 não teve nenhum single lançado, tanto nos EUA quanto na Inglaterra.

The Beatles é o nono álbum dos rapazes de Liverpool, rapidamente ficou conhecido como The White Album, ou seja, Álbum Branco, por motivos mais do que óbvios e se tornou uma obra-prima épica que se equipara na importância histórica de Sgt. Peppers. Diferente do álbum de 1967, este trabalho se caracterizava pelo talento de seus integrantes isoladamente e não mais pela sua colaboração conjunta.

O álbum começa com o som de um avião enquanto os falantes são preenchidos com o rock n’ roll de Back In The U.S.S.R. Esta canção pode ser encarada de maneira irônica, pois a música que fala sobre uma suposta volta dos Beatles à extinta União Soviética tem seu instrumental forjado em rock explicitamente nos moldes americanos, principalmente dos “rivais” musicais da Terra do Tio Sam, os Beach Boys. Lembre-se que estamos no auge da Guerra Fria e pensar no símbolo do rock americano cantando sobre uma volta à terra dos comunistas é um absurdo. Nesta música, composta por Paul, que ainda toca bateria, John Lennon gravou o baixo.

A sequência ininterrupta nos leva a uma das mais belas canções do álbum, Dear Prudence. Composta por John Lennon, a música fala de uma Prudence que é ninguém menos que a irmã de Mia Farrow, em uma balada incomparável, seguida pelo rock de Glass Onion que se destaca pelo seu final orquestrado. As peças cômicas tem seu lugar no álbum. Ob-la-di-ob-la-da é um deste momentos e se tornou um dos hits do lançamento que ainda tem Rocky Raccoon e Piggie nos mesmos moldes.

Wild Honey Piev serve de prelúdio para The Continuing Story of Bungalow Bill, uma música que mistura levada country antiga no seu refrão e uma melodia simples e cativante nas outras passagens. Esta emoção causada pela união de melodias simples é o que mais cativa na audição do disco. O simples assovio no final de Bungalow Bill é de uma simplicidade genial só superada pela introdução da melhor faixa do álbum e, para mim, a melhor dos Beatles: While My Guitar Gently Weep é a obra-prima de George Harrison , ainda mais abrilhantada pelo solo magistral de Eric Clapton, amigo pessoal de George.

A próxima faixa é Happiness is a Warm Gun, uma composição de John Lennon que mostrava uma abordagem mais surrealista, misturando melancolia e fúria numa faixa antológica, quase uma mini-suite tamanha a variação de climas nesta música. Martha My Dear é a homenagem que Paul faz a sua cadela Martha. Mais uma balada cheia de sentimento em So Tired, onde Lennon mostra uma bela interpretação, mas que é ofuscada pela maravilha composta por Paul na sequência. Blackbird é uma das melhores obras compostas pelos Beatles, minimalista, mas grandiosa em sua simplicidade. Um simples arranjo de violão acompanhado por pássaro que foi retirado dos arquivos EMI.

Don`t Pass me By é mais fraca do primeiro disco, mesmo assim traz um arranjo de rabeca que a torna no mínimo interessante. Uma batida cadenciada é o prenuncio de mais um rock de classe Why don`t we do itg on the road? Esta canção seria uma autocrítica pelo fato de não caírem mais na estrada e fazerem shows onde a banda mesmo reponde a pergunta do título dizendo que ninguém os iria assistir. A singela I Will nos remete aos primórdios dos Beatles quando compunha baladas como And I Love Her.

O fim triste com Julia, composição onde Lennon relembra sua mãe, fecha a primeira parte de um dos maiores discos do rock e já fica nítido que os Beatles não estavam mais tentando criar composições complexas e até mesmo dissonantes e psicodélicas. Agora buscavam extrair da simplicidade suas obras geniais. Até aqui metade do objetivo estava concluído com louvor.  

O segundo disco começa com um rock n`roll sessentista acelerado, assim como na primeira parte, o começo é avassalador com Birthday acordando o ouvinte que é tomado de surpresa pelo blues nervoso que vem em seguida. Yer Blues é uma canção de Lennon que transpira sentimento num dos melhores blues criados por bandas de rock, que tem toda a sua fúria aplacada pela bela e introspectiva Mother`s Nature Son, uma canção de Paul que tem uma influência larga do clima indiano que os quatro experimentaram na época da composição das faixas.

O rock dá as caras novamente com Everybody`s Got Something To Hide Except Me and My Monkey que é seguida pela primeira crítica pública da banda ao guru Maharish. Na canção Sexy Sadie John Lennon se mostra o primeiro a enxergar o então sábio como uma armação  e na letra ele se refere a algo traiçoeiro que é claramente endereçada ao guru indiano.

Até que na sexta faixa eles criam um novo estilo de rock n`roll. Helter Skelter é o início do rock pesado. Com riffs rápidos, distorcidos e pesados, base de baixo e bateria como uma parede e vocal furioso, criam o que para muitos historiadores do rock é o marco zero do que viria a ser conhecido como Heavy Metal. Para esta canção Paul McCartney se inspirou numa declaração de Pete Townsend que definia a música I Can See For Miles, do The Who, como a canção mais pesada, bruta e rústica que a banda já fizera. Após esta declaração Paul compôs esta música cujo nome seria traduzido para algo como “tobogã” ou “confusão” e numa das guitarras esta Jimmy Page.

Long, Long, Long quebra o peso com muita melodia e melancolia. Revolution I dá as caras com sua levada blues acústico e que considero melhor que a versão que saiu no single de Hey Jude. Seu refrão pop é de arrepiar. Honey Pie é uma amostra do amadurecimento de Paul que cria uma peça digna de atenção aos arranjos que são cuidadosos, mesmo que de forma minimalista, é uma canção muito bem trabalhada onde o autor dá uma aula de interpretação. Uma das melhores do disco, assim como Cry Baby Cry, merecendo uma audição mais atenta, pois se tratam de duas das preciosidades que podem ser esquecidas na no tesouro discográfico do Beatles.

Até que chegamos à controversa e visionária Revolution 9. O fechamento com Good Night, cantada por Ringo Starr, é belo e de uma sensibilidade ímpar, nunca um final de álbum foi tão parecido a um final de filme. Aqui temos diversas notas e instrumentações simples que aliadas de maneira certa se tornaram grandiosas. Perfeito!

Este disco, apesar de marcar a implosão definitiva da maior banda de rock de todos os tempos e de ser associado diversas vezes com assassinatos brutais, é um dos grandes discos da música do século XX, definindo de maneira irreversível Lennon e McCartney como dois dos maiores compositores da música contemporânea. Predileções musicais podem até ser discutidas, mas esta última afirmação é um fato e contra os fatos não há controvérsia. Ouça o Álbum Branco e faça sua própria análise, pois VOCÊ DEVIA OUVIR ISTO!

Ano: 1968;

Top 3: “Bullet The Blue Sky”, “With Or Without You” e “In God’s Country”

Formação: Paul McCartney (baixo, violão, piano e voz), John Lennon (Guitarra, violão e voz), George Harrisson (guitarra e voz), Ringo Star (Bateria e voz).

Disco Pai: Bob Dylan: Blonde on Blonde (1966).

Disco Irmão: Led Zeppelin: Physical Graffiti (1975).

Disco Filho:U2: The Joshua Tree  (1993).

Curiosidades: Temos algumas curiosidades interessantes quanto a este histórico álbum:

  1. Neste disco, que tinhas suas primeiras edições numeradas, Paul se aventurou a tocar bateria em algumas faixas (por exemplo, Back In The USSR, Why Don’t We Do It On The Road).
  2. Aqui no Brasil, as primeiras versões de The White Album vieram com um defeito na música Revolution 1 que acelerava a canção. Os fãs encararam aquele fato como mais alguma das maluquices já costumeiras nos álbuns dos Fab Four. O erro foi corrigido e hoje em dia aquelas primeiras cópias são itens de colecionador, não só aqui no Brasil, mas no exterior principalmente.
  3. Embora não tivesse contribuído para a canção Revolution 9, estando em Nova York, Paul McCartney tinha feito uma colagem semelhante 18 meses antes nas sessões de 5 de janeiro de 1967, durante as gravações de Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band chamada Carnival of Light, com mais ou menos 14 minutos. A canção nunca foi lançada e poucas pessoas a ouviram Segundo Paul declarou: “Revolution 9 era algo similar ao que eu vinha fazendo há um tempo antes, mas só por diversão. Eu não achava aquilo bom o bastante para lançar, mas John sempre me encorajou.” O fato é que muitos não gostam de ouvir esta canção pelos sentimentos que ela causa no ouvinte e ainda existe a ideia de que se tocada ao contrário ela traria mensagens apocalípticas. 
  4. A canção Helter Skelter passaria desapercebida, porém ela virou sinônimo de maldade após a se tornar o hino de Charles Manson e sua família e o teria inspirado a assassinar a atriz Sharon Tate  e mais seis pessoas em agosto de 1969. Mas, vamos detalhar isso de maneira melhor vendo o que de fato existia entre… 

Pra quem gosta de: Discos de vinil, cerveja escura, momentos históricos, Índia, comida agridoce e filosofia oriental.

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