ATUALIZANDO A DISCOTECA: Roger Waters, “Is This The Life We Really Want?” (2017)

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Roger Waters: “Is This The Life We Really Want?” (2017, Columbia Records) NOTA:10,0

Um ícone da história do Rock! Poucos são os músicos que vestem esta epígrafe com tamanha propriedade quanto Roger Waters. Como um dos membros fundadores, líder intelectual, e letrista do Pink Floyd, marcou o gênero progressivo, como precursor e desbravador, obtendo sucesso tanto comercial, quanto de crítica com álbuns irrepreensíveis como “The Dark Side of The Moon” (1973), “Wish You Were Here” (1975), e “The Wall” (1979).

Sua personalidade artística e musical sempre se mostrou confrontadora, e seu discurso profundo, cheio de alegorias, questionava as incongruências de sua época.  E neste “Is This The Life We Really Want?”, quarto álbum solo de estúdio, e o primeiro em vinte cinco anos com músicas inéditas (o último foi “Amused to Death” [1992]), Roger Waters promove um declarado manifesto anti-Donald Trump, indo além da crítica gratuita, por versos inspirados.

Produzidas e mixadas por Nigel Godrich (Radiohead, Paul McCartney), estas 12 novas músicas contém “comentários inabaláveis sobre o mundo moderno e os tempos incertos”, emolduradas musicalmente por um progressivo esfumaçado, com as tradicionais digitais de Roger, e impregnado de uma lisergia distópica, sendo tão afável e suave quanto sombrio e denso.

Is This The Life We Really Want? comes 12 years after Roger Waters's (above, with producer Nigel Godrich) last new work, the opera Ca Ira, and 25 years after his last studio album

Roger Waters e Nigel Godrich promovem um declarado manifesto anti-Trump, indo além da crítica gratuita, por versos inspirados, melodias doces, e harmonias hipnóticas, esfumaçando o Rock Progressivo por uma lisergia distópica, de tonalidades teatrais e cinematográficas…

Abrindo com a tradicional psicodelia adocicada, de melancolia paranoica, arranjos emocionais e voz que ecoa grandes clássicos do Rock, temos “Dejá vù”, uma obra-prima do progressivo contemporâneo, de beleza advinda da sombra emocional que explode e retrai como uma tempestade de sentimentos.

A fórmula progressiva de Waters permanece envolvente e bela, mas também ousada e esmerada, tocante em seus mínimos detalhes, incluindo diálogos, violões, pianos, efeitos, e teclados. Porém, todos estes elementos se aglutinam em prol da música triste e requintada, mesmo em seu aparente minimalismo em certos momentos.

Confira o clipe para a faixa “Wait for Her”… 

Claro que não faltam remissões à sonoridade clássica do Pink Floyd, de álbuns como “Animals” (de 1977, e que criticava as condições político-sociais da Inglaterra dos anos 70) e “The Final Cut” (de 1983, e que mais parecia um álbum solo de Roger Waters), principalmente nas faixas “Part of Me Died”, “Picture That” (uma das melhores do álbum, que consegue ser lisérgica e distópica ao mesmo tempo), e “Smell the Roses” (e sua ironia roqueira), mas nada que soe autocópia, pois o tempero é diferente.

Waters tem personalidade própria, ousando e experimentando tempos, texturas, e harmonias, mesmo que sutilmente como em “The Last Refugee”, na hipnótica faixa-título onde o arranjo de cordas flui num suspense cinematográfico, e em “Bird in a Gale” (com sua intensidade incômoda).  Estas são mostras que “Is This The Life We Really Want?” é um álbum que consegue ser melancolicamente melódico e angustiantemente agressivo.

Confira o clipe para a faixa “The Last Refugee”…

No geral, destacamos os backing vocals e os arranjos de cordas que roubam, junto ao piano, o protagonismo das guitarras, abrilhantando o álbum como um todo, num contraste com a “inorganicidade” das texturas eletrônicas vintages (“Picture That”, por exemplo, seria composta pelo The Doors se o universo fosse desenhado por Philip K Dick), ao lado das usuais baladas de Waters desfiladas em “Broken Bones”, “The Most Beautiful Girl” “Wait for Her”. Mas claro que nada que brote da criatividade de Roger é simplório, pois existe muita profundidade emocional nestes temas.

A produção é orgânica, aconchegante, límpida, e honesta, dando a tonalidade perfeita para a musicalidade que se quer desenvolver, sendo moderno  e relevante dentro do Rock Progressivo, chegando a lembrar a incisividade, a eloquência, e o inconformismo musical dos últimos trabalhos de David Bowie.

Confira a faixa “Smell the Roses”… 

Waters é um dos grandes artistas ainda vivos que consegue transformar suas inquietudes e sentimentos, motivados pelo descontentamento com o mundo e com a realidade, em música. Quiçá, ele seja um dos últimos desta linhagem nobre  dentro da música e “Is This The Life We Really Want?”  é a prova disto.

Um álbum de protesto, com visões textuais agressivas quanto a ruína social da humanidade, dicotomicamente desenvolvida por melodias doces, e harmonias hipnóticas, de tonalidades teatrais e cinematográficas, num exercício de paradoxos artísticos que refletem as contradições de nossa atualidade.

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