CLÁSSICO DA LITERATURA: John Steinbeck, , “As Vinhas da Ira”

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Por Laira Arvelos

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John Steinbeck: “As vinhas da Ira” (The Grapes of Wrath, 1939)

“Nos olhos dos homens reflete-se o fracasso. Nos olhos dos esfaimados cresce a ira. Na alma do povo, as vinhas da ira diluem-se e espraiam-se com ímpeto, amadurecem com ímpeto para a vindima.”

SINOPSE: As Vinhas da Ira é um romance sobre a dignidade humana em condições desesperadas. Entre 1930 e 1939, as grandes planícies do Texas e do Oklahoma foram assoladas por centenas de tempestades de poeira que causaram um desastre ecológico sem precedentes, agravaram os efeitos da Grande Depressão, deixaram cerca de meio milhão de americanos sem casa, e provocaram o êxodo de muitos deles para Oeste, nomeadamente para a Califórnia, em busca de trabalho. Quando os Joad perdem a quinta de que eram rendeiros no Oklahoma, juntam-se a milhares de outros que ao longo das estradas se dirigem para Oeste, no sonho de conseguirem uma terra que possam considerar sua. E noite após noite, eles e os seus companheiros de desdita reinventam toda uma sociedade: escolhem-se líderes, redefinem-se códigos implícitos de generosidade, irrompem acessos de violência, de desejo brutal, de raiva assassina.

 Existem famílias de diversas formas, e em cada uma, pessoas especiais, seja por alguma característica, lembrança ou marca que deixa na sua vida. Sempre tive intensa admiração por meus tios escritores, desde a infância era bonito ouvi-los falar, ou estar em sua casa cheio de artefatos e cultura. Eu tinha uma mania boba de não conversar muito quando estava perto de tio, sua inteligência e eloquência sempre me inquietavam, coisas de criança. Meu tio se foi, o mundo perdeu um grande homem, minha tia me disse certa vez a seguinte frase após ler este livro – “Não preciso ler mais nada nesta vida”, e hoje após algumas horas do fim da leitura, entendo cada uma de suas palavras.

“As vinhas da Ira”. publicado em 1939, é um livro clássico escrito por John Steinbeck. Jonh nasceu em Salinas no Estado da Califórnia, nos EUA em 1902, de uma família de classe baixa, presenciou durante sua vida a situação de trabalhadores que serviu como panorama para sua ficção, a partir de uma série de artigos sobre a vida agrícola o livro foi criado.

Através da obra recebeu o prêmio Pulitzer de Literatura (1940) e contribui também para que o autor recebesse o prêmio Nobel de Literatura em 1962, com a declaração da Academia de Letras sueca de que “(Steinbeck) não era talhado para fazer meramente entretenimento. Ao contrário, os assuntos por eles escolhidos são sérios e denunciativos, como as experiências amargas nas plantações de frutas e algodão da Califórnia.” O caráter delator da criação pode ser evidenciado por exemplo na situação que ocorreu na cidade natal de John, onde o livro foi proibido, liberado apenas na década de 90.

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A obra prima de John Steinbeck foi adaptada para as telas do cinema no ano de 1940, uma obra corajosa e social. O filme é um dos poucos que tratam o tema da época, na verdade teve oposição ferrenha dos bancos e financistas, onde alegavam que o tema era comunista, e só saiu devido o prestígio pessoal do diretor.

O enredo é alternado entre a história da família Joad e capítulos que contextualizam e ampliam a visão sobre a época. Primorosamente escrito, mostra muito além de uma excepcional ficção dramática, que é, e se mostra como um verdadeiro estudo sociológico e antropológico, onde somos inundados pela ganancia dos que tinham poder e miséria e solidariedade de um povo.

Tom Joad, o filho mais velho retorna a casa depois de conseguir liberdade condicional e junto de Casy o ‘ex pregador’ e de sua numerosa família são forçados a abandonar sua casa em Oklahoma em busca de trabalho e sobrevivência. Em todo momento da narrativa não vemos alegria e sim esperança. Com a promessa de trabalho através de um impresso vão para Califórnia, ‘a terra prometida’, onde como dizia o avô “se poderia pegar uvas e comê-las, vendo-as escorrer pelas roupas”.

O romance está cheio de simbolismo, quando retrata a morte, o trabalho, quando fala da terra, do poder dos bancos, a sociedade, as mudanças, a ira, a selvageria, a greve, a pobreza e desigualdade social. Acessível, As vinhas da ira não traz uma leitura rebuscada, e sim uma clareza que a todo o momento nos deixa rendidos a maestria como foi construída.

A mãe, minha personagem preferida, esteio da família, participa de todos os diálogos importantes, encantadora, mostra-se uma figura de sabedoria e simplicidade. De forma comovente é ela que dá força a todos personagens, resolvendo os problemas com clareza e sobriedade mesmo com toda desolação pela qual são acometidos. “É assim que a mulher encara a vida. A gente não morre, a gente continua… muda, talvez, um pouco, mas continua sempre firme.”

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Com a brilhante fotografia preto e branco, o filme passa uma impressão poética da forma dura e feia das misérias e desumanidades descritas por Steinbeck. 

Se fosse descrever uma sensação após a leitura, sem exageros acredito que um soco no estômago melhor descreveria, a cada frase estamos sufocados, desesperados sentimos toda a amargura que envolve a narrativa, somos levados a um pesado e escuro estado de alma. Um romance atemporal que descreve as angustias humanas e toda sua capacidade de teimosia na tentativa de vencer as adversidades, onde cada sentimento é sentido, sem nenhuma tentativa de ser amenizado, Steinbeck consegue o que quis quando afirmava – “fiz o que o pude para esfarrapar os nervos do leitor”.

A obra prima de John Steinbeck foi adaptada para as telas do cinema no ano de 1940, uma obra corajosa e social que recebeu o prêmio de melhor direção para John Ford e melhor atriz coadjuvante para Jane Darwell e indicação para melhor filme, melhor Ator Henry Fonda, roteiro, edição e som. O filme é um dos poucos que tratam o tema da época, na verdade teve oposição ferrenha dos bancos e financistas, onde alegavam que o tema era comunista, e só saiu devido o prestígio pessoal do diretor.

 Confira o trailer da adaptação da obra prima de John Steinbeck, no ano de 1940 

Com êxito, através do fio condutor da odisseia dos Joad, John Ford nos submerge na crise de 29 e na árdua e dura saga de um povo em intenso sofrimento. Com a brilhante fotografia preto e branco, o filme passa uma impressão poética da forma dura e feia das misérias e desumanidades descritas por Steinbeck. Embora com uma pequena alteração cronológica, de forma alguma tenta descaracterizar o livro, representando o de forma impecável, emociona e transmite a realidade da época, contudo fica difícil bater toda a liberdade que a linguagem do livro proporciona em nossa imaginação e lógico compreender todos os detalhes de mais de 600 páginas.

A cena do discurso de Tom Joad (Henry Fonda) e sua caminhada indo ao longe traz uma carga reflexiva intensa, um momento de paz, um momento de dor diante de algo grande e profundo. O filme termina de forma ‘positiva’ diferente do livro com o inesquecível discurso da mãe “a gente rica vem e morre e seus filhos não prestam, também acabam morrendo, mas nós continuamos nós somos o povo que vive, eles não podem nos vencer, continuaremos para sempre, porque nós somos o povo”. Mesmo com a tentativa de boicote a FOX pelos banqueiros o filme foi um sucesso e está em sétimo lugar entre os filmes mais inspiradores de todos os tempos na lista de 2006 e em 23º na lista dos melhores filmes estadunidenses segundo o American Film Institute.

“The Ghost of Tom Joad”, álbum de Bruce Springsteen, é inspirado na temática e na obra…

Ao contrário do representado no filme, o livro tem um dos desfechos mais poéticos, dramáticos e inimagináveis possíveis, ousado para a época e eu diria que para a nossa sociedade atual baseado nos valores morais vigente. Sem dúvida a situação criada é tão surpreendente que tive que ler algumas vezes para ver se conseguia deixar o livro de lado.

Em alguns momentos pude sorrir na leve inocência das crianças, suas peripécias e descobertas, outras o estômago doeu, a garganta ‘amarrou’ e sim em alguns eu chorei, compulsivamente, diante da pequenez e grandiosidade desta obra e da vida.

Para completar esta brilhante experiência de vida (este nome que dou a leitura deste livro), descobri que uma das vozes que mais me encantam (Bruce Springsteen) possui um nobre álbum:  The Ghost of Tom Joad inspirado na temática e na obra, músicas muito diferentes das que já tinha ouvido, a crítica geral pode não agradar pelo cadencia mais fraca das melodias, e pelo tom politizados da letras, mas ouvir a faixa título com sua gaita depois da leitura do livro segurando – o  e olhando o horizonte  é sem dúvida uma experiência única. O álbum de 1995 recebeu o prêmio Grammy Award de Melhor álbum de folk contemporâneo. Contudo, se a ideia for conhecer a música em uma pegada mais ‘alegre’ em um de seus shows Springsteen toca esta música junto a Tom Morello, uma parceria musical brilhante, aliás Rage Against the Machine, regravou a música também (1998).

O Rage Against The Machine regravou a faixa “The Ghost of Tom Joad”… 

Não sou a mesma pessoa após As vinhas da ira, embora a tristeza não tenha cessado queria que todos pudessem ter a oportunidade de lê-lo. A leitura é algo que pode oferecer entretenimento, mas que tem o poder arrebatador de nos fazer pensar, pensar no outro, no que a sociedade passou e passa, ela faz com que questionemos, reflitamos e busquemos novas direções e caminhos.

Steinbecks, Os Joads, e cada personagem do livro, nos falam de coragem e, sobretudo de esperança. Queria hoje que tio aqui estivesse, com certeza seria um livro de que me falaria, mas a vida é assim: constante  “pode-se voltar meio passo, nunca uma passo inteiro. A nossa frente à luta continua. ”.

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