ATUALIZANDO A DISCOTECA: The Kings In Ely Street: “The Kings In Ely Street” (2017)

Digite seu endereço de email para acompanhar esse blog e receber notificações de novos posts por email.

digipack THE KINGS.indd
The Kings In Ely Street: “The Kings In Ely Street” (2017, Independente) NOTA:10,0

Quando este primeiro álbum da banda The Kings In Ely Street entrava em seu último ato, com as luzes da ribalta já se apagando, e ouvi Howlin’ Wolf, o gêmeo furioso de Muddy Waters no Blues, e um dos mais influentes nomes da música moderna, explicar, em sua clássica gravação, o que é Blues, eu entendi a geometria do alicerce musical que me prendeu desde o início nestas doze composições.

As palavras de Wolf abrem a faixa “Black Water”, responsável por dar movimentos finais a um trabalho que exala emoção e destreza em cada nota, e, no caso desta composição, os cacoetes do Blues estão mais próximos da veia britânica sessentista, principalmente nas pinceladas brilhantes de órgão Hammond, dando uma abordagem instigante ao Blues Rock.

Pode parecer estranho começar a análise de um álbum por sua última canção, mas é ali onde o segredo é revelado! Nascida em 2015, a banda The Kings In Ely Street é capitaneada por Edgar Artur, que é, na verdade, Marcelo Deiss emprestando  o nome do pai e do avô nesta empreitada artística, quase como a transmissão mediúnica de uma alma musical pelos acordes de um peculiar instrumento: o ukelele.

Resultado de imagem para The Kings In Ely Street

A banda The Kings In Ely Street é capitaneada por Edgar Artur, que é, na verdade, Marcelo Deiss emprestando  o nome do pai e do avô, que tocava violão e guitarra desde os 14 anos, até ser arrebatado pelas quatro cordas do ukele. 

Edgar (ou Marcelo) é paranaense, radicado em São Paulo, que tocava violão e guitarra desde os 14 anos, até ser arrebatado pelas quatro cordas do ukele. Sobre este relacionamento com o instrumento, ele conta: “o ukulele abriu as portas para mim de uma maneira que eu fiquei muito surpreso! Consigo escrever e criar as melodias com rapidez sempre procurando a minha identidade”

E mesmo que construído sobre um instrumento que, à priori, transmite uma impressão de parca possibilidade de variação de arranjos e detalhes, cada composição soa diferenciada em seu sabor, e o principal, imprevisibilidade em suas construções. E isto só é possível, como revelado em “Black Water”, pelo esqueleto musical minimalista/primitivo do Blues, de nomes como Son House e Howlin Wolf.

Mas as composições, no geral, não são simplórias ou primitivas, muito pelo contrário. Através de camadas sobrepostas de gêneros, timbragens e texturas, construídas sobre a estética folk/blues, Edgar preenche este esqueleto com um amálgama de Rock, Soul, e Psicodelia, refrescado pela modernidade indie, com uma identidade impressionante.

Confira a faixa “Columbia”… 

Retornando ao ponto inicial do trabalho, “Out of The Blue” já entrega uma profundidade bucólica e aconchegante, por linhas envolventes entremeadas a passagens progressivas, enquanto “Let It Shine”, na sequência, jogará um pouco de sol no terreno indie.

Nestes dois primeiros momentos percebemos um requinte subjetivo, aliado a um sabor vintage que transita entre a psicodelia sessentista e o pop adulto setentista, rejuvenescido por uma miríade de detalhes que borbulha a cada movimento.

Mesmo soando extremamente familiares e palatáveis, é praticamente impossível classificar estas composições. Se por um lado elas possuem o espírito trovador de Cat Stevens e Van Morrison, por outro também experimentamos a sutileza e a sensibilidade de Jackie Greene (confira a excelente “Columbia).

E se formos elencar influências, ainda partiremos da já citadas crueza e honestidade do Blues de Son House, passando pela ousadia apaixonante de Randy Newman, pelo bucolismo de Neil Young e pela epifania gospel/soul, até chegarmos o frescor da modernidade folk de Bon Iver, tudo por um clima quase lúdico que versa sobre amor, perda, desafios, e conquistas.

Confira o álbum na íntegra, via Bandcamp… 

O vocais são extremamente versáteis, e os detalhes instrumentais gloriosamente encaixados por uma produção orgânica que conseguiu dar lisergia à proposta, mas paradoxalmente deixou ainda um aroma de orvalho em meio ao torpor de um pôr-do-sol musical.

Sei que alguns enxergarão defeitos pontuais, outros ouvirão o oportunismo indie de figurar entre o sentimento do Hozier e a ousadia de Father John Misty, mas aos meus ouvidos, que se envolveram e foram conquistados por cada composição aqui presente, não existem problemas neste trabalho impecável.

É difícil destacar uma ou outra faixa num álbum tão coeso e bonito, mas “Beyond & Forever” “In The Twilight” brilham em sua arenosa exploração soul/gospel, guiada pelos backing vocals espirituais entrecortados por naipe de metais sinuosos. “In The Twilight”, inclusive, me remeteu ao teor de assembléia que o Rolling Stones ou o Primal Scream promoveram em algum momento da carreira.

Nenhum texto alternativo automático disponível.

No saldo final, temos um trabalho que exala emoção e destreza em cada nota e promove um diálogo contínuo entre a vanguarda e o passado, numa fluidez advinda da vida própria que cada composição…

No mais, se o início de “Falling” não te emocionar, e a balada melancólica em que ela se transformar não te fizer desejar uma bebida, duvidarei de sua sensibilidade. Ainda há espaço para citar o espírito roqueiro que encarnará nos arranjos de “Wings” (explosivo folk/rock de textura havaiana) e “Like Wildfire” (forte e mais ácida).

Este primeiro álbum, homônimo, é resultado de um processo fluido de composição, registrado no Estúdio 12 Dólares, em São Paulo, produzido por Mauro Motoki (sócio do 12 Dólares), e mixado pelo experiente Victor Rice.

Mais importante do que isso, este é um álbum que promove um diálogo contínuo, sem exaltações abruptas, entre a vanguarda e o passado, numa fluidez advinda da vida própria que cada composição possui, mostrando a maturidade de Edgar como um compositor que consegue sair do lugar comum dentro do indie atual.

Anúncios

E aí? Curtiu? Conte-nos o que achou desta postagem, mas seja educado, por favor!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s