Precisamos Falar Sobre Chuck Berry

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Março de 2017 será lembrado como o período que levou um dos mais importantes nomes da história do Rock. Longe da emoção e exaltação momentânea de propagar a notícia de que “falecera o pai do Rock”, queremos mostrar como sua obra foi uma das mais importantes para a consolidação e aceitação do estilo na sociedade norte-americana em meados do Século XX.

Antes que lancem alguns impropérios contra este que vos escreve, justifico minha posição de não colocar Chuck Berry como pai do Rock N’ Roll, simplesmente por ser impossível atribuir a um só nome esta criação (assim como é injustiça histórica aos meus olhos creditar apenas ao Black Sabbath  a criação do Heavy Metal), e pelo primeiro clássico do Rock, corroborado por uma gama de historiadores do gênero, ser “Route 88”, de Ike Turner, lançada em 1951 (como investigamos neste post).

Nesta época, Chuck Berry ainda nem havia encontrado Muddy Waters, em Chicago, fato que só aconteceria em 1955, quando Bill Halley And His Comets já haviam emplacado, em 1954, “Rock Around The Clock”, outro controverso possível ponto inicial do Rock N’ Roll. Desta forma, gosto de dizer que se Chuck Berry não é o pai do Rock N’ Roll, foi ele quem “educou” o estilo, dando-lhe sua personalidade.

Confira uma inflamada performance de “Maybellene”, em 1958… 

Já sentindo o potencial de Chuck Berry, Muddy Waters, após o já citado encontro de 1955, rapidamente o encaminhou a Leonard Chess, dono da lendária Chess Records, que não pensa duas vezes para assinar com o compositor de quase trinta anos, colocando-o imediatamente entra em estúdio para gravar “Maybellene”, o modelo que o Rock N’ Roll seguiria nos anos 1950 e nas décadas subsequentes, cuja batida foi copiada à exaustação pela música pop.

Chuck Berry nasceu Charles Edward Anderson Berry, em St. Louis, no estado norte americano do Missouri, em 18 de outubro de 1926. Desde cedo se interessou por música, sendo possível vê-lo nos tempos de escola participando de alguns festivais, até ser preso em 1944. Aos sair da cadeia, após três anos de pena, se casou, procurou trabalhos convencionais, mas sempre com a música a bater forte em seu coração, tanto que em 1953, influenciado pelo som do Blues, integra o Johnnie Johnson Trio, até se dirigir para Chicago, em 1955, ano em que Elvis Presley estoura nas paradas.

Mesmo como um ex- presidiário e ousado, Berry foi o primeiro músico negro a dar total satisfação ao público branco, ao unir o Blues negro com o Country branco e construir hinos à eterna adolescência.

Elvis Presley sobrepujou Ike Turner, que teria todas as condições de ser enquadrado como um artista de rock n’ roll, simplesmente por ser Elvis branco, bonito e de boa família. Já Ike Turner, além de negro, era conhecido por seus excessos com álcool e drogas, e nos E.U.A. da metade do século passado isso era quase um crime. Mas com Chuck Berry o cenário era diferente. Mesmo como um ex- presidiário e ousado, Berry foi o primeiro músico negro a dar total satisfação ao público branco, ao unir o Blues negro com o Country branco e construir hinos à eterna adolescência.

Seu primeiro álbum rendeu o adjetivo de “trovador do Rockabilly”, e ele tinha total consciência do poderio de sua música. Certo dia, disse ao amigo Carl Perkins: “é possível que com nossa música possamos fazer tanto pra a ruptura racial quanto aqueles que nos representam em Washington”. E se “Jonny B Good”  inflamava a alma adolescente, “Roll Over Beethoven”  era um grito de libertação do Rock N’ Roll frente a cultura musical das elites do passado, e consagrava o Rock como cultura musical dominante no período.

Confira Chuck Berry e John Lennon no “The Mike Douglas Show” tocando “Memphis, Tennessee” e “Johnny B. Goode”.

“Ele (Chuck Berry) estava escrevendo letras boas e inteligentes nos anos 1950, quando as pessoas estavam cantando ‘Oh, baby, eu te amo tanto’”, argumentou John Lennon quando os dois se encontraram em no programa “The Mike Douglas Show”, em 1972, onde completou dizendo que “foram as pessoas como ele (Chuck Berry) que influenciaram a nossa geração a tentar entender as músicas em vez de apenas cantar ‘do wah diddy’”. Neste mesmo dia Chuck Berry tocou “Johnny B. Goode” e “Memphis, Tennessee” com Lennon (fato que rendeu ótimas histórias de bastidores e que merecem um post pra si) que, apesar de já ser consagrado naqueles dias e ter gravado covers com os Beatles, nunca havia tocado com Chuck Berry.

Um ano antes do encontro, em 1971, Lennon elevou o discurso de Chuck Berry em uma entrevista: “Ele é um dos maiores poetas de todos os tempos, você poderia chamá-lo de um poeta do rock. Ele era muito avançado para sua época, em termos de letras. Todos nós devemos muito a ele, incluindo Dylan. Eu amo tudo que ele já fez. Ele estava em um outro nível em relação aos outros artistas.”

Confira “You Can’t Catch Me”, composição de Chuck Berry que rendeu um processo a John Lennon por tê-la copiado em “Come Togheter”, dos Beatles… 

John Lennon inclusive tem uma história interessante envolvendo Chuck Berry indiretamente. No início dos anos 1970, Lennon tinha uma dívida com a Companhia de Morris Levy, por causa da canção “Come Togheter”, presente no álbum Abbey Road, dos Beatles, que “chupava” descaradamente elementos da canção “You Can’t Catch Me”, de Chuck Berry. O processo judicial, desenrolado pelos idos de 1972 e 1973, obrigava Lennon a registrar três composições da Companhia de Morris em seu próximo álbum solo. Tal embrolho evoluiu para o espetacular álbum de covers “Rock N’ Roll” (1975), sobre o qual já comentamos aqui.

Confira uma performance de “Show Business” e perceba como Angus Young é o melhor aluno de Chuck Berry, que tinha até mesmo a sua própria versão da “dança do pato”.

Não, Chuck Berry não é o pai do Rock N’ Roll! Assim como Elvis Presley também precisa histórica e urgentemente ser um rei deposto na evolução do estilo. Todavia, a importância de Chuck Berry para o estilo não possui par em sua geração pioneira e sua influência estica tentáculos que vão dos Beatles, Rolling Stones, Beach Boys e Faces, à AC/DC, MC5 e Motrohead. E clássicos como “Roll Over Beethoven” (1956), “Rock N’ Roll Music” (1966) e “Jonny B Good” (1958), construíram os pilares de seu legado, o qual Lemmy Kilmister era um confesso admirador.

A música de Chuck Berry está presente em diversos momentos da Cultura Pop. No cinema, quem não se lembra de John Tavolta e Uma Thurman dançando “You Never Can Tell”, em “Pulp Fiction”? 

 Ou Marty McFly arrepiando numa versão de “Johnny B Goode”, em “De Volta Para o Futuro“?  

Porém, acredito que ninguém bebeu tanto da fonte de Chuck Berry quanto Angus Young, que aprendeu seus primeiros acordes após o irmão Alex  apresentar-lhe os doze compassos do Blues de Chuck Berry, que foi seu único mestre, pois à partir daí, ele aprenderia e desenvolveria sozinho seu estilo. Todavia, é inegável que Angus traz muito de Chuck Berry em suas composições e, principalmente, em sua performance de palco, em que pinçou alguns trejeitos de Chuck Berry, numa intensidade alta que tinha sua própria versão da “dança do pato”, invenção de Chuck Berry.

Confira “Roll Over Beethoven”, um grito de libertação do Rock N’ Roll frente a cultura musical das elites do passado e que consagrava o Rock como cultura musical dominante no período.

Segundo Anguns, “Keith Ricahrds era o cara. O Stones fizeram algumas das melhores músicas do Rock N’ Roll. Mas, provavelmente, Chuck Berry era o maior de todos. Eu assisti a todos os imitadores e bandas de bar que tentavam emular o que ele fazia. Mas, somente somente Chuck, soa como Chuck”, e continua declarando sua reverência a Chuck quando diz “eu amo Chuck Berry, mas não posso tocar como ele”. Já em outro momento chegou a dizer que “até mesmo em uma noite ruim, Chuck Berry é muito melhor do que Eric Clapton poderia vir a ser algum dia”!

Quando o Rock N’ Roll Hall of Fame foi aberto em 1986, Chuck Berry foi um dos primeiros a serem indicados, e os Rolling Stones fizeram as honras, com Keith Richards assumindo que roubou cada lick que Chuck Berry tocou. Após a confirmação da morte de Berry, Richards publicou a seguinte mensagem: “Eu nem sei se Chuck tem ideia do que fez. Eu acho que não… Foi algo tão completo, uma grande sonoridade, um grande ritmo saindo da agulha de qualquer um dos discos de Chuck. Foi quando eu soube o que gostaria de fazer da minha vida.”

Os Rolling Stones regravam ao menos três clássicos de Chuck Berry, com destaque para “Little Queenie”…

Chuck Berry era um dos últimos grandes desbravadores do Rock no cenário musical, e sua perda é imensurável, mesmo que sua carreira pouco tenha frutificado após sua segunda prisão em 1962. Sua presença física sempre foi uma das provas de que o Rock vai muito além da técnica e da métrica. É emoção, lascívia e sentimento!

Em 2017, uma parte da história do Século XX morre junto com Chuck Berry, mas sua obra é eterna e sempre inspiradora!

Abaixo, elaboramos uma seleção de onze clássicos para você ingressar no mundo musical de Chuck Berry: 

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